COMPORTAMENTO


Ana Rodarte ︎



Imagem: 
© Dimitri Rodriguez/ Reprodução

Progressismo memetizado


As novas linguagens da política progressista na era digital pós-Trump.

Apesar de seus milhões de seguidores, Kim Kardashian não é capaz de angariar votos como a passional Lady Gaga ou a risonha Lizzo. Não me leve a mal, a ex-senhora West ainda é bastante influente no mundinho da moda e da beleza, mas seu reinado se limita ao que podemos expressar em imagens muitíssimo elaboradas. Mesmo que Kim tenha revirado padrões estéticos como um furacão, ela nunca foi moça de causas e palavras emocionadas. E a imagética que precede o pleito, como a nova geração de eleitores vem mostrando no âmbito progressista, precisa de camadas; não aquelas que você usa para remover seus poros, mas as que dominam o peso de símbolos e explicitam a verdade de uma trajetória.

Para a tristeza da turminha das fake news e de quem anda em busca de manuais, as novas linguagens que vêm guiando o avanço progressista vão muito além dos virais e dos memes. Numa era em que mergulhamos no excesso de imagens e discutimos geopolítica em micro vídeos sobre Shingeki no Kyogin, esse fenômeno se relaciona com a capacidade de entender simbologias, apropriar-se delas e traduzi-las em discursos acessíveis. Tudo passa pelo compreender-decodificar-compartilhar.

Neste momento esquisito de burnout imagético, o peso das simbologias e a autenticidade sobrenadam como valores essenciais, pelo menos entre a turma que quer construir um amanhã mais justo. Daí fica mais fácil entender a popularidade de lideranças políticas progressistas nas plataformas digitais. Vamos de exemplo. Lembra da posse de Biden & Kamala Harris (céus, parece que foi há mil anos)? Entre os looks hypados da poeta Amanda Gorman e da it girl Ella Emhoff, o que fez os olhos da galera brilharem foi o terninho sufragista Chanel de J.Lo, a combinação monocromática Sergio Hudson de Michelle Obama, o vestido Schiaparelli bastante memetizável de Lady Gaga e o terno roxo Christopher John Rogers de Kamala — que resgatou a simbologia da cor para a causa feminista e fez um aceno para a conciliação entre republicados (vermelho) e democratas (azul). E não poderíamos deixar de mencionar que, apesar de todo o acontecimento que é a posse de um novo presidente americano, o que colou nas redes mesmo foi a friaca do Bernie Sanders, que além de nem fazer esforço para esconder o cansaço, escolheu um par de adoráveis luvinhas mittens, feitas por uma professora (owm!). O sucesso dessas pessoas nas redes não se resume, portanto, à capacidade de produzir imagens divertidas ou impactantes; ele é consequência de um discurso autêntico. Como dissemos: compreender-decodificar-compartilhar.

Concisão, timing e carisma


Quem acompanha os nossos Subscriptions — já assinou, ein? Ein? — sabe: amparado por redes sociais e por um contexto de transformações sociais aceleradas, o novo progressismo vem dando uma cara nova para o debate político mundial, levando tópicos como a equidade racial e justiça climática para o mass media e tornando as esferas legitimadas de poder um tanto mais acessíveis. E a postura dos líderes progressistas, aos poucos, vem acompanhando esse movimento.

Um momento essencial para entender o fenômeno ocorreu em 2018, quando a descendente de porto-riquenhos e moradora do Bronx Alexandria Ocasio-Cortez, 31 anos, assumiu seu cargo após uma campanha tocada com pouquíssima verba e muita paixão. Naquele ano, ela tornou-se  a mais jovem mulher eleita para o Congresso americano. Seu nome, não por acaso, se transformou em uma sigla all caps, bem fácil de se transformar em hashtag. Os discursos da congressista seguem no mesmo ritmo, com um timing tão perfeito para as redes que são reproduzidos como versos de rap em tutoriais de maquiagem no TikTok — onde a juventude mostra, com todos os tons, que entende o peso do batom vermelho Stila de Alexandria. E a brevidade é a língua franca da geração Z e dos millennials, como definiu a Wired.

Sua desenvoltura com as plataformas digitais também a levou para o universo dos games. Em novembro do ano passado, fez um stream de partidas de Among Us para mais de 430.000 usuários no Twitch, tornando-se autora de uma das transmissões mais assistidas da plataforma.

