ESTILO


Ana Carolina Rodarte ︎




Imagem: 
Marbie is Pro, reprodução


SKATELIBERATION


Com coreografias no TikTok, figurinos coloridíssimos, tricks e tombos, patinadores e skatistas propõem uma nova (e muito mais autêntica) ocupação das ruas.

Em 1951, a fotógrafa e cineasta Ruth Orkin reencenou, com Ninalee Allen Craig, uma amiga que conhecera na Itália, uma das muitas cenas constrangedoras que viveu andando sozinha pelo mundo. Diante de suas lentes, a modelo e alguns cavalheiros de Florença reproduziram o que ocorre quando a alteridade ocupa os espaços públicos. “American Girl in Italy” tornou-se um retrato do assédio nas ruas e, ainda hoje, a foto ressoa para quaisquer corpos e corpas que, por ventura, venham a ameaçar a >>norma<<. Quase 70 anos depois, as ruas transformaram-se um território inóspito para mais pessoas. Difícil pirulitar e assoviar por aí quando um vírus de potencial catastrófico pode adentrar por suas narinas ou pela mucosa de seus olhos. Atravessar as cidades exigiu, de todes, uma certa dose de profilaxia e inventividade. E é assim, nesse rearranjo das ruas, que alguns sujeitos vêm revogando um novo olhar pra si por meio de registros que dariam orgulho na dona Ruth. E eles não dispensam rodinhas, coreografias e tombos para isso.

Uma pista disco para afugentar os pesadelos do presente


A ascensão dos patins nos feeds do TikTok e do Instagram é uma equação de múltiplas variáveis. Sim, sim, é verdade toda aquela história: isoladas em casa, sem as possibilidades de movimentar o corpo e de distração que tinham antes, as pessoas encontraram conforto nos vídeos de quem explorava ruas e quadras quase desertas sobre rodas. Neste ano da marmota, ficou evidente que o tempo não se mede apenas no correr dos ponteiros; nós precisamos também de ver o mundo passando por nós. Nem que seja pelas telas de nossos celulares.

Nós entendemos. Mas nos atentemos às outras variáveis! Afinal, justamente no ano em que precisamos fazer das salas de nossas casas uma pista particular, a estética disco teve um ápice. Pense no What’s Your Pleasure de Jessie Ware, no Róisín Machine de Roísín Murphy, no DISCO de Kylie Minogue ou mesmo no dance-synth-pop-herdeiro-de-Donna Summer, Future Nostalgia. O desejo da montação que levávamos pras pistas, bares e pubs permaneceu. Fisicamente distantes dos julgamentos alheios, ficamos assim um tanto mais kitsch. Não falo somente dos delineados que fariam qualquer cubista se contorcer de inveja; quero fazer menção honrosa aos máxi brincos, joias capilares, botas e pleasers com glitter (num ano em que os chinelos tiveram reinado absoluto), garras ornamentais e lábios metalizados. É lógico que nesse esforço de trazer o glamour à tona, um dos filhos mais queridos da cultura disco invadiria nossos feeds.

Porém-contudo-todavia, embora os patins tenham nos ajudado a afugentar os sentimentos de claustrofobia neste ano e sejam acolhedores para a comunidade LGBTQIA+, para quem pratica a modalidade há mais tempo, parece haver um certo whitewashing em torno dessa explosão do esporte nas redes sociais, especialmente nos EUA. Em entrevista ao The New York Times, a instrutora de patins e veterana de pistas de patinação, Coco Franklin, contou que “o que ocorre é que pessoas brancas ou embranquecidas têm tornado os patins mais populares no TikTok, e o TikTok têm dado destaque para esses patinadores”. Por isso, criadores Toni Bravo e Aaliyah Warren têm feito um esforço para retratar, nas redes sociais, a relação entre afro-americanos e os patins.

Além deles, documentários como “United Skates” (Tina Brown & Dyana Winkler, 2018), “Roller Dreams” (Kate Hickey, 2017) e “Soul Skate” (Ramone Anderson, 2018) não só mostram o histórico de lutas e segregação que as pessoas pretas americanas vêm enfrentando nas pistas desde a era Jim Crown, como também a maneira com que a comunidade negra dos Estados Unidos vem moldando a cultura dos patins desde os anos 70. Para se ter uma ideia, cada região desenvolveu seu estilo: os patinadores de Chicago, ao som de James Brown, criaram o J.B. Style; os de Ohio trouxeram o “stride” ou “passo largo”; Filadélfia enfileirou todo mundo em trens no “fast backwards”; já Detroit, Atlanta e Los Angeles foram os berços do “jam skating”, que, embalado pelo R&B e pela disco music, influenciou o estilo rhythm-skating-jam-skating-slash-artistic-skating de Oumi Janta, a solar patinadora senegalesa e alemã que conquistou milhões de visualizações neste ano.

Mas essa vibe lockdown liberation e politizada também vem alcançando outra modalidade, um tanto menos glam, mas igualmente disposta a colocar o mundo como conhecíamos abaixo.

