Comportamento


Cássio Prates ︎



Imagem:   

© Fanette Guilloud/ DTS

Para extrapolar o frame do algoritmo


A imagem como moeda, fechando abas e abrindo janelas.

Nesses tempos capengas de contato físico, a autoexposição  —  que é cada dia mais capitalizada e está diretamente ligada a um disputa de poder  —  ganha ainda maior destaque. Tornar-se “visível” gera uma nova gramática da imagem, onde a tirania do status quo quase não é questionada. Passa batida no seu feed.
O "eu visível" é quem mais aparece, consequentemente quem mais ganha$$, quem mais se relaciona através de imagens que martelam no nosso cérebro.
Estamos, então, diante de um novo simbolismo imagético! No livro recém lançado de Giselle Beiguelman, "A Política da Imagem. Vigilância e resistência na dadosfera”, a autora afirma que as telas tornaram-se as principais interfaces da experiência cotidiana, ocupando não somente a dimensão de consumo, mas também a vigilância social. Atualizando "Vigiar e Punir", de Foucault, poderíamos dizer que estamos num contexto de Vigiar e Curtir (que também é uma forma dura de punição). Nesse cenário, as imagens são mais do que um lugar de transmissão de ideias, mas também um campo de disputas políticas. A incontável e acelerada produção de fotos e vídeos para a rede social, junto à captura de dados, é o que configura a nova ordem estética de vigilância e poder.
Nessa ordem, o inconsciente coletivo fica (então) enquadrado dentro de uma bolha digital, que controla o que vamos ver e como vamos consumir. Mais do que isso, nos obriga a participar como “protagonistas-responsáveis” pela realização dos nossos sonhos, em um plano cheio de banalidades sob filtros extraordinários.
Isso impacta diretamente na maneira como sonhamos. Imageticamente falando, boa parte do entretenimento de massa sugeria um mundo onde se contempla imagens, de forma separada, ou seja, nós & as imagens — a indústria dos games fica de fora dessa. Hoje a economia liberal dos likes homogeneizou tudo o que produzimos e vemos. Nessa batalha temos uma conta muito difícil de fechar. Quem sai perdendo, não precisa nem dizer, é a nossa capacidade de criar e pensar coisas novas.
Todo mundo deseja ao mesmo tempo participar e ser deixado em paz. E se, pensarmos, primeiramente no sonho a serviço de dormir, podemos encontrar um único lugar onde, desligados, não temos contato direto com nenhuma tela. Estamos em paz. Talvez não por muito tempo, já que nem dormir estamos conseguindo mais   — eu pelo menos, tenho dormido muito mal
Em 1964, em “sleep”, Andy Warhol filmou John Giorno dormindo em um plano sequência de 5 horas seguidas. Nada além disso: o sono do seu amigo, sem nenhum clímax ou acontecimento espetacular. Interessante pensar o sono como um lugar onde nada de interessante acontece no plano físico, mas justamente quando o nosso inconsciente está produzindo imagens relacionadas a desejos que, por hora, podem ter sido reprimidos ou suprimidos por tantos “olha-quem-tá-aqui-no-meu-stories" e/ou dancinhas de Tik Tok. (e não só por isso, claro).
A crítica da espetacularização de cenas cotidianas feita por Warhol, numa era pré-Instagram, já indicava um caminho de glamorizar acontecimentos, que na sua maioria, não têm nada de interessantes, mas que com essa nova ordem, precisam virar uma imagem, um produto, aplicados a um personagem, que realiza sonhos A TODO MOMENTO, para que possa vender, ou se-vender. Ou, para que não seja esquecido.


"O que interessa mais é o desejo de despertar” - Lacan


Por isso, aqui nesse texto, me interessa menos dormir e mais despertar.
Despertar para sonhos menos “cafetinados", como diria a Suely Rolnik, mais fora do algoritmo e que consigam atravessar esse imaginário pré-datado e puramente exibicionista.
Despertar seria, no meu sonho, um caminho de tentar ultrapassar a imagem dominante que nos é posta pelas redes. Procurar outros caminhos que possam ser mais simpáticos e menos tortuosos. Por isso a imagem é elemento central para sonharmos diferente, pois está ligada a consumir outras cenas, ler outras pessoas, ouvir outras músicas e reconstruir um novo contexto visual. Um novo espírito do tempo.
Sonhar acordado é aqui, sonhar com artistas e criadores que rompem a regra eugenista, e que com isso, conseguem mostrar outros Eus Possíveis. Estar junte e consumir nomes feminines, negres,  lantieNEs, não brancos, trans e não binaries, para tentar criar uma imagem mais livre da colonização, com um olhar que trabalha menos pro capital e tem uma busca mais por corpas e ideias Sem Juízo pré estabelecides. (viva Jup do Bairro!)
Sonhar novos caminhos pode ser criar diferentes cenários, pelas beiradas do algoritmo, deixando um pouco de lado personagens construídos para arrasar (não dar like e não passar pano também ajuda). Um olhar menos Big Tech, menos pessoas extraordinárias, menos pessoas "fora da curva", mais desviante, mais solto e mais atento na desconstrução dessa imagem, que sempre esteve aqui para criar uma estrutura muito sólida que só estimula financeira e psicologicamente um tipo de gente que já está lá ganhando desde que o mundo é mundo. E que, não por acaso, (de)limita nossos sonhos, gerando mais ansiedade que realização.
Não acho que essa seja uma tarefa fácil, mas esse é o caminho que tenho colocado como um lugar onde é possível reconstruir sonhos. Para isso, é necessário estar junto, citando, trabalhando, confabulando e pensando com quem já está fazendo isso. Comece escutando Linn da Quebrada, que quebrou a costela de Adão, mostrando que uma nova imagem é possível.

I missil, Linn <3




Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.