Moda


Wanessa Yano ︎
 Edição: Gabriela Campos︎


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©  Andrey Solovev/ Adobe Stock

Tu vestes, eles vestem. E nós, vestimos? Sobre tendências que violam outras existências



 

Este artigo surge da inquietação motivada por Ana Rodarte em O espelho dos nossos desejos: o que os desfiles nos contam sobre a política do amanhã, iniciando -se em um primeiro estágio na menção dos aspectos apontados por Violeta Sutili, de que “ toda a prática da moda diz sobre o desejo.” Sendo assim, a questão que ganha forma é  como seria se os desejos dos corpos que são mutilados, e levados a uma imposição sobre o que devemos desejar, e ser? Uma vez que “o negro é um escravo a quem foi permitido adotar uma atitude de senhor.”  FANON


Proponho, então, desaguar sob a orientação pluriversal, fora do eixo central imposto pelo colonialismo a todos os povos que não compartilham da mesma origem e perspectiva eurocêntrica. Entendendo as micro anulações destas subjetividades, presentes no colonialismo/neocolonialismo, como um genocidio.  E o quanto seguimos debruçados aos conceitos de moda a partir da hierarquia ocidental, criando recortes culturais, sociais, políticos com o objetivo de encaixar a cosmopercepção, que conflitam com o modelo atual, e seguem historicamente anulados da dita “história da moda”.

Então, como uma teoria eurocêntrica pode sustentar o modo de se perceber o mundo dos povos não ocidentais?  Uma vez que não há necessidade de se ter a resposta no agora, já que a partir dessa provocação, a inquietação pode ressoar posteriormente. Por hora, apresento aqui apenas a tentativa de se compreender o vestir como um ato político fora das amarras teóricas que da moda, deslocando a perspectiva para esse não-lugar, tendo como objeto de trajeto, a Balaclava, de e como o acessório é um risco para pessoas racializadas.

Rodarte aponta a existência de uma preposição ambígua e que ambas as observações deságuam em um mesmo lugar: o olhar eurocêntrico sobre corpos não ocidentalizados. E assim a resistência desses corpos em não aderir às "tendências" do norte global podem ser lidas como desobediência civil, enquanto política de enfrentamento às proposições imagéticas de corpos não racializados.

Para explicar quem decide quem pode e o que devemos vestir, faremos um rápido recorte tendo o Brasil como território de análise onde a história do vestuário das pessoas pretas é majoritariamente apontado por Gilberto Freyre. Onde para essa codificação recorreu às anotações de Debret que, entre outros, afirmavam que o vestir e portar dos africanos era uma assimilação dos hábitos ocidentais, relatando por exemplo, que os africanos aprenderam costura e modelagem com os franceses. O que exclui por completo que, antes do contato dos europeus com o continente africano, os Keméticos/Egípcios já produziam tecido e vestuário retratados em diversos papiros, ancestrais mumificados, apagando inclusive as sandálias de Tutancâmon. Dentre os aspectos das violências sofridas por corpos colonizados temos  a invisibilização e desvinculação do Egito do África, a multilação que as relações com o vestir experenciaram através da imposição do dress code cristão, e também [mas não só] a “demonização” a nudez dos povos originários nomeados como "negros da terra".

Durante o  séc. XVIII era permitido ao indigena, e aos negros, um par de camisa e calça para os homens, e saia, camisa e um xale as mulheres de algodão de péssima qualidade, materializando a representação do poder hegemônico e discursivo que opera tanto por meio da cultura, da produção de conhecimento quanto pelas relações imagéticas de representação, segundo HALL. Processo esse que foi facilitado pela utilização da lei em favor da repressão de quaisquer desobediência em relação ao vestir. Essa obrigatoriedade  condicionava esses corpos a fazerem uso de roupas igual aos dos europeus, forçava que os "senhores" fornecessem o vestuário adequado à seus escravizados. Contudo, foram encontrados símbolos de “ostentação” nos trajes destes povos, e assim 1745 João V proibiu o “luxo no modo de vestir dos criados e escravos". O mesmo ocorreu na Carolina do Sul, através do chamado Negro Act 1735, que decidia o tipo de roupa que os negros poderiam utilizar, assim permitindo que os mesmos fizem uso de roupas descartadas pelos "donos". O vestuário também passou a ser usado para reforçar as distinções sociais entre escravizados e entre os senhores e seus escravos. Em paralelo, na Louisiana por exemplo, um decreto do governo obrigou as mulheres africanas a usarem o cabelo preso, e escondidos com tecidos, cujo objetivo era impedir os homens brancos a se relacionarem com mulheres que eram consideradas socialmente "abaixo" deles, tendo em vista que o cabelo era objeto de sexualização dos corpos ditos femininos. Essa imposição transformou os TIGNONS [turbantes] em símbolos de resistência.


