HISTÓRIA DA MODA



Wanessa Yano ︎



Imagem: Mama Casset 

Nem só de estampa colorida é feito o tecido Africano.


O pensamento colonial nos fez perder a percepção da identidade cultural africana.  O principal modus operandi do colonialismo é fazer com que os colonizados criem uma certa fobia para as culturas que não fazem parte do circuito intelectual eurocêntrico, sustentado pelo conceito de hierarquia das raças, que foi utilizado para legitimar os seus feitos xenofóbicos. Esta estratégia de amplitude mundial permitiu consolidar narrativas pejorativas sobre os africanos e os demais povos, que até hoje são entendidos como primitivos, fazendo com que as suas filosofias, cosmologias, tecnologias, engenharias, entre outros processos culturais fossem desacreditados, e menosprezados até os dias de hoje.

Recolocar os fatos na história através de uma perspectiva decolonial, nos permite humanizar estes povos que tiveram suas vidas e concepções anuladas. Este é caso do legado africano, que foi negligenciado como precursor na fabricação têxtil no mundo. Tendo o seu espaço geográfico desfragmentado, dando a ideia de que alguns países ao norte e nordeste, como o Egito, e Marrocos não pertencessem a este continente, desta forma invalidando os processos têxteis tecnologicamente avançados desde o surgimento do homem. Uma vez em que os processos de tecelagem já eram conhecidos desde o início do Neolítico cerca de -5000 a.c onde resquícios de tecelões foram achados na região do Cartum atual capital do Sudão.

Com o advento da agricultura poderemos encontrar neste mesmo período o início da fabricação têxtil do linho, e do algodão. Por isto é válido afirmar que os primeiros tecidos africanos são o linho e, o algodão, que serviram, e ainda servem como base para diversos outros processos como por exemplo o papiro que foi produzido séculos mais tarde. Além dos processo de plantar, colher, fiar, o tingimento natural também foi introduzido no mundo pelos africanos, a partir da planta indigoferia tinctoria, conhecida como o índigo, o azul do mundo. Os povos da África ocidental, dominavam muito bem os processos têxteis antes mesmo dos Europeus que só pisaram no continente africano em meados do século 15.  Inicialmente as importações para o Brasil eram tradicionais, dentro destas incluem-se os tecidos tradicionais africanos. Por isto que no Brasil no século 16 - 17 muitos africanos da parte ocidental foram direcionados para as lavouras de algodão por suas habilidades com a matéria prima.

No Brasil uma das primeiras matérias primas a serem tecidas e utilizadas para vestuário foi o Algodão. Confeccionado de forma grosseira para roupas das pessoas em situação de escravizados. Os homens se vestiam com calça, camisa, casaco e cobertor, as mulheres com saias, camisa, e xales. Este vestuário se manteve vivo dentro das culturas africanas de resistências, como as Irmandades, o Candomblé, a capoeira, o samba de roda e entre outros. Eram os próprios africanos que confeccionavam suas vestes, principalmente os que se encontravam na roça, pois além de produzirem seus vestuários ainda vendiam o algodão em pequenas quantidades. Uma curiosidade sobre o algodão é que as mulheres que eram pegas no laço ( Estupradas) consumiam as sementes  como abortivo.

Os teares presentes no Brasil eram de origem africana, exportados desde o final do séc 18 da nigéria para a Bahia, que tempos depois continuou com a produção dos panos da costa, e este foi um conhecimento guardado em segredo e passado de gerações a gerações, assim como a cultura do Índigo no Brasil. No Século 19 o algodão fazia parte das mercadorias de maior produção e  exportação do Brasil, ao final do século 19 o Brasil já possuía fábricas conhecidas como “ Fábricas de tecer” mantidas por mãos pretas. A riqueza gerada através da escravidão foi marcada pela plantação, e tecelagem do algodão, pois este era um dos produtos de grande valia para exportação. No século 21, atualmente mesmo com Covid -19, e a praga de gafanhotos, o mercado agrário brasileiro aposta no algodão. O oeste da Bahia promete safras rentáveis, desde a última colheita de 1,6 milhões de hectares.

Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) mesmo durante a pandemia a produção de algodão não teve pedidos cancelado, apenas o aumento no prazo para a entrega do produto. Mesmo com o mercado agrícola em queda o Brasil já exportou cerca de 2 milhões de toneladas de algodão até junho deste ano. A Anea estima que a exportação de algodão alcançará a marca de 50 mil toneladas. A exportação de algodão no brasil bate o seu recorde de registros de embarque em 2020. A indústria têxtil parece ansiosa para 2021, e quem paga o preço por isto? Nós já sabemos bem. Uma vez em que as suas áreas de cultivopermanecem quase que intactas desde meados do século 16.