Moda


Ana Rodarte ︎


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© Joel Filipe / Unsplash

O espelho dos nossos desejos: o que os desfiles nos contam sobre a política do amanhã





O MJournal investiga como alguns ideais progressistas globais atravessam as passarelas das últimas temporadas.

Parece um pouco estranho constatar que as manifestações estéticas da política não se fazem só de literalidades quando supostos líderes saem por aí mostrando dedo do meio, se banhando de farofa para demonstrar alguma autenticidade e vestindo qualquer camisa de futebol que venha a arrancar suspiros de seu ressentido eleitorado masculino. Considerando o universo da moda, camisetas com frases de ordem, bandeiras aplicadas e vestidos-protesto — ah, sim, eu vou meter essa, o vestido Brother Vellies de Alexandria Ocasio-Cortez teve a sua importância — ainda têm lá o seu lugar na demarcação de discursos, mas o potencial que nossos trajes e estilos têm para nos contar sobre o contexto sociopolítico que vivemos e defendemos é um tanto mais instigante.

Contam os historiadores que a moda como fenômeno social se iniciou com a modernidade europeia, quando as grandes navegações se preparavam para causar o maior estrago no restante do mundo e uma série de tradições da nobreza eram rompidas. É nesse momento que uma burguesia começa a demarcar valores individuais com manifestações estéticas que ela cria (ou se apropria, rs) e dissemina, como nos conta a artista multimídia, pesquisadora em artes visuais e moda e professora de moda do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Violeta Sutili: “Onde a moda se apresenta politicamente para além do consumo como um voto? Quando a moda fala sobre desejo. A moda nos permite pensar como a gente molda e elucida práticas cotidianas, seja nessa dicotomia local/global, seja pela escrita de cada um de nós por meio da roupa. (...) toda a prática da moda diz sobre o desejo. Ela nos permite pensar o que a gente deseja, qual é o caminho pra compreender o nosso desejo, quem ou quais ideologias habitam o nosso desejo.”

Mas o desejo não é um campo muito individual para ser pensado assim, no âmbito político? Bom, segundo os filósofos Deleuze e Guattari, não. Para eles, o desejo não se restringe ao indivíduo ou a um objeto; ele abrange comunidades inteiras, sendo, portanto, uma força coletiva, onde o indivíduo é só um ponto — é, eu sei, eu também gosto de me sentir única e especial. Como formula o pesquisador Domenico Uhng Hur, que estuda a obra da dupla, “o  desejo  produz  diversos  tipos  de  agenciamentos,  muitas  vezes  díspares  entre  si,  como  por  exemplo  a  máquina  estatal,  a máquina capitalista, ou mesmo a máquina neofascista.” Seguindo esse raciocínio, o sistema da moda agiria como uma máquina codificadora (essa tá na conta do Deleuze e do amigo dele!) do Estado e seus agentes, traduzindo e conformando os desejos que se formam no coletivo ao sistema majoritário de poder por meio de normas do vestir.

Mas a moda também nos oferece um repertório de símbolos para que os desejos se manifestem de maneira mais livre — para não dizer subversiva — por aí. Quer um exemplo? No auge da sua pirraça anti-indústria, em 2007, o estilista Hussein Chalayan aproveitou sua parceria com a Swarovski pra fazer um vestido de LED que colocava a máquina (os LEDs) a serviço do usuário — ou do ativista — fazendo com que um vestido se transformasse em muitos, muitos outros.


Foto:
o vestido de LED de Hussein Chalayan
Fonte:
Centro de Arte, Ciência e Tecnologia do MIT

É por isso que podemos entender a moda, enquanto fenômeno estético-social, como um espelho dos desejos globais ou locais que circulam em nossas comunidades. Ela reflete tanto o que se diz (consciente) como o que não se diz (lá vem ele, o inconsciente). Trata-se dos discursos que fazem estilistas caírem rapidinho no gosto da plateia, mas também das cartelas sóbrias que invadem as passarelas sem querer quando entramos em profundas crises financeiras e morais.

Como elucidação do cotidiano que é, a moda não poderia deixar de ser atravessada pelos ideais progressistas que andam reformulando espaços de poder. Bem verdade que, embora os desfiles tenham se entendido com a dinâmica das redes e estejam inundando nossos feeds com imagens de arquivo memeficadas, as disparidades evidenciadas pela pandemia deixaram claro que eles nunca foram para nosso bico, afinal. Fica difícil, especialmente para o Sul Global, se encantar com os vestidos em florescência de Glenn Martens para a Jean Paul Gaultier quando sequer conseguimos vacinar as nossas crianças ou fugir das consequências do colapso climático. Ainda assim, as maisons mantêm a sua influência sobre o nosso repertório estético de expressão de desejos, e se não for por meio de seus produtos hiperfaturados, será por ideais assimiláveis por meio de acervos revisitados, peças de brechó e fast-fashion.


