Comportamento


Ana Carolina Rodarte ︎



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© Copson Londan/ DTS

Olimpo em chamas



A voz conquistada pelas juventudes nos últimos anos transformou os Jogos Olímpicos e Paralímpicos em uma arena de luta pela pluralidade e derrubou mitos sobre o corpo atlético e de alta performance. Como o esporte tem colaborado com o entendimento coletivo sobre identidade, corpo e saúde? E o que podemos fazer para que mais jovens participem dessa conversa? O professor Luciano Jorge de Jesus dá seu lance.


A convocação da tenista japonesa Naomi Osaka, de 23 anos, para acender a pira olímpica no Estádio Olímpico de Tóquio tinha um objetivo claro: fazer uma referência aos novos corpos e olhares que têm ganhado as arenas nos últimos anos. As Olimpíadas se modernizaram, uau! Mas a afro-japonesa mandou tudo pras cucuias e fez o que sabe fazer de melhor: deu um novo significado à chama. De elo entre os jogos contemporâneos e os jogos praticados em Atenas, o fogo passou, no decorrer das competições, a ganhar um tom de contestação às mitologias coloniais impostas sobre os atletas. Escanteio pro Zeus.

Enquanto a skatista maranhense Rayssa Leal, de 13 anos, tornava-se a mais jovem medalhista olímpica dos últimos 85 anos, ela defendia a importância de se divertir nas arenas. Sua colega de pistas, a filipina Margie Didal, de 22 anos, ganhou o coração do público ao rir da própria queda e zuar com as fotos pomposas da competição. Alana Smith, skatista de 20 anos, trouxe a não-binariedade para o léxico de diversos jornalistas. O medalhista em saltos ornamentais Tom Dalley, 27, não dispensou a paz do tricô pandêmico na arquibancada. A atleta americana Simone Biles, 24 anos, desistiu de participar das duas provas finais para cuidar de si. A atleta e comentarista Verônica Hipólito, de 25, riscou a palavra “superação” da cobertura das Paralimpíadas.

Não que as juventudes não ganhassem os holofotes dos jogos olímpicos antes. Em 1964, por exemplo, o velocista Yoshinori Sakai, conhecido como "bebê de Hiroshima”, acendeu a pira olímpica, simbolizando a recuperação do Japão após a Segunda Guerra Mundial. Mas é na edição contemporânea do evento que as juventudes têm conduzido o debate público com seu olhar sobre corporalidades e identidades. Numa era em que nunca vimos tantos corpos perfeitos, bélicos e sem qualquer tesão na cultura pop, os atletas olímpicos enfim têm soltado a voz e colocado abaixo o mito dos corpos e corpas imbatíveis, especialmente PcDs — “‘Superherói’? Sério, galera?” — e as mulheres racializadas.

No Brasil, o Estatuto da Juventude, criado em 2013, defende o acesso ao esporte e ao lazer como um direito. Mas uma série de empecilhos distanciam os jovens desse lugar de contato com o corpo: a falta de espaços apropriados, as disparidades entre as práticas de educação física e a realidade dos estudantes, os preconceitos de raça e gênero e o capacitismo das instituições — né, Milton Ribeiro?

Há ainda a falta de apoio do governo federal num país que depende dele para sustentar o esporte. Pra se ter uma ideia, em 2020, os atletas chegaram a ficar sem bolsas por meses. Nesse sentido, para especialistas, o resultado brilhante da delegação brasileira na última edição das Olimpíadas e as mais de 100 medalhas de ouro nos Jogos Paralímpicos foram frutos de esforços de governos anteriores.

”O Brasil não tem uma política de  Estado para o esporte; ele tem uma política de governos. (...) Até 2016, tínhamos um Ministério do Esporte e uma estratégia relevante para o esporte de alto rendimento e para as manifestações da base. Se nada mudar, esse sucesso de agora não será sustentável”, conta a jornalista, psicóloga e professora da USP, Kátia Rúbio ao podcast O Assunto. Ou seja, enquanto, no Norte Global, atletas têm conseguido abrir espaços para dizer que não são infalíveis, aqui, no Sul, os jovens competidores ainda se sentem na obrigação de cumprir os 12 trabalhos de Hércules para conseguir algum lugar ao sol.

“O esporte ainda é um lugar de amor e ódio ao corpo.” _Luciano Jorge de Jesus



Foi pra conversar sobre esse rebuliço no Olimpo e sobre potencialidades transversais do esporte que fui bater um papo reto com um professor que mudou minha visão sobre o corpo ainda na escola. Luciano Jorge de Jesus é filho do seu Daniel e da dona Terezinha, esposo de Jaqueline, irmão da Ana, da Grazieli e padrinho de mais uma galera. Professor de educação física da rede pública de Belo Horizonte e do estado de Minas Gerais, ele é membro do Observatório da Discriminação Racial no Futebol desde 2009. Há anos, ele faz a interlocução entre educação, história, corporeidade e cultura, e reflete sobre questões de gênero e raça no mundo dos estádios. Ele também mestra RPGs, acompanha uma porrada de animes e participa de uma série de podcasts. E foi com esse desassossego que ele conduziu mais uma aula, como compartilho aqui com vocês. Puxa a cadeira.


