Comportamento


André Alves ︎



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© Copson Londan/ DTS

O after do colapso



Tem algo esperando a gente depois da catástrofe. E nós vamos precisar de imaginação para chegar lá.

O mundo anda confuso. A internet se diz exausta de estar exausta e diariamente à beira do definhamento. O sofrimento psíquico é mal distribuído, já que diferentes grupos sofrem ainda mais violências e opressões. O caos parece reinar em um mundo profundamente assimétrico. Para completar, as previsões apocalípticas parecem se confirmar em tantos desastres ambientais. No mundo da inovação frenética, a crise climática também é exponencial. E assim dormimos e acordamos com a sensação de que o mundo está acabando. como cantam Clarice Falcão e Linn da Quebrada, Bem-vindes ao after, do after, do after do fim do mundo.

Mas é preciso ter cuidado com essa postura catastroficista que, geralmente, nos tira a capacidade de imaginação. Ainda que as coisas estejam bem estranhas, esse gosto pelo fim não é um sentimento exclusivo do nosso tempo. Para a psicanálise, o medo é constitutivo da psique e temer é fundamental para existirmos. O medo geralmente está ligado a uma experiência que conseguimos nomear, mas quando o objeto temido começa a se esfumaçar e então não sabemos mais o que tememos, nos deparamos com a ânsia, essa companheira onipresente de nossos tempos. Temos um certo medo do colapso generalizado.

Como escreveu o psicanalista inglês Donald Winnicott, “o medo do colapso pode ser um medo de um acontecimento passado que ainda não foi experienciado”, algo que frequentemente se converte em medo da morte. A constituição psíquica humana é realmente complexa; afinal, como podemos temer algo que não vivemos? Em algum nível, todes nós tememos e queremos a morte simultaneamente. Mas talvez a sociedade da informação tenha deixado o cenário mais complexo, já que viver em tempos tão conectados é sentir que não temos como processar tanto sofrimento. Localizando ainda mais a dor, aos poucos, o Brasil também vai se tornando uma referência global de uma nova ordem de mundo cada vez mais precária. O país do Carnaval e da suposta alegria boa-praça é também o que lidera o índice de insatisfação com a vida na América Latina (Consumoteca, 2020), além da população que mais sente que o país está em declínio entre 25 nações pesquisadas (Ipsos, 2021). 

Ainda que o medo seja um certo mal necessário, sabemos também que o medo é uma poderosa ferramenta de manipulação. Se por um lado o medo pode impulsionar instintos defensivos, por outro, o medo também pode paralisar. Paralisar não só nossos atos, mas inclusive nossa capacidade de imaginar, elaborar e propor diferentes formas de se relacionar, conviver, existir. É esse um dos paradoxos centrais da sociedade atual, um contexto muito bem encapsulado pelo filósofo e crítico cultural britânico Mark Fisher: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?”. Nessa direção, a narrativa de fim do mundo parece uma grande manobra discursiva para agravar a profunda crise civilizatória na qual nos encontramos e impedir mudanças na distribuição do poder. Seria assim uma forma de manter as massas na inação enquanto a locomotiva tecnoneoliberal vai promovendo um lento-porém-acelerado cancelamento do futuro. O fim do mundo talvez seja o último golpe da branquitude cis-hetero-patriarcal para tentar frear as mudanças que se instalam pelo mundo todo. Impedir inclusive que imaginemos outras possibilidades. mas como escreveu Fanon, “o verdadeiro salto consiste em introduzir na existência a invenção”.


O fim do fim da história




Nos anos 1990, o cientista político Francis Fukuyama sentenciou o mundo ao fim da História, afirmando que a universalização da democracia liberal ocidental seria a forma final de governo humano. Quase 30 anos se passaram e a verdade é que, como dizem os criadores do podcast de geopolítica global Aufhebunga Bunga, estamos diante do fim do fim da história. O que está desmoronando não é o mundo em si, mas o neoliberalismo e suas mutações. Será?

