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Gabriela Campos︎

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©  Xtravagan T/ Adobe Stock

O tecno-indivíduo e a utopia do autocuidado comum



As políticas progressistas do amanhã precisarão considerar perspectivas ancestrais e coletivas no escopo da saúde.


Cuide-se: a turminha engajada das redes sociais também deu a sua forcinha para essa reprogramação do wellness. O autocuidado que Audre Lorde defende, como gesto político (especialmente para mulheres negras), em sua coletânea de ensaios “A Burst of Light”, foi resgatado e distorcido na perspectiva individualista das redes. SPAs com tratamentos ultra exclusivos e, por vezes, fundamentados em princípios pouco atestados pela ciência, se colocaram como alternativa a tratamentos de saúde adequados. A sabedoria ancestral de tradições milenares vem sendo posta na mira da pseudociência e envernizada de tons pastel para um público embranquecido. Namastê! Hoje, qualquer atividade, compra ou prática que ajude o indivíduo a encontrar algum tipo de calma ou autopreservação nesses tempos espinhosos já é enquadrado como autocuidado.

Em busca de um estilo de vida limpo e de alta performance, alinhado aos ideais do capitalismo da frustração, vivemos a correr de toxicidades: nos alimentos, cosméticos y relacionamentos. Tudo pode ser tóxico e tudo pode ser purificado. O ar passa por sistemas inteligentes de filtragem e umidificação que não só afastam os moradores dos germes, como também beneficiam a pele. Comportamentos e atitudes também podem ser peneirados e “neutralizados” na terapia. Em um auto detox, o indivíduo volta-se a si, conduzindo a abordagem contemporânea do bem-estar para a gama de ideologias neoliberais que sublimam o indivíduo: tá todo mundo se cuidando y ninguém tá cuidando de ninguém.

Por meio de aplicativos, da telemedicina, de wearables, de setups de moods que envolvem lâmpadas smart e sons ambientes [sim, tudo em inglês], de conselheiros do TikTok e da estação ChillCow à toda nos ouvidos, as pessoas vão especulando os cuidados com a saúde pelas próprias mãos. O ego do doutor [quando disponível] que lide com pacientes cada vez mais empoderados por dados e restrições auto-diagnosticadas.

Por falar em auto-diagnóstico, se em 2019, segundo o Google Health, cerca de 7% das pesquisas diárias do buscador eram relacionadas à saúde [o que corresponde a 70.000 pesquisas por minuto] imagina agora, após mais de dois anos de pandemia? Essa preocupação já tem até nome: cybercondria. As comunidades de bem-estar online também cumprem seu papel nessa, já que são abertas a esse tipo de busca e abrangem membros cujos problemas de saúde foram descartados pelo sistema médico. E apesar de uma outra parcela de pesquisadores acreditar que isso facilita o trabalho de médicos e enfermeiros, o outro lado considera esses acessos prejudiciais ao processo de diagnose, já que ele pode levar à automedicação.

Antibióticos [entre eles a Azitromicina] e vitaminas estão entre os medicamentos mais consumidos sem a orientação de profissionais da saúde. Mais especificamente, falando em psicotrópicos, os Benzodiazepínicos — a conhecida classe dos AM - Alprazolam [Xanax], Diazepam e afins — vêm sendo usados sem distinção e para fins recreativos: uma herança millennial que continua rolando entre a GenZ — a Rue de Euphoria que o diga. Opióides consumidos através de prescrições médicas como o Vicodin, OxyContin e Fentanil. Analgésicos e anti-histamínicos — como Codeína e Prometazina no copo [e com refrigerante] viram Lean a.k.a. Purple Drank. E os dados da pesquisa ainda apontam um salto de 7,4% no uso de cocaína Global Drug Survey [GDS].  E se, em suma, acreditava-se que o hype das drogas era coisa das gerações passadas e que a Gen Z estaria ocupada demais  — principalmente com discussões identitárias e socioambientais — para se “divertir”, parte da turma mais jovem decidiu abordar o uso de substâncias como parte de mais uma escolha individual geracional.

Enquanto isso, as políticas públicas de saúde seguem em desmonte em diversas partes do sul global. No Brasil, por exemplo, no fim de 2020, o Ministério da Saúde apresentou uma proposta para revogar cerca de cem portarias, editadas de 1991 a 2014, que contemplavam a saúde mental. Com isso, o Serviço Residencial Terapêutico, a Rede de Atenção Psicossocial e o Consultório na Rua, iniciativas públicas para amparo a cidadãos fragilizados, ficaram em risco.

