SOCIEDADE


Jessica Amorim ︎



Imagem: Reprodução

Viver artista para além do seu quintal.


E já que estamos na internet, será que estamos aproveitando ao máximo a possibilidade de ir mais longe quando se trata de acessar mais narrativas?


A pandemia segue e com ela o desvelar das questões sociais e suas problemáticas também. A cada dia, mais e mais, as camadas dessa crise global se aprofundam e, quando tudo dá aquela balançada, a arte e a cultura, que já não são as favoritinhas do sistema, se veem ainda mais a beira de um colapso.

Sem querer fazer uma estreia sombria, acredito que ficar atente é o que torna possível um pouco de luz: uma pesquisa da Americans for the Arts, uma organização sem fins lucrativos com sede em Washington D.C, revelou que 62% dos artistas dos EUA estavam totalmente desempregados e mais de 94% experimentaram uma perda de renda com a pandemia. Isso lembrando das confusões em compreender quem de fato é artista. No Quênia, por exemplo, o governo criou um fundo para aliviar essa tensão entre trabalhadores de arte, mas não incluíram artistas visuais no documento. Já situações mais dramáticas tem o caso de Filipinas, que o governo censurou e bloqueou a transmissão do maior canal do país, ameaçando assim instituições culturais e artísticas, o que levou artistas filipinos a acusarem o atual presidente, Rodrigo Duterte, de exploração da crise da saúde para ganho político. Aqui no Brasil as coisas não andam muito diferentes, né? É só lembrarmos que o desmonte da cultura tá rolando desde muito antes do coronavírus ter colado, projeto que foi intensificado pela cultura de lockdown através do cancelamento de grandes eventos em todo o mundo. E, assim, por todo lugar artistas estão tentando encontrar alternativas para esses tempos, como listas de recursos e oportunidades para artistas freelancers, ou editais específicos para produção em quarentena.

Porém é preciso não esquecer também que dentro de cada situação, os contextos e narrativas são inúmeros, e algumas delas são mais delicadas. Lucas Veloso, jornalista e co-fundador da Agência Mural, fez algumas matérias sobre o assunto nessa quarentena e comenta que a maioria dos artistas com quem conversou têm falado da situação financeira. Afinal, o rolê por aqui costuma ser produzir hoje para comer amanhã, o que dificulta um planejamento a longo prazo. Trocando rapidamente também com Laerte Breno, colunista do Voz das Comunidades e educador popular, ele reforça sobre essas disparidades ao falar dos artistas do seu território, a Favela da Maré na Zona Norte do Rio de Janeiro, que contam com uma escassez ainda mais profunda no sentido de visibilidade, apoio, estrutura e recursos.

E para falar do envolvimento do poder público aqui no Brasil, a Lei Federal 14.017/2020, mais conhecida como a Lei Aldir Blanc, tem como ideia oferecer uma ajuda emergencial para artistas, coletivos e empresas que atuam no setor cultural. Inclusive, surgiu pela dificuldade de muitos artistas em acessar o Auxílio Emergencial. Mas a questão é: será que essas políticas públicas estão bem estruturadas para contemplar quem realmente precisa? No episódio 6 do podcast Quilombo Periférico a gente pode ouvir Gil Douglas, que integra a gestão do Movimento Cultural Ermelino Matarazzo, falar sobre sobre a dificuldade de acessar essas ferramentas, que não apresentam soluções efetivas sobre as desigualdades presente na cultura.

Nesse sentido, dá pra perceber que a movimentação do apoio da comunicação comunitária e periférica, que já rolava antes da pandemia também - sempre bom reforçar -, é o que tem contribuído com os artistas desses contextos. Afinal, a mídia hegemônica costuma falar da classe artística hegemônica, certo? Laerte aqui: “A gente pensa muito que o Estado é o inimigo de qualquer território geográfico periférico, mas não só. A mídia hegemônica também exerce esse papel de colaborar com interpretações equivocadas do que de fato somos”. O que nos lembra, inclusive, a fala de Silvio Almeida em sua participação no Roda Viva no mês de julho sobre como os meios de comunicação são coniventes com a construção de “quem pertence” a lugares subalternos.

Durante esse período pandêmico, então, para ficar por dentro das narrativas de artistas não consagrades é importante acompanhar também a mídia independente, que tem se engajado em compartilhar financiamentos coletivos para produção de jovens artistas, ou disseminado festivais online de produtores culturais independentes, ou contribuir na visibilidade de novas criações.

Se a arte não deve ser para um nicho específico enquanto produção, muito menos deve ser enquanto consumo dela. Já que por ora estamos inseridos em um contexto limitado de acesso, precisamos fazer aquele tarefa de casa para compreender onde estão nossas visualizações e cookies, afinal o algoritmo do que se consume não se cria sozinho.


MJOURNAL ED.004 - FLOR DE CEM, RAIZ DE MIL.