Ana Rodarte: Como o esporte conversa com as novas noções de corporalidade?


Luciano Jorge de Jesus: O pensamento progressista contemporâneo vive uma série de tabus. O corpo é o lugar da interdição. E nas sociedades capitalistas temos um problema: toda prática corporal que atravessa um tipo de limite que não é um convencional traz um estranhamento muito grande. Em Moçambique, havia uma série de rituais de iniciação sexual para os jovens, e aquele era um lugar de aprendizado sobre o próprio corpo. E o máximo que nós temos aqui no Ocidente sobre isso é um baile de debutantes. A gente se afastou de uma dada forma do corpo que, somente em lugares específicos, nós vamos dar conta dele.
O esporte de alto rendimento tem como objetivo a comparação e a sobrepujança. E um dos grandes problemas desse tipo de esporte é a noção de que determinados corpos podem fazer parte de uma modalidade em que o entendimento de gênero é muito circunscrito. Por que a Tiffany Abreu, no voleibol, causou tanto problema? Além de toda a questão da transfobia usada para ofender a atleta, há uma noção limitada do que é ser uma mulher. A judoca intersexual Edinanci Silva também passou por esse processo de vigília do corpo. O esporte ainda é um lugar de amor e ódio ao corpo.

AR: Por que investigar o esporte por um viés histórico?


L: Então, Carol, o que rola: na graduação em Educação Física, eu comecei a sacar algumas coisas que estavam muito fora do lugar. Ali eu entendi que precisamos construir uma reflexão mais refinada do esporte; porque, se não, nós iríamos trazer para a escola as mesmas contradições do esporte de alto rendimento. Precisava entender, do ponto de vista histórico, como isso aconteceu.
Eu tento convidar a moçada a pensar o ensino e a aprendizagem de uma forma mais horizontal. Mas pra isso, a gente precisa recorrer a uma construção que nos ajude a perceber que nem sempre a Educação Física foi desse jeito. A gente só ia dar conta de fazer isso dum ponto de vista benjaminiana, entendendo a história pra entender construções e contradições. Inclusive como alguns corpos são tratados em detrimento de outros.
É importante olhar pras práticas corporais, como as lutas, a danças, as práticas circenses, nessa arena eterna de disputa de sentidos e significados.

AR: Queria que você, como professor da rede pública, me contasse o que tu vê como potência e como desafio para a educação física neste contexto de novos entendimentos de corporeidades.  Pode ser sincerão!


L: Acho que há um dilema. Nossa meninada ainda é desinvestida da própria possibilidade de existir. Desinvestida porque o sistema que ver os jovens mortos. Esse modo de vida quer que vocês morram. Na pandemia, isso ficou muito claro. Esse desinvestimento dessensibiliza toda uma geração das possibilidades que ela tem sobre a própria corporalidade.
Todo esse aparato tecnológico que a gente tem é tão dinâmico que nos dá a possibilidade de extrapolar uma ideia sobre corporalidade, sobre existência, sobre espaço público. Nem sempre dá certo, verdade! Afinal, a gente pressupõe uma ideia de como essas coisas se constroem do ponto de vista da produção de conhecimento e de mercadoria. Fazer esse jogo ainda é muito difícil, porque a moçada ainda acha que existe um antagonismo entre tecnologia e corporalidade. A tecnologia nunca foi avessa à prática corporal, nunca foi. O contrário de prática corporal não é tecnologia, é a morte normatizada; ela é o lugar da dominação, o lugar em que o capital mata e domestica corpos.
Mais do que esse desinvestimento da moçada sobre a própria existência, há o desinvestimento do espaço público enquanto espaço potencial. Há professores que dão muitas aulas, o que não permite explorar. Além disso, a gente precisa entender quem é essa moçada e qual é o tempo delas. Vencer a distância entre gerações. Alunos não vão levantar às sete da manhã pra ver uma aula do “Se Liga na Educação”! Ela tá gravada no YouTube; eles podem ver a hora que eles quiserem, na ordem que desejarem.

 

“A tecnologia nunca foi avessa da prática corporal, nunca foi. O contrário de prática corporal não é tecnologia, é a morte normatizada; ela é o lugar da dominação, o lugar em que o capital mata e domestica corpos.” _Luciano Jorge de Jesus




AR: O esporte se evidenciou como território de discussões políticas, com debates e manifestações contra o racismo, por exemplo. E tem existido também, por parte dos comitês, mecanismos para conter essas discussões – nesta edição, o Comitê Olímpico Internacional relaxou a chamada Regra 50 e permitiu que protestos acontecessem apenas em alguns momentos, como a entrada em campo, mas não durante a entrega de medalhas. Como esses posicionamentos têm se refletido fora das arenas? Dá pra fortalecer essa veia política do esporte?