Não muito distante daqui, na Argentina, ao passo que a legalização do aborto, conquistada em 2021, significou um avanço nas políticas públicas em relação aos demais países da América Latina, o desmonte de outros direitos outrora assegurados pelo Estado seguia em curso. Isso foi escancarado pela queda de 20,65% do orçamento destinado à saúde durante o último mandato governo Macri.

Do outro lado do globo, países na África, como Tanzânia, por exemplo, com sistemas já fragilizados, apresentaram baixa prontidão das unidades de saúde para lidar com os efeitos da pandemia. A concomitância entre COVID e o surto de outras doenças infectocontagiosas — como Ebola, que atingia o Congo no momento em que o vírus chegou ao país — sobrecarregou os sistemas de saúde. Além disso, acima de 70% dos trabalhadores da saúde de Mali apresentaram ao menos 03 sintomas de doença mental como depressão, ansiedade e insônia.

Quando o assunto é saúde mental, o Oriente Médio requer atenção redobrada; principalmente depois das recentes catástrofes como a explosão do porto do Líbano em 2020. Além de enfrentar o estresse pós-traumático desses eventos, somados aos danos indiretos causados pela pandemia, a região tem lidado com o crescente empobrecimento da população. O Programa Nacional de Saúde Mental, a Organização Mundial da Saúde e a Embrace – uma ONG que trabalha para aumentar a conscientização sobre a saúde mental no país – revelaram recentemente que “o colapso psicológico está se aproximando dos libaneses de todas as idades, aumentando o risco de suicídio”. Um dos maiores empecilhos, antes de qualquer questão estrutural relacionada à subsídios estatais, é o estigma que envolve assuntos relacionados à saúde mental e seus tratamentos.

Essa cortina de fumaça, que relativiza condições de bem-estar para certas parcelas da população, se intensifica quando o ponto é a saúde de pessoas que menstruam. E com a pandemia COVID-19 transparecendo desigualdades, com essa questão não seria diferente. Segundo o BMC Women 's Health, cerca de 500 milhões de pessoas são afetadas com a escassez de recursos para manter uma higiene menstrual digna. Mas, se pobreza menstrual é tabu, é porque a menstruação em si ainda é: em muitas sociedades, é vista com ojeriza e serve de instrumento para a desconsideração desses indivíduos, excluídes da participação em atividades cotidianas, como educação, emprego e práticas culturais e religiosas. Não por acaso, em uma pesquisa desenvolvida pelo Independent no Reino Unido, 39% das pessoas que experienciaram a pobreza menstrual relataram ter ansiedade e depressão. Nesse embalo a relação entre carreira profissional e condição mostram que muitas das pessoas que menstruam acabam por aceitar oportunidades de trabalho aquém do que desejavam.

Se, segundo o Oxfam, durante a pandemia do Coronavírus, 10 do homens mais ricos do mundo dobraram seus patrimônios enquanto a queda na economia dos mais pobres permitiu a morte de 21 mil pessoas por dia, é porque nem todes estão dispostos a encarar as diferentes camadas envolvidas no processo de bem-estar coletivo e que compreendem muito mais do que uma rotina de skincare completa. Em 2021, após o projeto SpaceX, do Elon Musk, receber US$ 337,4 milhões em investimento, o bilionário declarou interesse em levar pra Marte uma "arca de Noé futurista" visando uma maneira para lidar com as mudanças climáticas e o declínio ecológico, enquanto parece esquecer que cada voo espacial de 11 minutos pode criar até 75 toneladas de CO2 por pessoa. 

E enquanto isso, seguimos acompanhando as dores e as delícias de gadgets e aplicativos que prometem levar, mais uma vez, o indivíduo à sua potencialidade e  capacidade de autogerenciamento máximos. Apps como Strava, MyFitnessPal e Fitbit compartilham dados de condicionamento físico disponibilizados pelo monitoramento dos dispositivos móveis e padronizam suas entregas aos usuáries. Mas os aplicativos destinados à saúde envolvem alguns desafios: faltam diretrizes de segurança, ausência de políticas de privacidade e o compartilhamento de dados de usuáries com terceiros.

É o descompromisso com coletivo, intensificado por narrativas neoliberais de individuação que permite intuitos escapistas. Ele traduz, assim, o acesso às políticas de bem-estar como o novo campinho de futebol onde os mais ricos são donos da bola.

Ok, capitalismo parece que, mais uma vez, você venceu.