Tecnologia


Xavier Amorim ︎


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Metaverso: a era da verdadeira virtualidade





Depois dos blockchains, a fofoca tecnológica do momento é o tal do metaverso. E é melhor começar a ficar por dentro desses mundos, porque essas tecnologias não vão arredar pé.


Em outubro de 2021, Mark Zuckerberg fez o anúncio oficial de seu mais novo projeto ambicioso: Meta, a nova marca do Facebook. A proposta agora é tornar a empresa em um sistema ultra virtual conhecido como metaverso.

Para nos familiarizarmos com o conceito, convém saber que o termo apareceu pela primeira vez quase trinta anos antes deste anúncio, em 1992, na obra de ficção científica “Nevasca”, de Neal Stephenson. No livro, o nome “metaverso” era usado para descrever um lugar onde as pessoas iam para escapar de uma realidade distópica. (Sensação familiar, talvez?)

Acontece que assim como o termo não é invenção do criador do Facebook, a experiência proposta também não é. Durante esta década, que une de forma cronológica a criação do nome com a divulgação da marca Meta, é preciso destacar que muitos outros projetos e tecnologias em torno da revolução tecnológica chamada metaverso, também conhecida como internet 3.0, já têm lugar no mundo.

Só para acompanhar, esse “futuro completamente virtual” tem suas primeiras experimentações ainda nos anos 2000, com o jogo de simulação “Second Life”, lançado pela Linden Lab, que apresentou pioneirismo de simulação da vida em realidade virtual. Depois, em 2015, o projeto Decentraland começou a ser desenvolvido, com objetivo de ser uma plataforma de mundo virtual aberto que funciona atrelado a criptomoedas.

Além disso, no começo da pandemia, em abril de 2020, o jogo Fortnite apresentou um show virtual do rapper Travis Scott para mais de 14 milhões de fãs. E foi aproveitando esse sucesso que, em agosto de 2021, a Epic Games, empresa criadora do jogo, repetiu a dose e ofereceu a primeira experiência razoavelmente interativa com uma apresentação musical da cantora Ariana Grande, ação que demonstrou o quanto o seu CEO, Tim Sweeney, é um entusiasta do metaverso. Fora esses pontos históricos, temos também Microsoft, Unity, Amazon e Nvidia como alguns outros exemplos de “gigantes” que estão investindo pesado nessa “próxima internet”.


Mas afinal, o que é metaverso?


O metaverso seriam diferentes mundos virtuais que tentam replicar a realidade através de dispositivos digitais, e que engloba diversas tecnologias: realidade aumentada, realidade virtual, realidade mista (não, não são a mesma coisa, confere aqui), blockchains, NFTs, 5G, 6G, entre outras. Nesse ambiente, os usuários poderiam experienciar trabalho, cotidiano e entretenimento através de avatares. Sim, uma espécie de internet 3D, onde tudo acontece de modo imersivo.

Já sobre como e quando essa projeção vai acontecer, é difícil precisar. Marcos Silva, co-fundador do estúdio de afrogames Sue The Real, afirma que o metaverso vai chegar, mas que “ainda não temos infraestrutura no mundo para que tudo seja virtualizado, ou que a gente brinque com essa mistura de realidade e virtualidade. Ainda não é um projeto executável, mas o Mark anunciando a Meta faz com que especulações sejam criadas e empresas se movimentem para acompanhar.”

Quem concorda com essa opinião também é Ottis, artista, meta arquiteto e criador da galeria virtual de arte Purple Valley e entusiasta do conceito: “Sendo bem sincero, agora o metaverso não existe. É um conceito futurista. Para mim, acontecerá quando a gente conseguir juntar a nossa vida física com a nossa vida digital. Vai ser quando a gente estiver que nem na internet. Hoje eu abro o meu browser, o meu Google Chrome, e eu posso ir no YouTube, eu posso ir no Instagram, eu posso ir no Facebook. Então, acho que o metaverso vai ser quando a gente tiver essa camada. Com esse ‘browser’ que posso ir no Decentraland, no Sandbox, no Cryptovoxels, no Facebook Horizon, no VRChat... Então, pra mim, o metaverso vai ser isso, quando a gente tiver tudo conectado entre esses mundos virtuais.”

