COMPORTAMENTO


SHOCK POP


A manipulação da cultura de massa como expressão da autonomia estética .

Karl Marx, Exaltasamba e Racionais citados na mesma letra, jovens não-binários neogoth da cena eletrônica que curtem Britney Spears, estampas d’As Meninas Superpoderosas sobrepostas a prints da Louis Vuitton, games como high fashion. Cultura de massa ou tendência de nicho? Sofisticação ou Rebaixamento? Pop Art ou Fine Art? Não importa.
Para uma geração assustadoramente globalizada e extremamente online, separações entre alta e baixa cultura são irrelevantes; tudo se diluiu em um tecido cada vez mais difuso, fluido e ligeiramente caótico. Uma combinação de referências da cultura de massa e experimentações estéticas que deixariam Andy Warhol orgulhoso. Ou talvez embasbacado. O que importa é não ter medo do pop. E nem querer estetizá-lo para parecer mais elevado.
Esse movimento só poderia ser protagonizado pela geração mais diversa da história, nativos de tempos nos quais tudo é hiperlink e dublar músicas é um talento que rende seguimores e recebidos. Crescer nesse contexto faz com que a juventude atual tenha uma compreensão avançada de virtualidade e viralidade, conceitos tão novos e velozes que mal nos permitem acessar suas possíveis consequências negativas.

Geração sem generalizações


Nativos digitais, geração V (por causa do coronaváirus) ou Geração Z. São muitos os nomes para tentar descrever os nascidos a partir de 1995. Geração é um grupo de pessoas com idade semelhante, influenciadas por determinados eventos que deixaram marcas em seus valores e comportamentos. Ironicamente, “Z” é a última letra do alfabeto, símbolo do esgotamento de um modelo que nasceu como um recorte sociológico, mas acabou se tornando um truque de segmentação mercadológica e até mesmo um mecanismo de opressão etária.
Criar e/ou alimentar uma guerra cultural entre gerações pode ser tão tóxico quanto a lacração e o cancelamento. Serve apenas para ampliar diferenças e gerar visões ilusórias de entendimento. Declarar que uma geração inteira está perdida ou que irá salvar o mundo é, no mínimo, ingênuo. Ou delirante. Ninguém merece ser reduzido a um corte geracional.
Nesse sentido, se a teoria geracional aprisiona, pode ser mais libertador enxergar “genZ” como significante de um conjunto de atitudes jovens e forças socioculturais, no lugar de um grupo homogêneo de pessoas. Mais uma vez, a juventude nos convida a desafiar convenções. Abraçar a fluidez e a pluralidade no lugar de insistir na alienação dos rótulos. Combinar no lugar de separar.

Do mass indie ao monomass


Era uma vez uma juventude obcecada pelo ideal de “ser alternativo”. Desde a invenção do conceito de juventude como um target mercadológico nos anos 1950, diversos movimentos estabeleceram subculturas e microcomunidades para escapar do sistema e da cultura de massa. Os hippies, o punk, o grunge, os ravers e outros movimentos criaram a possibilidade de viver à margem do sistema, de forma supostamente independente. Se o mercado se apropria de códigos culturais de nicho e transforma identidades em produtos massificados, esses movimentos buscavam questionar essa lógica e se afastar do que se transformava em Pop. Mas o mercado é rápido, e nós, além de neuróticos, somos contraditórios.
Os anos 2000 trouxeram o colapso desse modelo quando todos assistimos à ascensão e à queda do hipster — uma subcultura que ostensivamente fetichizou estilo, autenticidade e a singularidade sem, necessariamente, carregar ideais que propunham transformações. Um comportamento que pregava autenticidade ao mesmo tempo que parecia tão inautêntico. Uma busca pela diferenciação porque, bom, temos que nos diferenciar. Hipsters são o grande exemplo dos anos 2010, a Era do Mass Indie, quando a celebração da diferença e uma atitude alternativa transformaram-se em produtos de massa.
A estratégia Mass Indie tinha inúmeros problemas. Você se esforçava tanto para ser especial que ninguém entendia do que você estava falando e, ironicamente, os detalhes que lhe definiam eram tão pequenos que ninguém percebia que você era diferente. O varejo fast-fashion e a internet tornaram praticamente impossível distinguir a estética de um hipster de Williamsburg e o Lucas Lucco de 2012. Mass Indie tornou o dilema Diferenciação vs. Pertencimento insustentável.
Em 2020, porém, estar jovem é assumir uma atitude simultaneamente conciliadora e destrutiva, algo que a Dazed nomeou de MONOMASS — hiperindividualismo e tendências de massa coexistem confortavelmente. É uma articulação muito precisa de um espírito do tempo que discrimina menos as expressões culturais e que parece ter menos necessidade de se afirmar — ou se definir — como cultura alternativa. Afinal, pode ser mais libertador reinterpretar signos culturais do que tentar categorizar obsessivamente o que é cool e o que não é. Cool pra quem?