Foto:
Glenn Martens para Jean Paul Gaultier
Fonte:
Arnaud Lajeune/Jean Paul Gaultier


Bom exemplo da função que a moda assume na captura dos ideais progressistas que pipocam em nossas conversas foi a coleção de alta-costura da Primavera 2022 da Schiaparelli. Nela, o estilista Daniel Roseberry resgatou o conceito francês de “l’appel du vide” (“o chamado do vazio”, em tradução livre) para abordar os pensamentos repentinos que às vezes nos ocorrem no cotidiano e que nos chamam para viver. A partir disso, ele criou uma coleção inteira em preto, branco e dourado para privilegiar formas e formular uma fantasia no espaço. A metáfora, que poderia soar elitista nessa era em que bilionários olham para o céu enquanto a Terra queima, parece condensar um desejo coletivo por uma suspensão criativa, onde possamos ser outras criaturas, de corpos outros. Não se trata de escapismo, mas da necessidade de se criar um espaço para a fantasia e para a formulação do novo, dado que o presente parece condenado ao fim.


Foto:
Schiaparelli Primavera 2022 Alta-Costura
Fonte:
Filippo Fior / Gorunway.com

Ainda no mundo dos sonhos, a última apresentação de Virgil Abloh para o Outono 2022 de Moda Masculina da Louis Vuitton construiu um banquete pós-identitário, onde criadores como Tyler, The Creator e dançarinos personificavam a possibilidade da comunhão. Não por acaso, o designer imprimiu, em sobretudos, as pinturas “Souvenir d’ Italie” (1914), de De Chirico, e “The Painter’s Studio” (1854-1855), de Gustave Coubert, representantes de duas correntes distintas e quase opostas da pintura européia: surrealismo e realismo, respectivamente. Looks compostos por asas de renda, códigos típicos do streetwear e alfaiatarias interseculares fizeram uma referência direta, ainda que delicada, à imaginação negra que começa a perpassar espaços de poder.





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Louis Vuitton Outono 2022 de Moda Masculina
Fonte:
Louis Vuitton

O olhar que se repensa para conceber formas de habitar o mundo capazes de escapar ao cisheteronormativismo branco também atravessou a apresentação de Outono 2022 da Ekhaus Latta e da designer americana de origem porto-riquenha Elena Velez, que fez a sua estreia na última edição da Semana de Moda de Nova York. Nessa última, as peças ultra utilitárias e repletas de recortes foram aplicadas no questionamento de arquétipos de feminilidade, ora exaltando a força das mulheres responsáveis pela criação de Velez (que cresceu sem pai) no Cinturão da Ferrugem, ora questionando as figuras que rondam o imaginário de seu país. As imagens que ela propõe com reaproveitamentos dizem das mulheres trabalhadoras que transitam entre o endeusamento e a vulnerabilidade do acúmulo de funções – um dilema que as lideranças progressistas precisarão resolver nos próximos anos, graças aos atrasos causados por más gestões durante a pandemia. Quer ter uma noção do desafio? Uma pesquisa divulgada pelo Fórum Econômico Mundial em maio de 2021 apontou que o tempo necessário para alcançar a paridade de gênero passou de 99,5 para 135,6 anos.


Foto:
Elena Velez Outono/Inverno 2022
Fonte:
AnOther Magazine


Foto:
Ekhaus Latta Outono 2022
Fonte:
Isidore Montag / Gorunway.com

E se o espelho dos desejos também apreende o que não se diz, tem desfile por aí deixando escapar o desconserto de certas vivências nos imaginários aspiracionais progressistas, a começar pelas idealizações que a elite formadora de opinião faz em torno da classe trabalhadora. A apresentação de Raf Simmons e Miuccia Prada para o Outono 2022 de Moda Masculina da Prada veio entremeada pelas funcionalidades que o cotidiano anabolizado assume nos regimes neoliberais. Mas pelas cores fluorescentes dos macacões propostos pela marca, essa redução da existência ao mundo do trabalho vira uma espécie de caricatura. As vivências do proletariado injetam significado nos discursos de líderes, mas, diante das precarizações impostas pelo neoliberalismo e por uma transformação digital que contempla poucos membros da força de trabalho, há muita gente desacreditada no próprio futuro. Quais serão as projeções dos líderes progressistas para aqueles que perdem suas funções para a automação das máquinas?



Foto:
Prada Outono/Inverno 2022 Alta-Costura
Fonte:
Prada

Em searas menos espinhosas, mas que ainda valem o debate, Pierpaolo Picciolo questionou os discursos de diversidade na coleção de alta-costura “Anatomy of Couture”, da Primavera 2022 da Valentino. Um breve olhar sobre os desfiles rotulados como “diversos” nos últimos anos nos ajuda a chegar à mesma constatação do estilista italiano: ainda tem marca ganhando biscoito nas redes sociais por destinar um a três looks para modeles gordes numa apresentação com trinta a quarenta propostas. F*da, né? Foi pensando nisso que Piccioli resolveu remexer seus processos. Tradicionalmente, o couturier (criador de alta-costura) trabalha com um modelo padrão da casa que é aplicado aos 50 a 60 modelos que vão desfilar. Pierpaolo então decidiu trabalhar com dez modelos que tivessem diferentes padrões corporais e idades, criando silhuetas não convencionais para os padrões da alta-costura. Se revolucionou mesmo, eu não sei, porque uma boa parte dos looks desfilados ainda são propostos para corpos magros, mas há ali um ensejo que precisa ser considerado.