Se estranhou os nomes apresentados pelo Ottis, não se acanhe. A quantidade de coisas que o metaverso abrange é tão extensa que não daria num só texto, mas a gente vai tentar destrinchar o que dá. Assim como Decentraland, Cryptovoxels, The Sandbox, Facebook Horizon e VRChat são alguns exemplos de projetos de plataformas e/ou games que seriam como protótipos de metaverso ou citando o próprio Ottis, “protometaversos”.


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Entre entusiasmos e ressalvas



Na Carta do Fundador 2021, que Zuckerberg escreveu para contar mais sobre a Meta, ele diz que “... a marca está tão conectada a um produto que não pode mais representar o que fazemos hoje, muito menos no futuro. Com o tempo, espero que sejamos vistos como uma empresa de metaverso, e quero ancorar nossa identidade e nosso trabalho no que estamos construindo.”

E aí começamos a enxergar os possíveis perigos dessa narrativa. Se o criador da famosa rede social não é nenhum pioneiro dessas navegações (a história sempre se repete, né?), porque ele já foi apresentando o conceito como se pertencesse à sua empresa? Quase como se ela fosse se tornar única?

É preciso pontuar que o polêmico Zuckerberg fez todo seu marketing em torno da nova marca depois de meses com o Facebook sendo alvo de uma série de denúncias. Uma delas foi feita pela ex-funcionária e engenheira de dados Frances Haugen, que fala da “falência moral” da empresa, e a acusa de valorizar lucro em detrimento da segurança de crianças e adolescentes. Segundo a ativista, o Facebook negligenciou deliberadamente estudos que mostram o impacto negativo das redes. A equipe de Haugen, que trabalhava para conter a disseminação de informações falsas, foi dissolvida logo após as eleições presidenciais americanas, em novembro de 2020. Dois meses depois, grupos extremistas usaram a rede para articular um ataque ao Capitólio.

Inclusive, após o anúncio de Meta, um dos primeiros investidores do Facebook e mentor de Zuckerberg, Roger McNamee, em entrevista à BBC, se colocou: "É uma má ideia e o fato de estarmos todos sentados e olhando para isso como se fosse normal deveria alarmar a todos". Ele afirma que o metaverso não estaria seguro nas mãos do presidente-executivo atual, e vai mais longe ao afirmar que "...o Facebook deveria ter perdido o direito de fazer suas próprias escolhas. Um regulador deveria estar presente dando pré-aprovação para tudo o que eles fazem. A quantidade de dano que eles causaram é incalculável."

E não é só McNamee que vê com maus olhos esse movimento. O fluminense Leonardo Souza, filmmaker e criador de realidade virtual e do projeto Rabiola Tales, também se considera entusiasta do metaverso, mas tem suas ressalvas: “a ideia e o conceito são incríveis. Acho que é um caminho possível, talvez inevitável. O problema é que a última pessoa que a gente queria que tivesse criando um universo onde boa parte da nossa socialização, dinheiro e informação esteja sendo trocada, é o Mark Zuckerberg no momento.”

Leonardo complementa que seria possível visualizar de forma mais otimista e responsável se os metaversos fossem plataformas de open source, ou seja, de código aberto: “pra justamente não ter essa coisa do tipo ‘a gente tem um algoritmo que roda ali dentro, que é patenteado, então a gente nunca vai poder revelar’. A partir do momento que é código aberto, qualquer um pode pegar, pode criar a sua versão do metaverso, qualquer um poderia elaborar e melhorar e aí você teria versões mais seguras.”

