MATUTAS  SOFT



Ana Carolina Rodarte ︎ y Igi Lola Ayedun  ︎




Imagem: Edouard  Manet, séc.19

Olympia decide morrer.

Sim, a cultura pop tem servido de alavanca para reivindicar expressões estéticas sobre corpos femininos-cis plurais y a briga destrava até os arquivos sócio-identitários do século 19.


Em 1865, o retrato de uma mulher causou alvoroço entre os membros da Academia de Belas Artes de Paris. Não apenas porque se tratasse de uma cortesã nua, mas porque ela encarava o público sem qualquer pudor. A obra sequer precisou de pinceladas pretensamente realistas para desestabilizar o cânone artístico da época; “Olympia”, de Édouard Manet, marcou a história da arte ocidental por retratar um corpo feminino tão dono de si que ultrapassou a própria materialidade para se expressar como queria. (Pera, deixa eu, Igi, fazer uma intervenção explícita no sotaque daqui: “... um corpo feminino branco, dono de si, que ultrapassa a materialidade…” mas que, também, sub condiciona os arquétipos estéticos da mulher preta ao lado, criando desta forma um desejo aspiracional baseado no idealismo do corpo feminino branco como única via de empoderamento, poesia y beleza. Eita!) E se o mundo se transforma em ciclos, não é de se surpreender que, em 2020, as mulheres que habitam o imaginário da cultura pop passem por um processo parecido (Porém, agora, com ajustes ou desajustes, risos, da perspectiva racial sobre o significado do corpo). A diferença é que elas (não são mais mucamas y) escolheram recomeçar essa história por elas mesmas, usando uma câmera de celular e o melhor ângulo de suas bundas.




Abridor de casas em mãos


As discussões em torno das idealizações do corpo feminino ainda geram receita para instagrammers cultuadas, mas, convenhamos, já deu. Para sermos justas com nossas manas de alguns séculos atrás, lá na Renascença, por exemplo, os pintores retratavam mulheres como seres que pirulitavam por aí em trios, nuas e lânguidas, segurando maçãs e tecidos por pura diversão, como Hannah Gadsby compartilhou furiosamente. Bem verdade, padrões estéticos enchem e ainda provocam surtos de distúrbios alimentares e cirurgias plásticas desnecessárias, mas já não dá mais para discuti-los com os mesmos parâmetros que fazíamos há 10 anos.

Nesse período, nomes como Beyoncé, Kim e Khloe Kardashian, Nicki Minaj, Cardi B e Lizzo não só chegaram ao topo das paradas, como também passaram a ocupar espaços legítimos de poder; são mulheres curvilíneas, que partiram das #belfies, do boom do wellness e das coreografias rebolantes para construir uma nova representação majoritária do corpo feminino mainstream. Atravessadas pela emergência das teorias de gênero e das drag queens no mundo pop, elas abraçam rituais de beleza mais expressivos e teatrais. Adaptem suas criações de alta-costura, porque elas chegaram ao Olimpo com gestos (melaninosos, vai! y) largos.

O que surpreende nesse fenômeno é que, ao contrário do que aconteceu em outros momentos da história, um padrão não foi substituído por outro, fazendo da exceção uma regra e assim consecutivamente. Zendaya é tão cool quanto Megan Thee Stallion. Quem não nos deixa mentir é a Savage X Fenty, que transformou a sua celebração à diversidade em um dos espetáculos fashion mais relevantes de 2020, (que apesar das controvérsias culturais que envolveram a comoção da comunidade islâmica pelo fato de um dos versos da trilha oficial, desenvolvida pela produtora musical Coucou Chloe, apropriar trechos do Alcorão em uma ação/desfile nada religioso/espiritual… conseguiu deixar nítido que a emancipação da imagem do corpo feminino surge a partir de quem sempre foi invisibilizada, né, Manet?). Ali, uma espanhola que sacudiu a indústria musical ao fazer o resgate (controverso, pq Rosalía é catalana y de gitana não tem nada) das tradições flamencas divide palco com uma socialite embonecada, modelos não-bináries que discutem a virgindade e uma atriz americana que não deixa a idade deter sua sensualidade. A graça não é atribuída a uma personalidade ou outra, mas no que todas constroem coletivamente e em movimento — porque sim, todos esses corpos se movem e estão em estado de sensualidade.

Outro aspecto curioso é que essa revolução imagética não parte do topo de uma indústria cultural; aqui, tão importante quanto a escalada de ídolos como Bey ao cânone é a miríade de nudes e produções boudoir caseiras que têm pautado o corpo feminino nas redes sociais e as exigências de uma geração que já não tem tempo para discurso de boomers.