L: Olha, eu não sou tão otimista. O esporte é uma arena distinta da política e dos movimentos sociais. Mais do que isso, há a forma como o capital se apropria desses símbolos. Ok, foi muito forte e importante o posicionamento dos atletas da NBA sobre o Black Lives Matter, por exemplo. Considerando os debates internos dos movimentos negros estadunidenses sobre o alcance e efetividade do BLM, foi um fenômeno poderoso. Mas acabou que a própria NBA se apropriou disso pra vender produtos. Isso não é necessariamente culpa dos atletas. Isso representa a contradição expressa nesse cenário em que vivemos.
Tenho um amigo que é palmeirense e criador de RPG, o JM Trevisan, que diz o seguinte: “Porra, a gente espera de um atleta o posicionamento de um político e a eloquência de um militante!” Eu estudei o MNU na pós. Um dos caras que entrevistei foi o Marquinho Cardoso. Sabe quem ele teve como mentores na formação como militante? Lélia Gonzalez e Hamilton Cardoso. Uai! A gente vai fazer esse tipo de comparação?
Ainda penso na importância desse espaço de posicionamento político no esporte porque ele faz algo que, na vida cotidiana, a gente perde de vista, que é a construção de reflexões. E o esporte sempre foi arena de disputas. Em 1981, no Uruguai fazia um plebiscito sobre o fim da ditadura, ao mesmo tempo em que ocorria o Mundialito. Todo mundo se aproximou desse campeonato de futebol pra tirar uma casca nesse debate.
Rolam umas rupturas que são legais. A goleira Bárbara Moreira, da seleção brasileira de futebol, tem sido criticada por ter um corpo fora do estabelecido como padrão. Pegaram no pé dela! No skate feminino, nós tivemos Alana, que é não-binárie. A gente vai vendo essas contestações, porque a corporalidade enquanto complexidade, algo amplo, nos é furtada. Ainda tem essas faces que são subversivas no esporte. 


“É preciso pensar em modelos mais locais de organização. Não faz sentido algum esse projeto de algo ‘nacional’ (...) Há a necessidade de pensar em outros modelos, pra educação, pro lazer e para as políticas públicas de fomento aos esportes, que considerem a existência de vários Brasis.” _Luciano Jorge de Jesus



AR: O que nós, como comunidade, podemos pensar pra construir um futuro de mais pluralidade no esporte? Como abrir esse caminho, como diria MC Tha?


L: É preciso pensar em modelos mais locais de organização. Não faz sentido algum esse projeto de algo “nacional”. Nessa semana já começaram a rolar uns desenhos da Rayssa e eles são completamente embranquecidos. Pera, a gente tá falando de uma menina racializada, correndo pelas veias uma série de tradições, reflexões, corporalidades e resistências. Nesse sentido, há a necessidade de pensar em outros modelos, pra educação, pro lazer e para as políticas públicas de fomento aos esportes, que considerem a existência de vários Brasis. Aquilo que a Elis chama atenção: “O Brazil não conhece o Brasil”.
Gosto muito dessa ideia de brasilidade que o Luiz Antônio Simas tem, que ela é muito mais fragmentada, muito mais contraditória, e assume a contradição como existência da vida. A gente precisa primeiro entender quem a gente é. Entender a importância de determinadas tradições, de como determinadas culturas forjaram essa potencialidade e essa contradição chamada Brasil.
A gente também precisa aprender a pautar e desejar outros modelos. O futebol brasileiro tem pautado o racismo no futebol por causa do trabalho do Observatório da Discriminação Racial, que está em constante diálogo com os movimentos sociais.
E isso é difícil, porque a gente vive uma estrutura de sentimento que é militarizada, que quer um culpado, como diria o Raymond Williams. Fico pensando no caso do Nory: quantos caras como ele existem por aí? E aí, a gente vai queimar todo mundo? Será que não dá pra pensar num modelo pra que essas pessoas entendam o que fizeram e possam mudar? E tem que ter cuidado, porque tem gente que reclama de cancelamento só porque foi cobrado!
A gente tá vendo a história e a gente escreve ela. Eu tenho um orgulho muito grande de ver a sua geração botando pra fudê. A gente na educação não vê a mudança na hora, a gente vê depois. E esse é um ponto importante quando a gente pensa em educação, política pública e esporte: pensar em autonomia e coletividade. A gente constrói tudo é na esperança e na comunhão. Voltando no Simas: “O contrário da vida não é a morte. O contrário da vida é o desencanto.”


Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.