Para Ottis, esse também é um importante ponto de atenção: “como vai acontecer a governança lá dentro [da Meta]? Essa é a maior discussão entre o mundo virtual do Facebook e o mundo virtual desses projetos independentes. Por exemplo, o Decentraland, eles expõem bastante do código deles. Eles têm um DAO: Decentralized Autonomous Organization, que é uma organização autônoma descentralizada, na qual a própria comunidade pode ditar certas votações dentro daquele mundo.”

A questão é que a exemplos do modelo de negócios que o Facebook utilizou até aqui, não parece que a tal gigante da tecnologia esteja querendo se rever enquanto estrutura centralizadora. Segundo Ottis, uma das mudanças mais significativas da web 2.0 para web 3.0 é que nesta nova era, teremos mais autonomia e conhecimento sobre o que acontece com os nossos dados: “o mundo virtual do Facebook, quem vai controlar? Vai ser que nem a web 2.0 é? Eles vão vender os nossos dados? Ou então vai ser que nem a web 3.0 sugere, que são projetos descentralizados, onde a comunidade vota lá dentro e ela tem poder de decidir certas coisas?”

Marcos também endossa esses pontos, mas acrescenta a importância de regulamentações que considerem diferentes culturas e visões de mundo: “a regulamentação por si só já é complicada porque a compreensão de humanidade ou do entendimento das leis atravessa a cultura. Então uma regulamentação pode funcionar muito bem num contexto e não em outros. É ruim ver que, por exemplo, empresas grandes com seus regimentos que geralmente vem desse eixo Estados Unidos, Europa e tudo mais, regem contextos particulares de outros países que têm outras culturas, né? Então, é nítido dizer que sem dúvida o metaverso de um Facebook já vem enviesado.”

E as próprias empresas que experimentam aplicar processos descentralizados desta revolução tecnológica apontam essas problemáticas. O interesse dos entusiastas de empresas menores e independentes é que a organização da web mude radicalmente, retirando esse poder das grandes corporações de tecnologia. Porém, assim como o antigo Facebook, o Google e a Microsoft, por exemplo, estão correndo também para participar dos metaversos, mas não parecem muito a fim de aplicar a parte da descentralização.

Entre tantas preocupações já postas, e outras que ainda iremos conhecer na medida que formos nos aproximando mais dessa tecnologia, Ottis faz um apelo para visualizarmos também os benefícios que podemos acessar com a nova fase da internet: “tudo que tá nessa gama de conceitos vão dar ferramentas inimagináveis pra gente. Imagina, eu aqui na minha casa, visto óculos de realidade virtual, e estou na Universidade de Stanford, tendo aula com um professor de matemática brilhante.” Ele cita o exemplo do celular, que trouxe agravantes para quem sofre com quadros de depressão e ansiedade, mas também avanços sociais: "A gente tem que olhar a tecnologia [metaverso] com o que ela vai trazer de bom, que são inúmeras ferramentas, possibilidades de você emergir no mundo virtual, de você ter relações lá dentro e você ter aprendizados, usar isso pro aprendizado.”


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Hackeando as possibilidades através de metaversos e NFTs



Se você chegou até aqui e está com dificuldades de visualizar perspectivas positivas de tudo isso, não se sinta sozinhe. Caso tenha assistido Black Mirror, então, talvez tenha até lembrado dos episódios “Quinze milhões de méritos” ou “Striking Vipers”. No primeiro, os personagens são expostos excessivamente à telas e programas intragáveis que eles assistem com seus avatares digitais. No segundo, uma dupla de amigos tem a chance de viver, em uma realidade virtual, experiências que em nada se assemelham a suas vidas reais.

Tenho que confessar que eu mesma resolvi escrever essa matéria por sentir mais temor de tudo isso do que empolgação. Entretanto, acho importante pensarmos que, se de fato esta será nossa nova realidade, se faz necessário visualizarmos e criarmos alternativas e possibilidades de bons futuros e propósitos dentro dela. E foi por isso que também troquei ideia com o Gean Guilherme Santos Lopes, artista digital, estudante de Design de Produto na PUC-Rio e criador de projetos de impacto como o Social Crypto Art e On Santo Amaro.

