Especial


Ana Carolina Rodarte ︎
Gabriela Campos ︎
Xavier Amorim ︎









Imagem:   

© Daniel Faro e Carina Dewhurst / DTS

Lista de resoluções pro baile ficar 10/10




 


Questões pra não perder de vista pra fazer “a vida ser melhor pra geral”.

No momento em que redigimos esta carta, Gabriel Boric, líder da Frente Ampla e ex-líder estudantil, vence as eleições presidenciais do Chile e derrota o candidato de extrema direita José Antonio Kast. Aos 35 anos, ele se tornará o presidente mais jovem da história do país, consolidando um processo de revolta social popular que se iniciou em 2019. Ter, na América Latina, um exemplo de derrocada do autoritarismo como o que ocorreu na República Tcheca nos põe num estado misto de esperança e cautela; a literatura latina é hábil em nos mostrar que o território onde criaturas exuberantes criam lendas e mulheres flutuam de paixão é o mesmo que fuzila emancipações populares e atormenta seu povo com uma crise de insônia.

Se o horizonte dos movimentos e setores progressistas envolve necessariamente a formação de uma frente ampla — capaz de incluir até mesmo o eleitorado evangélico — para a derrota do autoritarismo, ele também reserva uma série de desafios para países que ainda não lançaram um olhar crítico para seu próprio passado.  No Brasil, é difícil falar em união sem que reconheçamos as heranças do colonialismo, evidentes na ausência de políticas de saúde pública para os indígenas e pessoas com deficiência, na perseguição à população trans, no aumento da devastação de florestas e no fato de homens brancos da camada mais rica da população terem mais renda que todas as mulheres negras do país. O novo progressismo precisa incorporar novos termos ao seu léxico e alcançar os territórios que subjugou por conveniência.

Em meio a tantos desafios, a lista de resoluções de Ano Novo para nós, que queremos a mudança, ganha itens mais ambiciosos. O território da macropolítica parece um tanto distante e inalcançável, verdade, mas na micropolítica a gente faz um baile pra todo mundo sonhar. De Kenner, Nike ou Lacoste, o importante é esperançar, ainda que nas brechas. Pra ajudar você nessa, a gente montou por cá uma lista marota de resoluções para quem quer botar o velho mundo em chamas. Só não esquece a guitarrinha!

>> Entender que a proteção do meio ambiente também depende das coisas que fazem da gente o que a gente é. Mudanças em hábitos de consumo e alimentares são importantes pra gente entrar em sintonia com as demandas do planeta, mas veganismo sem consciência de classe e raça é um mote e tanto pra supremacia branca consumista.

>> Pluralizar afetos. Quantas pessoas negras, indígenas, trans ou com deficiência você tem no seu ciclo de amizades? Quantas falam sobre os assuntos que você curte e estuda?

>> Compreender que o amor ao outro precisa ir além do discurso; requer esforço, deslocamento e investimento. ”Começar por sempre pensar no amor como uma ação em vez de um sentimento é uma forma de fazer com que qualquer um que use a palavra dessa maneira assuma responsabilidade e comprometimento.” (bell hooks em ‘Tudo Sobre o Amor’)

>> Recuperar o tempo que é do carinho; toda pressa é inimiga do cuidado.

>> Aprimorar diálogos. Se a solidão se consolida como um projeto do neoliberalismo cisheteronormativo, é no coletivo que fazemos a projeção de alternativas melhores. Isso envolve, muitas vezes, lidar com repertórios diferentes e entender que (pasme) nem tudo é sobre você.

>> Comprometer-se com o combate à desinformação, mesmo entre a sua bolha.

>> Acrescente a isso, então, um fiel envolvimento em abdicar de discursos e ações negacionistas.

>> Fazer da singularidade um modo de criar a vida que a gente quer. Uma comunidade plural é menos sobre certezas, e mais sobre o que desejamos juntos.

>> Dedicar-se ao que te enche de entusiasmo — e lembre-se que isso nem sempre envolve o seu trabalho, como nos lembra Toni Morrison. Nosso futuro depende de uma quantidade incalculável de gente com brilho no olho e ideias em chamas.

>> Fazer da rua um lugar de música boa, cerveja gelada e confete. De novo.

>> Relembrar as particularidades de ser feliz para além das possibilidades de resistir. Existir é o que há.




Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.