Do VHS aos pódios, com a graça de Stevie Nicks


Há algumas décadas, se você quisesse se inteirar sobre o universo do skate, encontraria suas principais referências em publicações como a Transworld SKATEboarding ou a Thrasher Magazine. Outra mídia importante para a disseminação de manobras e feitos entre skatistas eram os vídeos caseiros em VHS, o que formou uma base de linguagem audiovisual para os registros que vemos hoje nas mídias sociais. Mas se antes os vídeos eram, em sua maioria, feitos de meninos cis-het para meninos cis-het, hoje, em plataformas como o Instagram e o TikTok, a coisa ficou muito mais plural, não só em termos de gênero, como também de estética: Soggy Noodle Bitch não dispensou o drama de “Hopelessly Devoted to You” para flanar por aí com seu cabelo rosa; o anúncio de que Marbie tornou-se pro foi um evento pop; e C the Lover, ao som da trilha de Steven Universe, não poderia ser mais doce ao falar sobre as quedas que marcam os primeiros passos de qualquer skatista.

Para quem tá chegando no rolê agora, quando hashtags como #girlsskateboarding alcançam 626.2K de visualizações no TikTok, é difícil entender os muitos relatos de solidão e medo que mulheres e pessoas queer compartilham ao abordar o início de suas trajetórias. Na série sobre a cena do skate feminino em NY, “Betty” (2020), logo no primeiro episódio a diretora Crystal Moselle é ágil ao apontar para quem as pistas mais badaladas da cidade são reservadas. Fora da euforia das redes, discriminações e assédios ainda são uma realidade — aspectos que vêm sendo arduamente debatidos e combatidos por coletivos femininos, como retrata a diretora Caru Alves de Souza em “Meu Nome é Bagdá” — o longa brasileiro ganhou o Grand Prix da mostra Generation 14plus no 70° Festival de Cinema de Berlim de 2020.

A atriz, poeta, artista plástica e audiovisual Giulia Del Bel, que participou do elenco do filme, compartilha que, embora fosse encantada pelo universo do skate desde pequenina, intimidada pelo domínio masculino no esporte, só começou a praticá-lo aos 17 anos. E foi a solidariedade feminina que a fez ficar:  “Voltei a andar determinada a encontrar mulheres que também andam de skate. Acabei encontrando um coletivo inteiro, o Britneys Crew. Estar com elas foi conseguir entender que o skate pode ser uma ferramenta de conexões e alavancas entre pessoas, lugares e espaços.”

Essas novas possibilidades de ocupação dos espaços públicos atraíram atriz e artista visual Grace Orsato, que também integrou o elenco de “Meu Nome é Bagdá”:  “ver [o skate] como uma forma de arte ilimitada e acessível me faz ficar bem apaixonada. Além da quantidade incrível de amigus que fiz, a magia de estar de skate na rua te coloca em uma posição diferente dos outros passantes.”

Sobre o crescimento da presença feminina no esporte, Del Bel reforça a importância de considerarmos a pluralidade daquelas que movem esse fenômeno: “A gente ainda precisa falar sobre o espaço das mulheres em qualquer lugar ou ambiente, inclusive entre nós mesmas, para que possamos entender as interseções sociais e as diferentes mulheres que somos, com diferentes atravessamentos sociais, políticos e econômicos. Uma pergunta que costumam fazer sempre e acho que não cabe mais é: ‘Como é ser mulher e ser skatista?’, como se fosse possível generalizar. Então eu sempre pergunto de volta: ‘Como é ser mulher?’”

Esse caráter político e marginal do skate, contudo, não é o único responsável pelo interesse crescente das mulheres e LGBTQIA+ no esporte. Há também um movimento mercadológico, o que é fácil de observar com o aumento de marcas se apropriando do skate como produto. “Imagino que com o skate se tornando um esporte olímpico [ele fará sua estreia nas Olimpíadas de Tóquio de 2021 em categorias femininas e masculinas] e ter se esvaziado de seu significado marginalizado, ele se tornou mais popular e vendável, aparecendo em propagandas, séries e novelas. Não digo que isso é bom ou ruim, mas sendo um esporte olímpico, temos de analisar as diferenças entre as oportunidades de chegar aos pódios e ocupar espaços para o skate das periferias e para o playboy que tem pista no quintal”, conta Giulia.

E enquanto fadinhas de 12 anos se preparam para ocupar as arenas olímpicas, os registros de skatistas mulheres e dissidentes nas redes sociais não só vêm tornando o esporte mais plural, como também têm o levado para outros territórios e ampliado o leque de possibilidades para os adeptos. Em entrevista ao HelloGiggles, a skatista pro e fundadora do Women’s Skateboarding Alliance (WSA), Mimi Knoop, cantou essa bola: “O nível de habilidades hoje é absolutamente louco, e isso ocorre por causa de vídeos de Instagram (...) Alguma criança da América Central posta um vídeo de um truque maluco, e aí outras veem esse vídeo e isso move a agulha.”

Aos poucos, as ruas voltam a ganhar vida. À medida que mais corpos se dão conta de sua vulnerabilidade em meio a uma crise sanitária, dissidentes exercem sua potência e propõem um arranjo mais plural, valente, dançante e autêntico dos espaços públicos. E alguns arranhões no joelho não serão o menor impedimento para isso. ︎



MJOURNAL ED.005- Y QUE VENHA O AMANHÃ.