Então surge a pergunta? Quem pode usar Balaclava?



Se caminhamos para uma pergunta sobre quem pode ou não, é necessário considerar que implicitamente, existe a restrição velada a quem é permitido o uso do acessório, remetendo-se a estrutura de poder que permite o que os povos minoritários podem usar em seu corpo, desde o séc. XVI, sem que os seus corpos sejam submetidos a violência.

O debate sobre a permissividade do acessório aparentemente parece ter ganhado forças em 2022 com a Tiktok Malihaness, ganhando força pelo considerável uso do acessório como medida de prevenção à covid 19, trazendo à tona os debates sobre a usabilidade da máscara em homens pretos, que questionam: Como faço para cobrir meu rosto e não levar um tiro?  A pesquisa realizada pelo Washington Post constatou que  Homens negros usando máscaras estavam sendo tratados como suspeitos de crimes, “de acordo com estereótipos de longa data que ligam negritude e criminalidade”. Esse histórico é estendido ao uso da balaclava por pessoas negras, que mesmo considerando origem militar do acessório, foi capaz de gerar um debate sobre o uso no Brasil em 2015 quando após 20 anos de proibição do uso do acessório pelas autoridades, foram permitidas em ações no RJ. A utilização do acessório levanta discussões há algum tempo na moda, desde o seu uso por Kanye West em 2013. Beyoncé e Jay-Z, fazem uso da mesma nos materiais de divulgação da On the Run Tour em 2014, que remonta a história do casal que está junto há quase 20 anos. A história dos dois foi eternizada na música '03 Bonnie & Clyde, produzida por Kanye West, fazendo referência a "Me and My Girlfriend" do Tupac, que em um dos trechos diz que ele e a sua namorada (usada como metáfora) são como Bonnie e Clyde [casal de contraventores da década de 30]. Tupac, por sua vez, trouxe através de seu último  último álbum com o alter ego Maquiavel, onde ele descreve questões sobre raça, e ser um jovem negro, rico na américa e as diversas mentiras contadas pela mídia.

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Divulgação

 
Já em 2018, a campanha da Nikelab x MMW foi altamente criticada pela utilização de um homem negro fazendo uso do acessório na comunicação da coleção. Ainda no mesmo ano a designer Marine Serre foi acusada de apropriação cultural pela jornalista e ativista Celine Semaan, que em 2017 usou as suas criações para questionar o código de vestimenta determinado pelo governo Trump, alegando que "a vestimenta de moda torna um totem, um objeto sagrado ou um símbolo que serve como emblema de um grupo de pessoas que compartilham as mesmas crenças". Só que o "lenço proibido" se relaciona com a balaclava enquanto estrutura [mas não enquanto significado].


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Reprodução / Nikelab x MMW


E assim, enquanto a neocolonização segue firme e forte na marginalização do Hijab e do Niqab, exercendo inclusive autoridade policial sobre mulheres muçulmanas que fazem uso de um artigo considerado sagrado, as grandes Maison utilizam a balaclava e lenços em torno dos rostos como símbolo de moda. Mas, por só por isso essa dita "moda" só deveria funcionar em um mundo que as mulheres mulçumanas não são criminalizadas por isso, já que em através do racismo e da islamofobia, o foco principal de discriminação são mulheres e homens racializados.

E então: qual é a neutralidade existente na normalização do uso da balaclava, como imagem publicitária de grandes marcas? Escolher a neutralidade automaticamente aponta um posicionamento. Logo, já sabemos a quem é permitido usar.








Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.