Morador da comunidade Santo Amaro, no Rio de Janeiro, Gean, que se diz aficionado por tecnologia e futuro, afirma que ao entrar em contato com NFTs e metaversos, entendeu na hora que essa era uma oportunidade: “Eu queria construir o espaço de metaverso da favela. Isso foi o que eu sempre quis fazer, marcar a favela nesse mapa. No mapa digital.”

Rapidinho, antes de continuarmos, temos que falar das NFTs. Sim, mais um conceito. Mas sem alongar, na tradução, NFT significa “token não fungível''. Na prática, funciona como um certificado digital exclusivo, e tem como objetivo final indicar posse. A NFT demonstra que algo é seu, basicamente. E essa posse tem um valor, atrelado a criptomoedas, que, com auxílio de blockchains, confirma a sua posse em um só lugar, dificultando golpes.

Bom, foi isso que o Gean compreendeu quando viu o extenso gráfico de tipos de criptomoedas e seus diferentes valores: “basicamente o que eu estou fazendo é, ao invés de estar me inscrevendo em editais, eu estou captando recursos com criptomoedas. Então tipo, a grana está ali, sabe? Existe a possibilidade. Eu acho que depende de nós criarmos essas possibilidades. Então tipo, não existe um único metaverso, existem várias realidades, vários mundos, vários propósitos… E que permitem a gente criar o que a gente conseguir imaginar e o que nossos braços alcançarem. Pô, isso é bem maneiro. Tipo, é uma parada que tá movimentando, tá acontecendo e tá mudando a vida de muita gente, muitos artistas, muitos colecionadores e muitos projetos. Tá sendo bem maneiro mesmo.”

O Leonardo Souza, que está em fase de produção do Rabiola Tales, um projeto 3D e de realidade virtual com uma narrativa que envolva pipas nas comunidades do Rio de Janeiro, concorda: “tem uma geração de artistas que tá conseguindo não é ficar rico, não, mas tirar uma graninha com seu trampo, sabe? Porque não precisa de um agente, não precisa de uma galeria, ou um intermediário. Muitas vezes você tá na baixada, e não tem um lugar pra expor com essa facilidade e aí, às vezes, o NFT e o metaverso podem super ajudar. E por exemplo o Rabiola, né? Tem essa coisa de você entrar numa loja de pipa e tem várias pipas. Eu tô vendo várias várias pessoas da realidade virtual que tá pegando os elementos de cena e vendendo como NFT. Então, ajuda a capitalizar os projetos.”

Além disso, ambos buscam desenvolver projetos de formação de outros jovens nesses conceitos tecnológicos e dispositivos digitais, para que também possam ter outras possibilidades de escolhas. Para Gean, a ideia é “criar salas de formações, e a gente conseguir carregar todos esses conceitos e aprendizagens, sabe? Todas essas tendências de profissões pro futuro, pra criar e pensar novas possibilidades além do tráfico. (...) Então, se for pra essas tecnologias ficarem na mão de alguém, que seja nas nossas mãos".

Sim, essas possibilidades de construção de mundo e oportunidades são inúmeras, e a real é que ainda há ainda muitas problemáticas e malefícios que podemos fazer em um “Metaverso e NFTs PT2”, mas talvez nos inspirarmos pelas esperanças e usos benéficos seja o melhor agora. Como disse Marcos no fim da nossa conversa: “por mais que de novo a gente dance uma dança que não é nossa, a gente vem resistindo, sabe? Parte imutável da nossa compreensão humana ou de um coletivo, ele sempre surge. Nenhum sistema conseguiu cooptar a gente o suficiente pra gente não olhar pra isso. Não, tem muita gente consciente. Basta olhar as próximas gerações, elas estão com mais fogo nos olhos, sabe? É nisso que me apego: por mais que seja algo posto, a gente pode mudar de algum jeito.”


Trilha audiodescrição: Evoker, por Defrini.


Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.