MODA



Gabriela Campos ︎





Imagem: Jean Michel Blais 

O poder das mãos.


Máscaras faciais costuradas na máquina doméstica, uma chuva colorida de tie-dye caseiro no feed do instagram e muito pão, mas muito pão caseiro mesmo. Como essa relação pandemia x handmade pode afetar a moda?

Desde que fomos privados das atividades mais populares de lazer por conta do isolamento social, as maneiras que habitualmente acionávamos para superar o tédio foram resgatadas e/ou adaptadas de acordo com os recursos que temos ao nosso alcance, dentro de nossas casas. Outras ações, surgiram como saída para a crise financeira e social na tentativa de garantir a subsistência em tempos de recessão econômica mundial, tanto para CPFs quanto CNPJs. Mas para além dessas abordagens, que podem ser percebidas ao longo da história, as atividades manuais, de maneira geral, comprovadamente são capazes de amenizar a sensação de que tudo está saindo do nosso controle. E acho que, por si só, isso já justificaria o tanto de receitas de pão caseiro que temos visto por aí. Mas acho que esse comportamento rende um pouquinho mais.

Se o vestir hoje é sobre ficar confortável para o home office ou dar aquela saída de extrema necessidade, que é ir no mercado, subentende-se que o vestir não é mais a prioridade. Pelo menos, não mais como uma ação carregada de simbolismos de poder, o que pode ser constatado pela queda abrupta no ritmo de consumo mundial. A fabricação artesanal de máscaras faciais tá aí pra comprovar que além de serem recomendadas pela OMS como dispositivo de enfrentamento contra o novo Coronavírus, de promover algum tipo de renda emergencial e de ser também um ocupação terapêutica, elas também se tornaram, para alguns, artigo de luxo, vide os preços exorbitantes praticados por algumas marcas pelo mundo. Mas é realmente dessa face da moda que a gente precisa? Quando JW ANDERSON disponibilizou a padronagem do casaco usado por HARRY STYLES em fevereiro deste ano, foi para dar uma forcinha a quem tava tentando reproduzir o modelo de $2000,00 em num desafio do TIKTOK. Mas também foi uma tradução do sentimento coletivo de se estar tricotando o tempo todo, enquanto a cada dia que passa percebemos que  "o futuro não foi escrito" e que o mínimo de controle necessário que temos é sobre aquilo que podemos criar, com as próprias mãos. Uma outra abordagem que também faz com que a gente resgate ou aprenda novas habilidades é o TIE-DYE, mas de certa forma ele nos mostra um outro viés para leitura dessa chuva colorida diária nos nossos feeds: ele pode ser lido como uma tentativa de recolorir os dias cinzas e monótonos, pra quem realmente não ta saindo de casa [ou pelo menos não está acompanhando as notícias]. E a gente já pode correlacionar esse momento como o fim dos anos 60s e esperando um futuro da moda com cara de 70s? Provavelmente sim, porque a maior ascensão do tie-dye na moda foi justamente durante toda a tensão proporcionada pela GUERRA DO VIETNÃ + Movimentos pelos direitos civis no EUA + DITADURA MILITAR aqui no BR + Fim de um dos ciclos de descolonização na ÁSIA e na ÁFRICA e a gênese da luta armada/evolução do APARTHEID no continente AFRICANO. E qualquer situação parecida com o que estamos vivenciando agora não é só uma mera coincidência. Momentos de tensão.

Por outro lado, como eu já comentei no meu primeiro texto aqui pro MJ sobre a situação do sul da ÁSIA e do BRÁS em relação a indústria têxtil e a pandemia, um ponto importante a se pensar é que grande parte das técnicas manuais são oriundas e tradicionais entre povos originários do mundo todo. E aí é que tá: temos acompanhado o livre genocídio dos povos indígenas e quilombolas, aqui no BR, através da NECROPOLÍTICA absurda do governo BLIRONORO [para além dos imigrantes bolivianos]. A previsão pelo MIT é que a ÍNDIA seja o país mais atingido no mundo pela pandemia nos próximos meses: o país dos melhores artesãos do mundo e que foi a porta de entrada para as marcas de luxo contratarem mão de obra especializada com valores irrisórios. No continente africano, todos os países já tem casos registrados e atenção maior está entre a ÁFRICA DO SUL, GANA E NIGÉRIA. Oriente Médio? Same energy e o foco principal é o Iraque.

O caos está escancarando nossas vulnerabilidades e provocando que tenhamos novas abordagens sobre os mesmos problemas. A moda tem inúmeros papéis a serem explorados enquanto linguagem, movimento e expressão e, como disse a designer Anna Sui, a moda tem muito o que contar sobre as eras. E a gente se pergunta se é nessa era que se torna possível pensar em novas abordagens para o consumo de uma tendência a partir de perspectivas decoloniais de manutenção da cultura manual.

Possível é... mas quem é que realmente quer?





Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.