A campanha que a elegeu definiu novas diretrizes para as manifestações estéticas de líderes progressistas em diversas partes do mundo. Executadas pela equipe da designer de origem filipina María Arenas, do estúdio Tandem, as peças não só contrariaram os tons de vermelho e azul tradicionalmente aplicados pelos democratas, como também aplicou um tratamento pop na fonte Norwester — utilizada em caixa alta, veja bem! — e elementos gráficos que fariam o coração de qualquer amante de quadrinhos ficar mais quentinho. As mensagens ganharam uma inclinação que acompanhava o olhar otimista de Alexandria — posição inspirada no deputado César Chávez, do Arizona, e na ativista Dolores Huerta, ambos hispânicos. Havia também um outro detalhe importante na comunicação da então candidata: a presença de textos em espanhol, ocupando o mesmo espaço que os textos em inglês. O recado estava dado: a latinidade de Alexandria não só seria assumida com orgulho, como também seria recurso para promover diálogos em uma América fragmentada.

A congressista muçulmana Ilhan Omar, de 38 anos, primeira legisladora somali-americana na história do país, segue com estratégias similares às da amiga nova-iorquina (de quem recebe dicas de skincare, olha que babado). Parte do Squad de congressistas racializadas que, nos últimos anos, vêm montando resistência ao avanço da extrema direita no país, em tom afrontoso, Omar aproveitou ataques de Trump para tecer um slogan próprio. E, pelo desempenho de sua campanha, que prioriza ações para a comunidade negra de Minneapolis, a estratégia vingou.

A filha mais velha de Ilhan, Isra Hirsi, de apenas 18 anos, demonstra que as novas estratégias progressistas vem provocando ecos entre as novas gerações. Isra é ativista ambiental e diretora co-executiva do U.S. Youth Climate Strike (“Greve Climática da Juventude dos Estados Unidos”), movimento de juventude que busca lutar pela justiça climática por meio do incentivo ao voto, da conscientização sobre projetos de leis e da denúncia de empresas com más condutas. Entre aulas realizadas por videoconferência e episódios de Criminal Minds, ela se engaja em ações locais e divide seus conhecimentos em práticas de ativismo pelo TikTok. A palavra “práticas” aqui é essencial, pois com Isra, tudo é sobre agir: “Você pode ler todos os livros que quiser, mas ler livros não vai salvar vidas”, declarou ela à i-D.

Esse histórico intimidador de ativismo poderia ser divulgado por aí por meio de textões, campanhas sisudas e discursos em carreatas, mas ele se fortalece graças à linguagem descomplicada de Isra. Em suas redes, ela faz piadas em torno da própria formação política e monta coreografias despretensiosas com a mãe. Embora, nesse quesito, elas ainda sejam um ponto fora da curva para o Partido Democrata, em outras organizações progressistas pelo mundo, essa postura tende a se fortalecer.

É o caso da brasileira Erika Hilton, de 28 anos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSol). Após atuar como codeputada estadual em um mandato coletivo encabeçado por Mônica Seixas, ela se tornou a primeira vereadora trans e negra eleita de São Paulo em 2020. Seu apelo pop é inegável: naquele ano, ela foi a mulher mais votada da cidade e de todo o Brasil. Para além de seus discursos concisos e de sua postura combativa, ela tem desenvoltura com os espaços de codificação fashion, um feed coloridíssimo e domina o idioma dos memes.

Juntando-se ao bonde, na Argentina, em 2019, aos 19 anos, Ofelia Fernandez tornou-se a mais jovem deputada da América Latina. Ela ganhou o olhar do público quando ainda atuava como líder estudantil e foi convidada a apresentar seus argumentos a favor da legalização do aborto na Câmara de Deputados do país. Ela havia acabado de votar para presidente pela primeira vez quando foi eleita. Nas redes, Ofelia posta selfies dignas de um personagem de Euphoria. Os registros de suas jornadas por manifestações, quando caminha com potentes coturnos pretos e reúne-se com as amigas descoladas, parecem ter saído de um festival indie. No feed do Instagram, encontramos os textos que ela edita rapidinho no stories e que são postados para dar o recado com agilidade. Os tons da Onda Verde e o roxo atribuído à causa feminista estão lá; não por um arranjo meticuloso do feed, mas porque eles estão presentes na rotina de Ofelia. Não há poses, fotos com bebês ou a necessidade de cativantes cachorrinhos. É apenas Ofelia com sua energia inflamável.

Essas potências imagéticas criadas por dissidentes ainda não são uma regra geral para a estética progressista, mas apontam caminhos para as lideranças que virão. Após anos de uma plástica um tanto facha e cacofônica no pleito, é um respiro constatar que podemos ser guiados por gente que sabe e conta de onde vem, sem grandes encenações. Já deu de pedestal, né? ︎



MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.