Sociedade


Jéssica Amorim ︎



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© Caroline Fayette/ DTS

Noção de tempo: como tá?


Imaginamos um pós-pandemia que, até agora, nunca veio. Onde está e como é o tempo pandêmico?


Quando tudo começou por aqui - vulgo a pandemia do coronavírus no Brasil -, lá em meados de março de 2020, o pensamento generalizado era de que depois de uma semana em quarentena, quiçá uma quinzena, todos estaríamos vivendo a vida do “pós-pandemia”. Quem aí já teve convicção de que esse momento logo viria? E quem também, mais de um ano depois, não só deixou de pensar nisso, como agora até duvida que isso seja possível?

Este presente pandêmico, que no início soava irresponsavelmente como uma catástrofe efêmera, se alastrou nos três tempos. Muitas vezes fica difícil lembrar da vida pré-pandemia e, após 4 milhões de mortes de coronavírus no mundo inteiro (e ainda contando), parece impossível considerar o planeta fora dessa realidade.

Tal contexto, de fato, oferece para a coletividade uma experiência de tempo alterada. Nossas vivências passadas durante esse período parecem virar, aos poucos, uma grande neblina. Anda se sentindo meio esquecidinhe? Você não está só. Em um artigo para publicado na BBC em julho deste ano, a autora Claudia Hammond reportou, com dados levantados pela Universidade de Westminster, que a memória das pessoas tem ficado prejudicada por ausência do que ela chama de “carimbo do tempo”, ou seja, eventos marcantes ou interessantes que demarcam o acontecimento de um evento e nos ajudam a formar a linha do tempo de nossas vidas.

Ao que parece, as experiências responsáveis por formar uma linha narrativa em nossas mentes gostam de uma vida assim… mais cheia de bossa, e, de preferência, lá fora: “É notável que a maioria das memórias diferenciadas, do tipo que vêm com o carimbo de tempo ou que tendemos a lembrar, envolvem eventos que ocorrem do lado de fora, o que pode se encaixar na hipótese de que quando estamos longe de casa, o hipocampo do nosso cérebro se torna mais ativo (...). Em contrapartida, se nossas vidas ficam mais confinadas, a atividade nessa parte do cérebro, que é tão crucial para a memória autobiográfica, provavelmente diminuirá,” conta Hammond.

O antropólogo do tempo Felix Ringel comenta, sob outra perspectiva, esse fenômeno. Segundo ele, durante uma crise, nos relacionamos com o tempo a partir de uma sensação de privação da nossa “agência temporal”. Sem os compromissos e eventos que organizavam nossas semanas e nos criavam expectativas, não podemos gerenciar ou manipular nossa própria prática do tempo. Sabe aquele pensamento de “hoje é que dia mesmo?”, pois é. É bem por aí.

Jane Guyer, outra antropóloga, chamou isso de “presentismo forçado”, termo para explicar esse estado de se sentir “preso no presente” ao mesmo tempo em que não há como planejar o futuro. Afinal, esse pós-pandemia que nunca veio foi intensificando esse desafio de imaginar um futuro que pareça diferente do presente.

Ainda citando Ringel, esta vivência fez com que criemos estratégias na tentativa de enganar o tempo, acelerando e desacelerando, dobrando e reestruturando, ou até mesmo chamando “os tempos do coronavírus” por vários nomes: “quarentena”, “tempo de home office”, etc. Porém, é importante dizer que grande parte dessa reflexão foi entregue ainda em maio de 2020, quando não tínhamos nem vacina para prospectar.

O que temos agora são cenários e discussões que até ganharam força e espaço com o começo da pandemia, como a crise climática e desigualdade social, mas que agora também voltaram a se embaraçar com vários negacionismos vigentes em pleno 2021. Mesmo com várias vacinas já entre nós, o caminhar de suas campanhas versus variantes que continuam surgindo misturadas com um governo incompetente e genocida dificulta mais e mais perspectivas otimistas do futuro. Por aqui, não só estamos vivendo um presentismo forçado, como também nos sentimos cada vez menos supridos de outras ideias de amanhã.

A pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, realizada pelo Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) lançou sua segunda edição em junho, e trouxe dados importantes sobre as juventudes brasileiras e suas impressões sobre futuro: para a maioria, aspectos como economia, governo, qualidade de vida, modo de trabalho, educação vão continuar iguais, e a maioria se sente ou mais pessimista ou neutro do que o último ano.

Segundo estudo liderado pelo acadêmico americano Philip Gable, a impressão temporal, mesmo em uma pandemia, não pode ser generalizada, por ter em sua percepção, uma grande parcela do estado emocional envolvido. Entretanto, no Brasil, temos evidências preocupantes sobre isso também.

Ainda na mesma pesquisa do Conjuve, foi possível perceber uma tendência a sentimentos negativos como marca da saúde mental dessa população: mais de um ano após o início da pandemia, 6 a cada 10 jovens relatam ansiedade e uso exagerado de redes sociais; 5 a cada 10 sentem exaustão ou cansaço constante; e 4 a cada 10 têm insônia ou tiveram distúrbios de peso. Já um em cada 10 admitiram que chegaram a ter pensamentos suicidas ou de automutilação.

Sim, que crise, né? E isso caminha para todos os âmbitos. Quando o presidente fala que “O Brasil está quebrado, não há o que fazer” e faz campanhas para desacreditar as instituições democráticas que agem por nós, isso também gera consequências negativas sem precedentes. A irresponsabilidade é o nome do negócio. Se quem deveria saber o que fazer, diz não fazer ideia de como agir, como poderíamos visualizar outras possibilidades? Óbvio que ninguém aqui vai deixar o sonho na mão de um genocida, mas o que queremos falar é do impacto que é brasileires deixando de sonhar.

O futuro não existe sem o recurso do imaginar, do fantasiar, para que a realidade nasça numa melhor perspectiva. Em plena edição comemorativa, o MJournal escolhe falar de SONHOS, porque a gente queria descobrir juntes onde eles estão escondidos, dentro dessa nova perspectiva de futuro, ou da falta dela. Afinal, a gente nasceu dentro desse contexto, provavelmente com um SONHO de já estar fora dele.


O que será que nos espera quando acordamos?





Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.