Moda


Ana Carolina Rodarte ︎



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© Nick Fancher/ DTS

Pra moda se acertar com os cronômetros



O chamado da juventude durante a COP26 se estende às passarelas: para dialogar com o seu tempo, a moda não pode mais se basear em conversa fiada e nem se esquecer do sonho.


A relação entre a moda e o tempo é cheia de floreios e arremates: há quem diga que ela nunca é sobre aqui e agora, mas sobre o porvir. Faz sentido, né? É dela o território dos sonhos e das vaidades. Mas um bailado pelas novidades das passarelas e as manchetes dos noticiários deixa muito vestido por aí numa situação de desconcerto com o presente e com o futuro. Dá mesmo pra se deslumbrar com minissaias e sapatos quando tanta notícia anuncia o nosso fim?

Nessa era de acontecimentos literais, o descompasso entre a moda e o relógio se explicitou nos cronômetros que ganharam ruas e corredores da COP26. Temos apenas sete anos para agir e evitar que o planeta aqueça mais de 1.5 graus Celsius, segundo a organização Climate Clock. Enquanto isso, só em 2020, a indústria fashion global produziu aproximadamente 100 bilhões de peças, colaborando com o despejo de resíduos na natureza e com as injustiças climáticas.

Essa DR com o relógio não surgiu do dia pra noite, é claro. Foi com uma trajetória espinhosa, orquestrada por delírios neoliberais e colonialistas, que a moda foi ficando, diante do grande público, distante, excludente e atrasada. Mas nem tudo está perdido: a moda pode sair do modo soneca. Desde que ela se lembre que o sonho é caminho pra ação.

O flashback do caô


A inacessibilidade atribuída às passarelas, criadores cheios de manias, bem como a misoginia e a homofobia — dado que a moda, há décadas, tem sido palco para o sucesso profissional de mulheres e LGBTQI+ — transformaram a moda num alvo certeiro para a hostilidade do público. A associação com a necessidade de aceitação social — atravessada por violências de gênero & raça, bem como o capacitismo e a postura anti-ambientalista — só veio para somar nessa receita. Lembremos que, na sua estreia na Fendi no primeiro semestre deste ano, Kim Jones não abriu mão do uso ostensivo de peles. Greta, corre aqui?

Nas últimas décadas, a moda passou por um processo de expurgo que a fez enterrar a bunda no divã. A chegada dos millennials ao mercado, a politização do cotidiano e a democratização da internet permitiram que lançássemos um olhar mais atento aos processos produtivos das marcas e debatêssemos suas lógicas de representação. Diversos episódios trouxeram as mazelas da indústria à tona: o colapso do Rana Plaza; ataques antissemitas; denúncias semanais de plágio, racismo e assédio; maus tratos a animais; gordofobia e transfobia em desfiles de lingerie. Para evitar o financiamento de um sistema intrinsecamente corrupto, jovens lançaram uma miríade de pré-requisitos para que as marcas se mostrassem dignas de seu investimento. E foi assim que eles moldaram uma estética limpa para seus guarda-roupas, repletos de peças produzidas em algodão orgânico ou linho, silhuetas amplas & confortáveis — para evitar o pérfido male gaze —, propostas atemporais — ✨  pois o essencial é invisível aos olhos ✨ — e tons terrosos que estabeleciam uma conexão entre o chão de taco e a natureza. Tudo muito suave, tudo muito sussurrado, do jeito que a geração burnout precisa.

A lógica imagética que se impunha nas redes sociais também trouxe mais gargalos à relação entre o público e as propostas da indústria. Desfiles, ensaios e coleções passaram a ser pensados para caber no formato e na temporalidade do Instagram. Tudo precisava ser um acontecimento bidimensional, o que, por vezes, deixava o mérito das peças em segundo plano: a Chanel fez estardalhaço ao montar um supermercado com 100.000 produtos falsos. A Viktor & Rolf propôs uma coleção alta-costura de vestidos-meme que perdeu a graça em questão de semanas. Influencers com rotinas patrocinadas faziam uma cobertura autorreferente dos desfiles.

A entrega aos algoritmos evitou ainda conversas difíceis, dessas que nos colocam à beira do cancelamento. Um trabalho como o da editora Franca Sozzani, que promovia debates por meio de imagens incisivas, parecia pouco provável nesse ambiente. Muito pouco se dizia sobre as pessoas que produziam ou vestiam as peças. Muito pouco se dizia sobre as peças. Embora o diálogo entre marcas e o público ganhasse em frequência, perdeu em intimidade. É difícil ter uma aproximação quando estamos sempre a pisar em ovos.

A própria relação com o calendário embananou a conversa entre a moda e seu tempo. No início dos anos 10, as grandes marcas ainda trabalhavam com estações e pré-estações, o que resultava numa média de seis coleções ao ano. Seis coleções condicionadas à insustentável dieta de informações das redes que, como a psicanalista e professora Cláudia Perrone explica, massacra a polissemia das imagens.

