MODA


Ana Rodarte ︎



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© Vitaly / ADOBE STOCK

Subversão num entrelaçar de dedos


Nova geração de estilistas reafirma a força política e afetiva das técnicas artesanais e desafia pressuposições chinfrim de mercado.

Não é preciso chegar muito perto para saber como ainda sangram os bordados de Zuzu. O poder de denúncia de seus pássaros, canhões e anjos não passou despercebido pela repressão que atormentava o Brasil na época:  em 14 de abril de 1976 a costureira foi assassinada por agentes da ditadura militar. Zuzu Angel tinha tudo para carregar as tradições pacatas de sua terra, Curvelo (MG), num trabalho que mantivesse sua pomposa clientela satisfeita e assim sustentar os filhos que precisou criar sozinha: Stuart, Hildergard e Ana Cristina. Mas quando Stuart foi preso, torturado e morto pelos militares em 1971, Zuzu fez das roupas uma plataforma de luta num súbito despertar político. Em setembro do mesmo ano, ela denunciou a violência dos militares em um desfile-protesto, repleto de canutilhos, paetês e miçangas que fizeram ecoar a dor de uma mãe que perdeu seu bebê.

Hoje, a tônica subversiva de trabalhos como os de Zuzu Angel ressoa entre uma nova geração de criadores. Com técnicas primorosas, apreendidas em ateliers ou entre os almoços de família, eles fazem do vestuário uma plataforma para redescobrir a própria identidade e subverter as narrativas depreciadoras que teimam em silenciar subjetividades e a força política do artesanal. E assim eles vêm se destacando num contexto hipervirtualizado, saudoso que só de tudo o que apela ao toque e à afetividade da memória.

Foi o caso da stylist, estilista e empreendedora Dayana Molina, indígena do povo Fulni-ô, que vive no Nordeste do Brasil. Sua bisavó por parte de mãe era costureira no sertão de Pernambuco. Mesmo fascinada com as agulhas, Day logo percebeu que o mundo da moda era muito excludente e não retratava a beleza de seu povo, como ela contou à FFW. O despertar do ofício que ela apreendeu na infância aconteceu quando ela começou a trabalhar num ateliê de figurino. E foi aí que ela decidiu sacudir a indústria da moda por dentro. Hoje, além de atuar como stylist, ela também gerencia o perfil @indigenasmodabr e comanda a Nalimo, uma marca minimalista que desafia padrões eurocêntricos com uma interpretação urbana da estética Fulni-ô e se destaca no reaproveitamento têxtil. “Me recordo muito bem que, ao lançar a etiqueta, algumas pessoas questionaram onde estavam os grafismos. Como que, por ser indígena, eu obrigatoriamente só poderia criar uma marca com grafismos. (...) Somos livres para criarmos um mundo criativo com autenticidade e autonomia.”, conta ela à ELLE.

A estilista britânica e de descendência jamaicana Grace Wales Bonner também ouviu a voz de sua ancestralidade pra criar uma entonação própria. Vencedora da terceira edição do prêmio LVMH, dedicado a novos talentos e à sua projeção no mercado, e fortemente influenciada pelas leituras herdadas do pai — que contemplam pensadores como James Baldwin, o poeta e dramaturgo Ishmael Reed e Robert Farris Thompson, professor de Yale que reflete sobre a cultura cubana — Bonner traz para o universo do vestuário as suas reflexões acadêmicas pós-coloniais. Para isso, ela alia uma alfaiataria primorosa — que bebe na tradição europeia e nas expressões afro-cubanas das décadas de 40 e 50 — a técnicas de tecelagem e bordados afro-atlânticas, compondo diálogos interculturais para homenagear a beleza da masculinidade negra. Sua precisão técnica é tamanha que ela consegue propor smokings em silhuetas fluidas sem cair no chavão do diáfano. E ainda sobra tempo pra brincar com as proporções da alfaiataria britânica.

E se Wales Bonner é a menina dos olhos do circuito europeu, seu trabalho já espalha semente. Entre seus seguidores, está a designer britânica-nigeriana Mowalola Ogunlesi, que trabalhou com Grace enquanto ainda estava na faculdade e também tem um carinho especial pelo guarda-roupa masculino. Logo quando se formou na Central Saint Martins, Mowalola apresentou uma coleção inspirada na cena musical psicodélica da Nigéria nos anos 70, trazendo peças ultrarecortadas, ultratingidas e ultraglossy em couro — características que viriam a se tornar marcas de seu trabalho. Esse imaginário foi composto com as técnicas de confecção e tingimento que a designer aprendeu em casa: nos anos 60, sua avó saiu da Escócia para abrir uma marca própria na Nigéria. O pai de Mowalola seguiu pelo mesmo ramo, explorando as expressões de alfaiataria do seu país.

O nome de Ogunlesi entrou no radar de geral quando gente como Naomi Campbell, Solange, Skepta, Drake e Megan Thee Stallion passaram a desfilar suas criações cheias de sex appeal por aí. Foi numa dessas que Kanye West (ele, sempre ele!) convocou a estilista para integrar o time da Yeezy Gap. E pra quem vem com narrativas reducionistas sobre o pós-colonialismo, a estilista já tem recado pronto: “Eu sou nigeriana, então tudo que eu criar será automaticamente considerado como um trabalho nigeriano. Eu não acho que preciso me promover como a ‘designer africana’ (...) As conversas que eu quero que as pessoas tenham na Nigéria são as mesmas que as pessoas têm tido aqui em Londres. No fim do dia, eu sou só uma designer fazendo as m*rdas que eu quero fazer”, contou à Vogue.

E se o assunto é contestar convenções em torno de técnicas manuais, o jovem designer nova-iorquino e descendente de chineses Chet Lo já está com as agulhas de tricô em riste. Reconhecido pelas texturas espinhosas que remetem à fruta durio, Lo conseguiu uma abordagem tão retrofuturista e divertida para seu trabalho que seu estouro é quase um conto de fadas contemporâneo: a influencer de mentirinha Lil Miquela teve de barganhar pra postar uma selfie com um de seus tops e logo o hit tiktoker Doja Cat o descobriu. Embora a ancestralidade seja essencial no trabalho de Cheng Lo, ele aprendeu a manejar o tricô quando estudou na Saint Martins, onde começou a experimentar com fios de monofilamento. Como ele compartilhou com a THE FACE: “É como um fio de pesca muito fino. É bem difícil tricotá-lo porque é tão imprevisível, mas de alguma forma consegui forçá-lo a subir em pontas e ter um efeito 3D. (...) Tudo o que faço é tricotado, o que é uma palhaçada, mas eu me divirto com o desafio de entender como fazer tecidos de maneiras que eu normalmente não faria.”

Resta saber se essas novas abordagens criativas podem conferir uma valorização real do trabalho de artesãos daqui pra frente. Afinal, até mesmo no segmento de luxo, esses criadores ainda precisam lidar com prazos apertados e orçamentos injustos que nada honram a dificuldade de trabalhar com materiais delicados. As dinâmicas de trabalho decoloniais, que buscam trazer mais oportunidades a criadores marginalizados pelos regimes supremacistas neoliberais, podem ser uma alternativa para que essa realidade se transforme. Afinal, o mundo da moda anda precisando mesmo de um sacode, e a gente torce para que ele seja implosivo.





MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.