Para além das questões processuais, um dos pontos mais interessantes para os ideais progressistas que perpassam a apresentação de Piccioli são os códigos de sensualidade. Com a escalada de sujeitos historicamente marginalizados a espaços de poder, é preciso que haja também escuta para suas diferentes manifestações de afeto e sexualidade — vale lembrar que, historicamente, corpos e corpas negros e não-magros são hiperssexualizados para serem validados. A coleção resgatou silhuetas helênicas que reinterpretam a androginia dos anos 20 e 60, apostando menos na exuberância já característica da atual Valentino e mais numa elegância sóbria. Ali, todo mundo pode ficar na miúda e desfrutar de uma sexualidade mais low profile.


Foto:
Valentino Primavera 2022 Alta-Costura
Fonte:
Valentino

Lembra que falamos ali atrás do desconserto de pautas progressistas com certos temas? A luta anticapacitista é um deles. A gente poderia fazer um tratado sobre como a ausência de modelos com deficiência nas passarelas denota a invisibilidade desses sujeitos nas esferas de deliberação, mas vamos optar por dar uma analisada em quem está adotando uma tônica interessante para a pauta: a Collina Strada. Debochada que só ela, a marca fundada por Hillary Taymour apresentou, na última quarta (16/02), um reality show bem ao estilo de “The Real Housewifes”. Ali, Taymour propôs diálogos intergeracionais bem-humorados pra tirar sarro de discursos pretensiosos. E ela pode fazer isso, porque a lição de casa tá bem encaminhada: a marca já é conhecida por trabalhar com um casting diverso e processos sustentáveis sem fazer alardes. E a gente espera que o número de modelos PcD na marca aumente!


Foto:
Aaron Philip para Collina Strada Outono/Inverno 2022
Fonte:
Collina Strada

A tônica da Collina Strada alinha-se ao que as novas gerações parecem demandar das esferas de deliberação progressistas: ela não teme paradoxos, é fluente no frenesi de filtros&efeitos&memes da geração Z e se leva a sério o suficiente para reconhecer os próprios limites. “Qual é, caras. A gente pode se importar com as coisas e fazer a nossa parte, mas nenhuma marca de moda está salvando o mundo. Eu não me importo com o que dizem à imprensa. Elas não estão”, conta Taymour ao NY Times.

O desconserto político evidenciado pelas passarelas também está na impossibilidade do uso. As balaclavas, que pipocaram nos últimos desfiles da Miu Miu, Balenciaga, Marine Serre e Givenchy, foram assimiladas por pessoas brancas como um acessório descomplicado e de forte teor rebelde — vale lembrar que ela surgiu como um acessório militar, kkkkk. Ocorre que, como a tiktoker Malihaness aponta, o acessório é um risco para pessoas racializadas. Quando se é alvo preferencial da polícia e seu corpo é constantemente associado ao crime, fica difícil usar um acessório como esse só porque o Demna Gvasaglia deu a deixa. Para mulheres muçulmanas, a balaclava soa como um desaforo: por que o hijab é associado à submissão patriarcal e a balaclava, a uma tendência fashionista ousada? Como Gabi, nossa editora-chefe, comenta, “ainda há tônicas e temáticas que não permitem que todos os corpos performem a moda de forma política ou com elementos para pautar discussões”. E isso já diz muito sobre como a política em si se desdobra e o longo caminho a ser percorrido para que corpos racializados possam fazer parte de mudanças sistêmicas.


Foto:
Christian Vierig
Fonte:
Vogue Espanha

Se fizermos uma análise distanciada de apresentações como as da quase-carnavalesca Area, que parece dizer de um mundo em estranho festejo, é mesmo inevitável não desconfiar de posturas supostamente progressistas nesses espaços — ainda mais se considerarmos seu potencial de apropriação de ativismos. Mas para além do seu entendimento como sistema a serviço dos interesses da elite, a moda também é um local de leitura enriquecido pelas subjetivações do nosso presente e os desejos que modelam o nosso futuro. “A moda opera como a ficção de cada um, pois ela nos permite decidir o que a gente quer mostrar, o que queremos ser e o que vemos em nós mesmos, quase como uma edição de nosso perfil. E isso nos permite entendê-la pra além do campo da aparência; ela também é um lugar de fala”, conta Sutili.

Que possamos fazer da moda uma biblioteca de recursos para aqueles que desejam hackear o amanhã e enchê-lo de vestidos acesos.


Trilha de audiodescrição: The Construal of Space in Language and Thought by Irama Gema

Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.