Subversão como estratégia de sobrevivência


Em um tempo em que memes são significantes culturais tão grandes e tão rápidos, é impossível não falar sobre mashups como um estado permanente, uma estratégia para navegar a realidade. Misturar para entender, recriar para potencializar, se apropriar para viralizar. É um comportamento típico de uma geração muito eficiente em subverter significados e reconstruir significantes culturais.   
É sobre a multiartista @0000000brendy — que, junto a Boni, conduz a Estileras, plataforma fashion brasileira que propõe performances indisciplinares e multimeios — definir-se como “maloqueira”. Um ato de bravura: desafiar um termo tão pejorativo e transformá-lo em marcador identitário, posicionando-se através da reinterpretação de um significante antigo e tão problemático. Como quem banca seu passado e propõe um novo futuro ao mesmo tempo. Essa é uma lógica que entende que tudo pode ser manipulado, inclusive os “grandes” significantes da cultura. Fluidez em tudo, principalmente no entendimento da autoimagem. 
Se a estratégia Millennial apostou pesado na construção de versões aspiracionais de nós mesmos, talvez o grande trunfo genZ talvez seja a capacidade de navegar a crueza da realidade de forma mais irônica e menos polida. 63% da geração Z sente que suas vidas não são tão boas quanto a de terceiros nas redes sociais (Visual GPS, Getty Images e YouGov, 2019). Como lidar com isso? Através de uma sobreposição infinita de camadas que faz menos separações entre o que pode e o que não pode; até porque é mais fácil protagonizar a cultura quando se cria menos silos dentro dela. Millennial é performance, genZ é colagem linguística.
Essa sensibilidade explosiva permite apreciar a estranheza do presente e a ansiedade de um futuro que inexiste ou caducou. Quase metade (45%) dos britânicos de hoje acreditam que a juventude terá uma vida pior do que seus pais, um dado que era 33% em 2003 (Deloitte, 2019). Nesse contexto, é natural criar diferentes estratégias para lidar com o real.
Ser jovem em 2020 é oscilar entre Pessimismo Defensivo e Ironia Compulsiva. Nesse vai e vem, muitos vão explorar essas brechas da cultura para empreender novas possibilidades identitárias. No lugar de ser vítima da dismorfia corporal, utilizá-la como estética de auto expressão. Ao invés de conformar-se com uma expressão de gênero, descobrir o espectro infinito de possibilidades entre masculino e feminino. Isso é um certo conformismo com a ausência de sentido das coisas e a certeza de que, com a constante sensação de colapso iminente, não há tempo a perder com tentativas de perfeccionismo.

Ugly pra quem, angel? chama Autonomia Estética


Ugly fashion, emo vibes, medicalização da ansiedade em um mundo em que ninguém está bem. Se os millennials abraçam a mágica da perfeição, genZ acolheu um outro tipo de distorção — a estranheza. Se os millennials tentaram “fake it ‘til you make it”, genZ simplesmente aceita que o mundo está quebrado. Dá pra consertar, desde que se pare de fingir normalidade.
O vasto repertório imagético é uma ferramenta para provocar a desconstrução da perfeição,  um exagero intencional, mais claro e contundente. Do renascimento das Crocs à elevação das unhas de acrílico ao patamar de arte, estamos cercados de objetos culturais que nos fascinam e também nos fazem questionar nosso gosto estético. Cool para a internet, ugly para a imprensa. São ícones de uma estética massificada e classificada como “comum”, “barata” e “cafona” que são reconfigurados através de uma mistura de estranheza com franqueza.
Quando tudo parece uma nova cópia de tudo, o que é realmente original? E o que é belo? Eu ouvi a palavra “Camp”? Pois é. Como escreveu a Susan Sontag em “Notas sobre Camp”, “é sobre enxergar tudo entre aspas, uma forma de navegar uma cultura de massificação”. É desafiar o bom gosto através da reinterpretação do “feio”; é ambiguidade, é arquear as sobrancelhas, é um ponto de interrogação que parece uma exclamação.
Não é sobre ser intencionalmente feio, mas sim oferecer possibilidades entre o belo e o grotesco, sobre abraçar a ambiguidade. A consequência é a conquista de uma autonomia estética que permite navegar a cultura sem vergonha das suas (p)referências pessoais.
E ressignificar o lugar do belo, do cool, do aspiracional é uma parte fundamental de uma transformação crítica e social. Como escreveu bell hooks em “Art on My Mind: Política Visuais”, “precisamos teorizar o significado da beleza em nossas vidas para que possamos nos educar para uma consciência crítica.”
Mesmo que nem todos a dominem, a separação entre cool e uncool tornou-se uma ferramenta de marketing eficiente. Instituições e mercado podem até insistir em modelos de segmentação e separação entre “massa” e nicho, mas a cultura está operando em outra frequência. Mais experimental e menos ideal, ela nos permite navegar a realidade de uma forma que pode ser mais libertadora — e muito mais divertida.



FIM.  ︎


André é escritor, consultor e pesquisador na @floatvibes, um hub de cultura, comportamento e estratégia.

MJOURNAL ED.005- Y QUE VENHA O AMANHÃ.