Do autotune visual à reivindicação dos poros


Não dá para entender as representações estéticas que emergem no mainstream sem passar pelas relações que se estabeleceram com a imagem nas redes sociais nos últimos anos. Desde 2016, Kim Kardashian vem sendo apontada como um ícone de beleza problemático: a liquidez de sua aparência fez com que ela fosse acusada tanto de whitewashing — já que ela apagou seus traços armênios naturais para ficar mais aceitável diante dos padrões de beleza brancos e ocidentais — quanto de blackfishing — por recorrer a procedimentos cirúrgicos para aumentar os quadris e apropriar-se de elementos da cultura negra em seu visual (Ou seja: basicamente uma Olympia desgovernadamente revoltada por perder protagonismo identitário. Eita, Manet, várias crias de instagram, não é mesmo?). Seu não-lugar estético parece muito mais relacionado à conveniência do que à miscigenação racial.

A psicoterapeuta Susie Orbach chegou a declarar, no documentário The Illusionists, que estávamos “perdendo corpos tão rápido quanto estamos perdendo idiomas.” Na mesma época, Kylie Jenner, seguindo os passos da meia-irmã mais velha, apresentou ao mundo o rosto que encontramos na aba de “explorar” do Instagram — rede que estabeleceu o Instagram Face, uma versão aprimorada ou high femme do corpo feminino. Sobre isso, a jornalista Philippa Snow, da i-D, contou: “Eu não estou nem certa se essas Instagirls estão muito interessadas na maneira como elas são vistas por homens tridimensionais quanto elas investem em lapidar seus rostos (...) para a câmera.”

Anos depois, a discussão desse olhar intermediado por filtros sobre o próprio corpo passou do shaming — já que apps como o FaceTune e o Snapchat andavam causando uma onda de cirurgias plásticas — à completa aceitação. O que mudou? Bom, além de uma pandemia, que nos tornou reféns das telas, graças a artistas como Ommy Akhe e Johanna Jaskowska, os filtros se afirmaram como um território potente de expressão visual, abraçando tecnologias de realidade virtuais e ferramentas de testes.

E se o boom do Instagram incluiu episódios como o de usuários que, de tanto ver rostos alterados e sem poros, confundiram a modelo virtual Lil Miquela com uma pessoa de verdade, o florescer do TikTok e seus usuários genZ & zennials já mostram que o que vem por aí é algo bem diferente (y mais racialmente consciente).

“O reinado de terror dos influencers está morto”, declarou a jornalista Roisin Lanigan, antes mesmo da pandemia acionar a guilhotina que enterrou as blogueiras de vez. Das VSCO Girls às E-Girls e E-Boys, os usuários ironizam a ultra perfeição do Instagram e rejeitam a hiper-realidade. O mundo tá uma droga, repleto de misóginos racistas decepando árvores, pra que gastar tempo (e dinheiro) para cobrir poros?

Para essa geração, Lizzo é uma figura crucial. Ela, que foi um dos primeiros fenômenos musicais impulsionados pelo TikTok, incorpora um discurso de amor próprio que não deixa de assumir vulnerabilidades e nem se vincula a produtos wellness. Ela é gorda, ativa, vegana, vive mudando cabelos e rebola enquanto toca uma flauta, mas também é a mulher que grava depoimentos sem qualquer maquiagem ou peruca. Ela tem um senso de humor que vai das suas roupas ao sorriso contagiante, mas não esconde as olheiras em episódios de crise de ansiedade e depressão. A cantora americana é um indício de que, talvez, a autenticidade imagética não seja uma bandeira publicitária ou um fenômeno típico da emergência de novas plataformas sociais (que tendem a ser mais espontâneas), mas uma característica de um mundo que renasce após a pandemia (y é, igualmente, o pesadelo da alma de Manet y de todo o feminismo branco desenvolvido a partir de tais conceitos de protagonismo dos ideais supremacistas na verticalização das relações sociais, considerando aspectos de gênero y raça. Tipo, sim, a Lizzo também tá fazendo o ideal de beleza feminina-cis-euro-centrada, perder totalmente a graça).

Se Olympia abalou centros culturais do século XIX com seu corpo tensionado e um olhar (dito) feroz, a juventude contemporânea constrói novas dinâmicas de poder imagético por meio de representações menos pretensiosas de si. (Terremoto sob reinos entre uma coreografia y outra).



MJOURNAL ED.005- Y QUE VENHA O AMANHÃ.