MODA + INDÚSTRIA



Gabriela Campos



Imagem: Reprodução

O sul da Ásia é logo ali, no Brás.


Novidades não tão novas da indústria têxtil internacional, práticas nada saudáveis de quem parece não aprender nunca .

Em abril de 2013 o edifício Rana Plaza, localizado na periferia de Dhaka, em Bangladesh, desmoronou deixando milhares de mortos, feridos e incontáveis reflexos nos sobreviventes. Entre os escombros, a sujeira da indústria têxtil internacional foi encontrada, misturada a quilômetros de tecido e condições subumanas de trabalho. Sete anos após a tragédia, trabalhadores do setor responsável pelo boom econômico que Bangladesh vem apresentando, estão indo às ruas para reivindicar o básico: seus salários e empregos em meio a uma pandemia. Essa parcela da população que vem desrespeitando as regras da quarentena decretada no país, ameaça de seguir furando o isolamento social, caso governo ou indústria não venham a atender suas necessidades. E assim o Coronavírus, que tem sido o principal agente de transformação do agora, revela mais um dos pilares não tão sólidos da indústria internacional do vestuário: marcas ocidentais passaram a romper contratos e cancelar pedidos milionários, sem o mínimo de responsabilidade financeira para com os seus fornecedores.

Costuma-se associar esse processo exploratório às marcas de fast fashion como a Zara, por exemplo. Porém, essa relação codependente começou com as marcas de luxo durante a década de 80. Dior e Saint Laurent foram pioneiras no uso das habilidades da população da Índia, que são considerados os melhores artesãos do mundo. E esse modelo de subcontratação segue os mesmo moldes para ambos os mercados. No caso das marcas de luxo, as desigualdades ficam ainda mais escancaradas: cada uma das peças produzidas em oficinas precárias, sem o mínimo de estrutura ou remuneração adequada, não custa menos que algumas centenas de euros ou dólares nos mercados de luxo. E as manifestações por lá, reuniram trabalhadores de diversos setores da indústria, já que o efeito cascata das quebras de contratos permitiu que o primeiro ministro da Índia flexibilizasse ao extremo as normas trabalhistas, expondo os funcionários de grandes indústrias ao um novo regime que beira a escravidão.

Com a relação entre contratantes e contratados comprometida, levantam-se questões sobre o subaproveitamento da mão de obra, muitas vezes especializada dos povos originários, e sobre os fluxos migratórios: já que em Bangladesh, o setor é composto por migrantes da área rural, sobretudo mulheres. O aumento da imigração de bolivianos no Brasil e a concentração do grupo na região do Brás, que centraliza a produção têxtil da grande São Paulo, permite que seja traçado um paralelo com o que tem acontecido na Ásia nos últimos meses. Até porque a estrutura dessa relação, tem como ponto em comum a precarização das condições de trabalho. Poucas dessas questões são expostas, como o caso do imigrante encontrado em condição de escravização no início de maio. Isso permite que muitos vivam em situação de risco durante a pandemia: instalações insalubres, oficinas são usadas como moradia, grande número de pessoas coexistindo em poucos m² aumentam as chances de contaminação entre os mesmos. Grande parte dos bolivianos, que tem seus rendimentos baseados na quantidade de peça produzida, estão sem receber e sem nenhuma garantia trabalhista, já que a maioria está em situação irregular no país. Mesmo com o auxílio emergencial garantido através da nova Lei Orgânica de Assistências Sociais, que passou a estender o benefício sem discriminação por nacionalidade e/ou condição migratória, os bolivianos têm esbarrado na barreira do CPF. Os poucos que possuem cadastros de pessoa física, estão irregulares. E tem gente que nem conseguiu dar entrada na documentação, pois os postos de atendimento estão com horários confusos durante a quarentena. E ainda há falhas no sistema de saúde: a população que hoje é a maior entre todos os imigrantes em São Paulo, conta com apenas duas unidades de saúde preparadas para o atendimento dos mesmos em espanhol, que não conseguem comportar 75 mil bolivianos espalhados por toda cidade. As vítimas de violência doméstica encontram as mesmas dificuldades: tendo garantia de medidas protetivas e acesso à espaços de acolhimento, as mesmas são isoladas linguisticamente quando precisam denunciar as violências sofridas.

A desassistência para com os povos originários deixa em evidência como os processos de escravização moderna e os métodos coloniais de estruturação operam. Temos uma indústria gigantesca, que se instala, incentiva e intensifica suas operações em países e povos considerados em desenvolvimento, e se sente no direito de atuar livremente,  se ausentando de suas responsabilidades quando sente que está ameaçada. Do outro lado, a gente acompanha a luta de uma população desamparada, mas que compreende que as atuais estruturas desiguais de classe e de trabalho não cabem em situação alguma, quiçá durante uma pandemia. Existe espaço para relações coloniais de trabalho em num novo normal? E a moda, num momento onde não há espaço para roupas, quem continua segurando essa estrutura?