INDÚSTRIA TÊXTIL



Gabriela Campos︎



Imagem: Issey Miyake, 1999.

E agora? Já estamos no futuro?


Mudança vai, mudança vem e os tecidos sempre presentes para designar como e o que queremos do futuro. Se hoje presente e futuro estão mais que juntos, o que podemos esperar dos novos materiais têxteis pós-pandemia?

A constante atualização das perspectivas de tempo, proporcionada por agentes transformadores diversos, desenham uma movimentação do mundo em direção ao futuro. Esses processos de transformação da estrutura, mesmo em diferentes períodos da história, encontram na evolução dos têxteis o plano de fundo perfeito para materializar novos horizontes. O agente da vez, a pandemia COVID-19, que dá a sensação de que estamos vivendo o futuro aqui e agora [com trabalhos remotos, novas perspectivas de entretenimento…], não trataria diferente nossa relação com os tecidos.

As recomendações da OMS quanto ao uso de máscaras faciais como uma das maneiras de prevenção do Coronavírus, ampliaram a discussão em torno da hiperproteção de maneira individual e dos materiais mais adequados para isso. Ao passo que alguns fabricantes adaptaram suas estruturas, como na Índia, para passar a fornecer tecidos antimicrobianos já conhecidos a fim de driblar a crise do setor, outras empresas, como na França, em Israel e no Brasil, têm desenvolvido novos processos têxteis para garantir eficiência dos materiais de proteção individual. No Brasil, as pesquisas andam em estágio bem avançado: a Diklatex, empresa catarinense, em parceria com o Cetiqt-SENAI, desenvolveu o Truelife Shield Antiviral. O tecido carrega nas fibras um combinado de ativos químicos que, em testes feitos pelo laboratório Bio Manguinhos/Fiocruz, é capaz de inativar determinados tipos de vírus, como do Sarampo e da Caxumba. Os testes em relação ao novo coronavírus estão em fase final e devem ser concluídos nos próximos dias. Em São Paulo, a Nanox, decidiu testar a eficácia de micropartículas de prata contra o coronavírus que, até então, eram fornecidas pela empresa para desenvolvimento de tecidos de roupas antiodores. Os testes estão em andamento pela USP e a empresa já entrou com pedido de patente da tecnologia. E sobre a inserção de metais em fibras têxteis, tem rolado uma ampla discussão acerca da produção de máscaras usando cobre, já que desde 2008 suas propriedades antibacterianas são reconhecidas. Mas ao contrário do que foi pensado e divulgado, já se comprovou para que máscaras e/ou tecidos serem efetivos de fato, cada fibra precisaria ser tratada com o metal e isso tornaria os produtos caros e incapazes de serem utilizados, segundo as diretrizes da CDC.

Sob a ótica do vestuário, encontramos propostas em que as práticas de futuro estão diretamente ligadas à sustentabilidade. Stella McCartney, já conhecida por seguir diretrizes sustentáveis em suas criações, comprometeu-se a remover por completo o uso do nylon virgem até o final de 2020 e já vem implementando o uso do ECONYL (fio de nylon 100% reciclado a partir de redes de pesca e carpetes) gradativamente nas suas coleções. A marca trouxe também, no início deste ano o dito primeiro jeans biodegradável do mundo. E por falar em jeans, a Jeanologia, indústria de maquinários para beneficiamento do tecido, desenvolveu uma nova tecnologia de sanitização que promete eliminar o coronavírus das superfícies têxteis sem o uso de aditivos químicos. Com os estoques de tecidos recicláveis comprometidos pelos próximos dois anos, algumas alternativas já amplamente discutidas, como as roupas de cânhamo, se estruturam no mercado. A DRIHP conta que a produção da fibra usa cerca de 1/20 da água utilizada necessária para crescer e processar tecidos de algodão tradicionais. Além disso, um hectare de cânhamo produz mais O2 que 25 acres de árvores e alteraria consideravelmente o processo de conversão de CO2 em biomassa. Na mesma pegada, a Levi’s tem como objetivo em até 5 anos, criar peças 100% cânhamo, com a mesma maciez do algodão empregado na fibra convencional do jeans. Uma outra possibilidade na busca pela sustentabilidade e consequente substituição do algodão, vem da startup Mi Terro, que transforma em fibra a caseína extraída do leite produzido em excesso, através de biotecnologia.
As marcas de materiais esportivos seguem desenvolvendo projetos que adicionam processos sustentáveis à produção de itens de alta performance. A exemplo do que começou em 2015, em parceria com a Parley for the Oceans, a Adidas, que produziu artigos de alta performance a partir de plástico reciclável retirado dos oceanos, cria em comemoração aos 5 anos da parceria, a tecnologia Primeblue que contém no mínimo 40% de plástico retirado dos oceanos em sua composição. E seguindo os mesmo passos, a Puma também estabeleceu diretrizes de sustentabilidade com a coleção “Design to Fade”. A terceira, da série de coleções que vêm sendo lançadas desde 2016, visa impactar em uma perspectiva 360º - de matéria prima aos métodos de produção - a criação dos produtos da linha. A coleção lançada recentemente conta com a tecnologia Streamateria, que consiste em peças de vestuário construídas a partir de estruturas de malha impressas e revestidas com bioplástico. A The North Face, conhecida pela busca por apresentar soluções que forneçam alta performance em termos de adaptabilidade, lançou a tecnologia FUTURELIGHT, que promete uma excelente proteção contra água, sem comprometer e reduzir a respirabilidade. Enquanto isso na Universidade de Manchester, foi desenvolvida a  pesquisa sobre uso de nanopartículas de grafeno nas roupas, visando a diminuição da temperatura corporal através das ondas eletromagnéticas emitidas pelo próprio corpo.

Além da busca por práticas ecologicamente corretas no que tange uma das indústrias mais poluidoras do mundo, a autoproteção sempre esteve entre os principais objetivos das inovações têxteis e o monitoramento é mais um fruto dessa necessidade de hiperproteção/hipervigilância que o coronavírus intensificou. Segundo o recente relatório divulgado, outras condições impostas pela pandemia permitiram o crescimento do mercado de tecidos tecnológicos [E-textiles e Smart Textiles], como a queda no preço dos tecidos, por exemplo. Essa face dos novos materiais têxteis expande os horizontes para além do vestuário: o Laboratório de Materiais Fotônicos e Dispositivos de Fibra da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, desenvolveu uma nova tecnologia sensorial que é capaz de detectar qualquer tipo de alteração em diferentes tecidos do corpo e gerar uma comunicação mais segura e efetiva com robôs. Essa atualização dos sensores já conhecidos, que capta os sinais através de pulsos elétricos, está pronta para ser incorporada em superfícies que permitem uma maior mobilidade: como lençóis hospitalares que poderão monitorar de forma geral os sinais vitais do um paciente, por exemplo.

Considerando que não fazem seis meses que as contaminações pelo Coronavírus atingiram o status de pandemia, a indústria já está nos deparando com diversas alternativas e inovações capazes de mudar drasticamente como consumimos tecidos em suas diversas aplicabilidades. Declaradamente o futuro aqui e agora. E de normal, ele não tem nada.