COMPORTAMENTO


Jéssica Amorim︎




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SE NEGARMOS, O QUE MELHORA?


As retrospectivas do ano revelam um comportamento padrão de negações sobre o coronavírus, sobre a pandemia, sobre a vacina. O que esse negacionismo pretende?

O ano de 2020 rendeu, mas parece que finalmente acabou. Se você respirou fundo e teve a coragem de conferir alguma retrospectiva mundial, deve ter reparado que o saldo do ano realmente não foi fácil. A gente até entende quem escolheu desviar dessas memórias e dos noticiários, mas, no âmbito geral, negar as aparências e evidências pode nos levar a sérias consequências.
Você já deve ter ouvido falar de negacionismo. Em um ano pandêmico esse termo ganhou mais notoriedade, com a ciência tentando desesperadamente refrear o avanço do coronavírus versus situações nas quais autoridades contestam a gravidade da COVID-19, colocando nações em riscos ainda mais alarmantes.
Caso ainda não esteja totalmente familarizade, essa expressão provém da psicanálise. Em um texto clássico de Freud, chamado A Negação, ele descreve que diante de algumas realidades mais dolorosas de lidar, desenvolvemos um tipo de mecanismo de defesa no qual negamos a condição presente. Talvez agora soe mais familiar, certo?
Bom, a questão é que para além do mecanismo individual, o negacionismo fala sobre como essa tendência humana se aplica a todos os tipos de fatos sobre o mundo físico, história econômica e eventos atuais. E não foi algo que surgiu com o coronavírus! É só lembrarmos dos contra-argumentos a respeito da seriedade do vírus HIV, a negação do Holocausto, ou até mesmo a recusa sem fim da existência do racismo estrutural.
Durante essa “era corona”, cada um encontrou seu jeito de lidar com o mundo, mesmo que isso tenha significado que sim, a gente deu umas negadinhas. Afinal, segundo a psicanálise, embora não seja ideal, a negação é uma forma das pessoas se defenderem da ansiedade, refutando a existência de qualquer fonte ameaçadora.


Então, qual o problema?



Assim como os negacionismos históricos mencionados anteriormente, o grande problema da negação é que, quando usada como muleta de longo prazo, costuma colocar em risco a vida de muitas pessoas, tornando-se um mecanismo perigoso coletivamente.
Épocas como esta que estamos vivendo intensificaram o negacionismo científico. E estudiosos explicam que tal comportamento está relacionado a uma produção de desinformação, além de políticas de Estado que incorporam este tipo de prática em seus discursos oficiais. Precisamos admitir que faz um tempo que mostrar dados e dizer “isto é comprovado cientificamente” não basta para argumentar com algumas ideologias.
Na pesquisa baseada em psicologia social, “The Truth About Denial” (tradução livre: A verdade sobre a negação), revela que é como se seres humanos fossem “programados” para descartar fatos que não se encaixem em sua visão de mundo. Então quando se apresentam fatos científicos que soem como ameaças a interesses específicos, as pessoas — incluindo líderes políticos — têm tendência a responderem automática e defensivamente a essas informações.
Ou seja, pelo fato da cognição humana ser inseparável de estímulos emocionais inconscientes que a acompanham, o negacionismo pode alimentar um desejo por estabilidade e controle que se revelam em identidades tóxicas, que potencializam um sistema danoso.
Para ilustrar, podemos falar de quando as pesquisas com células-tronco e as novas biotecnologias foram envoltas em muita desconfiança, porque grupos políticos usaram argumentos como “proteção dos valores da família tradicional” para defender interesses de controle sobre os corpos.
Acho que já deu pra entender o grau de tudo isso, né? Se tratando do coronavírus, com a corrida da vacina, por exemplo, os negacionistas de vacinas são um potente risco à humanidade. Ao longo deste ano foram tantas desinformações propagadas, conspirações sem sentido e apoiadas inclusive por várias figuras públicas, que tememos pelo desfecho desse cenário de negações, que pode ser mais um dos fatores para dificultar uma imunização generalizada.


E não há nada que possamos fazer?



Psicólogos sugerem que, no micro, devemos tentar furar essas bolhas negacionistas com informações que contradigam esses pontos de vistas enrijecidos. E isso deve começar devagar: com notícias factuais que não sejam tão ameaçadoras, e que já proponham ações para se proteger.
No macro, especialistas afirmam a necessidade de fortalecermos uma cultura pró-conhecimento, valorizando educação, tradução e interlocução com as plataformas digitais. Além de criarmos instrumentos legais para responsabilizar os atores que deliberadamente disseminam ignorância, é também essencial refletir sobre o papel das empresas de conteúdos na internet. Tudo isso dimensiona a importância de elaborarmos cada vez mais uma comunicação científica eficaz e acessível.
A gente espera que ainda a tempo, né? Porque há também outras negações que ameaçam a humanidade, como o negacionismo climático… Mas aí é pauta para outra matuta. ︎



MJOURNAL ED.005- Y QUE VENHA O AMANHÃ.