É difícil que uma peça capture os rastros de seu tempo quando ela sequer é assimilada pelo público. Quando tudo é para o aqui e agora, sobra pouco espaço para as projeções. E a moda, que pretende ser sobre o porvir, sofria e ainda sofre com um excesso de presentificação — condição primária para a morte.

Lero-lero na sarjeta


Mas para quem sempre precisou reiterar a própria existência e vem se encontrando nas lacunas dos circuitos tradicionais, a moda permaneceu como território de projeção. Afinal, ela conduz a criação de personagens extravagantes nos ballrooms que ganharam a cena LGBTQI+ negra e latino-americana desde os anos 60, é ferramenta de trabalho das drag queens — que, hoje, pautam a beleza e o styling. Ela é, ainda, ponte de resgate para as expressões estéticas e culturais historicamente silenciadas da diáspora negra e asiática, bem como dos indígenas. E tem sido justamente essas pessoas as responsáveis por fazer do sonho um território pra ação, estreitando o diálogo com o público.

Kerby Jean-Raymond, primeiro estilista preto americano a apresentar na semana de alta-costura, não economizou na extravagância ao homenagear o trabalho de inventores negros e projetar um novo horizonte para a negritude. Pabllo Vittar tem usado o seu sucesso internacional para projetar o trabalho de estilistas como Jheni e Fernando Cozendey enquanto bota Lady Gaga pra cantar tecnobrega. Grace Wales Bonner, influenciada por pensadores como James Baldwin, traça uma alfaiataria pós-colonial, compondo diálogos interculturais para homenagear a beleza e a multiplicidade da masculinidade negra.

A peste também tem tido o seu papel nessa conversa. Em diferentes medidas, ela fez com que muitos de nós repensássemos a relação com a nossa própria imagem. Tivemos uma parte significativa de nossas expressões faciais escondidas pelas máscaras — um gesto incomum para as comunidades que não costumam cobrir o rosto ou os cabelos. Para quem pode ficar em home office, o guarda-roupa se reconfigurou: além de abrigar mais peças que nos trouxessem alguma sensação de conforto, ele revogou sua capacidade de nos resgatar em meio à pasteurização dos dias. Combinações nada ortodoxas ganharam feeds. A moda dopamina entrou na boca do povo. O boom do artesanato disseminou tutoriais, propôs novas ideias e criou oportunidades de trabalho no setor da moda, como mostra o trabalho do Ateliê Mão de Mãe, que faz a sua estreia na SPFW N52. Provamos que o que sobra para nossas roupas quando não temos para onde ir somos nós mesmos.

E se a pandemia restringiu a possibilidade do encontro, vieram à tona os desejos: a vontade de dançar, de beber, de beijar, de dar, de viajar, de experimentar algo novo, de ser viste.  E, também por artimanha dos genz, a moda vem ficando cada vez menos sobre uma validação social do mainstream. Trata-se, muito mais, do que você deseja. Desde que as campanhas de vacinação se iniciaram pelo mundo, tudo projeta a nossa fome de pele — ou, se nos atentarmos aos suspiros da paisagem, nossa fome do outro.

É a partir dessa sublimação de desejos que a moda pode protagonizar uma reviravolta em nossas narrativas. Requisitos de sustentabilidade e inclusão social continuarão importantes como nunca, mas é hora de criadores e marcas resgatarem sua potência na construção de sonhos e no debate de tópicos relevantes para seu público. Aurora James (Brother Veilles) e AOC trouxeram ao MET Gala um vestido que, com todos os contrassensos, alvoroçou o debate sobre a taxação de grandes fortunas. Stella McCartney se rendeu à potência dos cogumelos na substituição do couro animal e vem apostando no Evrnu, uma fibra 100% reciclável feita de roupas descartadas. P. Andrade optou pela fibra de cactos. Já Bethany Williams exaltou a ancestralidade de famílias de imigrantes ilegais no Reino Unido enquanto formava parcerias com projetos sociais e fornecedores de matérias-primas orgânicas e repensava seus resíduos.

Há muito o que ser feito para que a moda se acerte com os ponteiros e com as demandas de um futuro que vai ficando mais e mais incerto. Para promover a justiça climática e não derreter junto às calotas, a indústria ainda precisa reparar as consequências do racismo estrutural. Terá de potencializar seus investimentos na economia circular e no desenvolvimento das cadeias de fornecimento. Precisará ainda fomentar as ideias de artistas independentes e trazer sujeitos historicamente marginalizados para as mesas de decisão.

Mas a moda não pode esquecer que poucas áreas entram em contato com as contradições e desejos da natureza humana como ela. E é nesse território de sonhos que a gente encontra respiro pra esperançar outros mundos e agir. Em tempo hábil, que é pra não ficar só na conversa.

Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.