Ensaio

Túlio Custódio





Para voltar a sonhar.




"Sonhar é muito bom, não paga não nenhum tostão" (RZO)


Do que é constituído um sonho? Por que não falamos tanto de sonhos na atualidade? Parece ser uma conversa etérea, mas tem mais a ver com o momento de ilusões perdidas e dissipadas que estamos.
Bem, para começar quero deixar claro que não me inspiro no famoso livro do escritor francês, Honoré Balzac, Ilusões Perdidas. A história desse livro é bem interessante, mas não é para esse caminho que quero ir. Estou pensando mais aqui em um filme clássico para a cultura negra norte-americana, "A educação de Sonny Carson" (1974), que conta a história de um menino negro, Sonny, que tem sua vida atravessada por ilusões perdidas. A história começa com a ilusão de ele fazer parte do sonho americano, e termina… bem, vou deixar que vocês assistam. Mas o que importa é que a trajetória dele, marcada por encarceramento, violência, marginalização, precarização e gangues, conversa com os jovens de hoje e de agora: Brasil no século XXI.
Para contextualizar: após um início de século marcado por políticas de inclusão, transferência de renda e um senso otimista de que o país do futuro tinha finalmente chegado, em 2021, sentindo a perda de centenas de milhares de pessoas enquanto tantas outras sentem os efeitos colaterais sociais e econômicos da pandemia. O que aconteceu que para chegarmos aqui? Será? Mas esse diagnóstico não é por conta apenas do coronavírus: há alguns anos estamos vivendo os efeitos de crises econômica(s),  política, social, além das fake news e reacionarismos de todos os tipos. E isso ressoa diretamente nos jovens, na geração que cresceu com otimismo, mas que, na frente de si parece não ter por onde ir. A palavra “colapso” tem sido usada em todo mundo e parece tristemente acertada. Neste caso, o colapso do amanhã.
Diante disso, por que não estamos falando de sonhos? Talvez porque para falar de sonhos precisaríamos ter um horizonte de possibilidades o qual enxergamos para projetar uma vontade ou desejo que nos conecte com o mundo. Claro que isso tem a ver com momento econômico – como é possível sonhar diante de crises – e político social – como é possível sonhar no meio de uma pandemia? Mas isso são sintomas de um problema maior, e mais crônico que é a falta de sonhos em uma realidade marcada pela falta de caminhos coletivos, enfrentada por uma geração que se sente fora do jogo.
E o que acontece com as possibilidades de uma geração que se sente fora do jogo, fora do caminho e dos destinos? Bem, aí é o problema: sonhar é reflexo de pertencimento, mas estamos lidando com uma realidade na qual pertencer é cada vez mais difícil. Motivos concretos para isso temos vários: os desafios de precarização da vida, o desemprego monumental e a falta de inserção nos espaços.
Mas se não estamos sonhando, o que fica? O que tem movido parte desses jovens? Ilusões. Os sonhos têm sido substituídos ilusões, que se manifestam por arrombos de consumo, visibilidade, desejo de status. Em suma, as ilusões marcam um presente, uma (tentativa de) satisfação do agora, mas que, no horizonte, não traz nenhuma mudança concreta para a maioria a longo prazo. Sabe aquilo que é fugaz? Passageiro? Instantâneo como um post… E nesse processo, as ilusões cristalizam a ideia de que, individualmente, cada um por si, é possível conquistar alguma coisa, se inserir em algo, criar ou inovar. Cada um por si. Fugaz? Instantâneo… Será?
Mas qual a diferença das ilusões para os sonhos? Quem disse que esses jovens não estão sonhando? Bem, sonhos iluminam aquilo que não se via. Diante de um horizonte de possibilidades, sonhos trazem caminhos que não eram enxergados, mas que facilmente se tornam instigantes, desejáveis e esperados. E as ilusões? Ilusões assustam diante do inesperado, porque nada pode sair fora daquilo que se vislumbrou, como lampejo da própria ilusão. Enquanto o sonho nos vislumbra um caminho para ser construído, a ilusão nos coloca diante de um desejo que já teria sido consumado, mas não existe. Aí, qualquer coisa fora dessa imagem ilusória gera frustração, medo, decepção. Porque a ilusão não constrói, ela quer cumprir tabela.
Além disso, há a questão da conexão com o mundo, com o outro. A ilusão gera a falsa ideia de que é possível fazer sozinho. Até uma palavra, que seria muito cara ao sonho, o propósito, tem sido ressignificada com a ilusão, pois ela se torna uma coisa "que cada um tem, é única, e só depende de você” Pura ilusão...
Sonhar é pertencimento, e isso significa que sonhar é do plano coletivo. Não existem sonhos sozinhos. Sonhar sozinho é uma ilusão, perdida ou não, mas que tem pouco reflexo sobre a realidade. O propósito, devidamente acompanhado do sonho, é aquilo que me cabe no sonho coletivo: onde contribuo impulsionado pelo outro a seguir, a construir e fazer. Os sonhos que atravessam e transformam o mundo são sonhos de mais gente. As pessoas se emocionam até hoje com o discurso de Martin Luther King ("eu tenho um sonho...") porque ele atinge a todes nós, que desejamos um mundo sem racismo e pleno de inclusão.
Para voltarmos a sonhar, precisamos de projetos, de planos. Precisamos falar mais sobre nós, sobre gente, sobre coletivo. Só assim é possível construir um horizonte de vontades e possibilidades para mim, para você, para todo mundo que estiver lendo esse texto. Impossível? Claro que não. Sonho nós construímos. E superamos a grande ilusão que temos à frente:  de que não adianta sonhar.






*Túlio Custódio [1984] é doutorando em Sociologia (Universidade de São Paulo), com linha de pesquisa sobre Subjetividade no Neoliberalismo. Mestrado em Sociologia pela USP, com tema de Intelectuais Negros. Graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (2007) e em História pela Universidade Cruzeiro do Sul (2004). Tem experiência na área de Ciência Política e Sociologia, com ênfase em Sociologia dos Intelectuais e Sociologia das Relações Raciais, atuando principalmente na pesquisa científica sobre Intelectuais Negros. Experiência de pesquisa internacional, com bolsa financiada pela CAPES/ FIPSE, em Vanderbilt University (2006). Co-fundador do projeto Escola Comum. Atua como curador de conhecimento na empresa Inesplorato. Fundou site de referências Pitacodemia.com. Empreende pesquisa sobre racismo, gênero, classes e sistema capitalista financeiro, modernidade, individualidade, tecnologia e culturas brasileiras. Escreve em meios como Justificando (CartaCapital), HuffPost, Revista Galileu, Medium entre outros. Palestra sobre tema de racismo, desigualdade, questões raciais, gênero (masculinidades) em diversos eventos e instituições.

Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.