O que sabemos é que a antipolítica do ódio nos assombra e nos assusta em todo o mundo. E que as elites caíram na histeria, culpando os eleitores, o "populismo", a esquerda, a direita, o Facebook... qualquer um, menos eles mesmos. É a síndrome de quebra da ordem neoliberal. Se Trump e Brexit romperam o consenso liberal-democrático em 2016, então a pandemia global de 2020 colocou um fim definitivo ao fim da História. Tudo isso nos coloca em uma estratégia cognitiva perigosa, ligeiramente perversa e altamente indiferente, o Pessimismo Defensivo. Frente a um feed de tantas notícias difíceis, parece que ficamos anestesiados, acostumados a esperar pelo pior. E assim corre-se o risco de migrar do “não espero mais nada” para o “não quero mais nada”. Ou mesmo “não me importo com mais nada”.

Na outra ponta desse gradiente, se estabelece ainda um comportamento igualmente problemático, a Positividade Tóxica. Velha conhecida dos tempos digitais, é o que o filósofo Byung-Chul Han chama de Sociedade do Curtir no livro “Sociedade Paliativa”. Trata-se de um mundo em que “tudo é alisado até que provoque o bem-estar (...) Nada deve provocar dor. Não apenas a arte, mas a própria vida tem de ser instagramável, ou seja, livre de ângulos e cantos, de conflitos e contradições que poderiam provocar dor”. Nem todo mundo compra essa, mas muita gente segue curtindo. Para não cair na tentadora alienação, alguns ainda vão enxergar o mundo através de uma lente de Otimismo Reprimido. Esse meio do caminho seria a tentativa de não se entregar à negatividade e nem à perda completa da noção. É um meio do caminho difícil porque mantém-se o sentimento de “alguém me tira daqui”. 

Não há saúde mental — e nem mesmo vida — sem a presença simultânea de positividade e negatividade. Seguir escolhendo uma ou outra é também seguir decodificando o mundo em duas únicas duas possibilidades, o que não deixa de ser uma importação europeia e colonizada. É uma visão de mundo que, como afirma a escritora Leda Martins, “apreende a percepção do mundo sob uma ótica da divisão e da partição, excludente. E quando pensamos nesses absolutos, vamos criando estruturas monolíticas e que nos estruturam e nos paralisam”. 


Pessimismo Propositivo


Se o novo século e a crise climática nos forçam a criar novos mundos, talvez possamos apostar no que a escritora e artista Jota Mombaça chama de Pessimismo Propositivo ou um Pessimismo Vivo. Essa estratégia passa por reconhecer as dificuldades, a dor e o sofrimento do presente, mas também mantendo esperança no futuro. Uma esperança que não espera e nem acredita na crença ilusória de que o bem vai se afirmar de forma automática. É fazer com que as dificuldades e desafios proporcionem aprendizados e não apenas esmaguem nosso espírito. É movença no lugar da descrença.

Em uma live, Mombaça vai ainda mais longe: “A ideia do Pessimismo Vivo e Propositivo é não ser um pessimismo a serviço da desistência — que cria um solo para a negação da vida — mas sim vivo, conectado com o propósito comum e coletivo de viver. Não no sentido individual e neoliberal de sobrevivência, mas viver no sentido de afirmação da existência transversal que se manifesta em muitas de nós.”

Se são poucas as certezas que temos, talvez a maior delas é a de que o tempo não cessará de chegar. E um mundo estranho pode ser o começo de um novo mundo. Mas tudo isso só pode começar com uma imaginação radical, uma insistência em formas realmente novas de viver. Quem sabe se a gente parar de negar a dor ou mesmo percorrer esse luto de concepções antigas de mundo, consigamos enfim sonhar e criar um novo amanhã. Um amanhã para além das gôndolas de sofrimento e normas brancas cis-hetero-patriarcais. Um futuro que começa no presente e nos livra da pulsão mortífera de retorno ao passado.

Quem sabe uma imaginação radical possa ser a semente de uma vida para além do medo. Afinal, como escreveu a Conceição Evaristo, “o sonho fecunda a vida e vinga a morte.”

Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.