Ana Carolina Rodarte ︎
revisão de Igi Lola Ayedun ︎




Imagem:   

© Daniel Faro / DTS

Letargia Erótica: Qual sexo vende?




 


Quantas nudes você já fez hoje? A gente sabe que tá foda: com um repertório audiovisual pra lá de pornificado, sabemos muito bem como tocar uma conversinha fiada. Mas, fora do quadro da webcam, as experiências sexuais andam assim… em suspensão.


Dados de uma pesquisa divulgada pela Universidade de Florença em 2021 apontaram que a insatisfação sexual entre os entrevistados passou de 7,4% antes da pandemia a 53,3% durante os meses de distanciamento. O mesmo estudo mostrou, contudo, que a vontade de uma boa sentada aumentou em 40%. Ou seja, os desejos continuam ali, mas eles sublimam sem se realizar, seja pela monotonia imposta pelo confinamento, pelo excesso de aflições dos nossos tempos — os germes! a acne! as novas variantes! a crise econômica! líderes incompetentes! celebridades antivaxx! o colapso climático! e pelo amor, mais um álbum do Ed Sh**ran? —, pela exaustão das jornadas de trabalho neoliberais ou pelo excesso de estímulos. O erotismo vai, aos poucos, tornando-se uma emancipação mental.

Isso não implica, necessariamente, uma ausência do prazer, como nos mostra o crescimento na venda de vibradores e lubrificantes. É que muita gente, simplesmente, tem feito um movimento mais introspectivo para entender os próprios limites. Vale considerar que esse recolhimento sexual ocorre em um mundo que está reeducando olhares. Por obra de gente como Céline Sciamma (“Retrato de uma Jovem em Chamas”) e Michaela Coel (“I May Destroy You”), as representações imagéticas de vivências sexuais têm ultrapassado o recorte imposto pelo olhar masculino cisheteronormativo; no lugar, elas propõem a diversidade de desejos e o consentimento como bandeira — uma herança do #MeToo. A hiperssexualização de corpos e corpas dissidentes vem passando por um debate democratizado. Por isso, as coleções pós-pandêmicas vieram em tom de readequação de discursos, ora pelo deboche, ora pela subversão das expectativas do velho mundo. São microshorts masculinos, fendas e croppeds para todos os gêneros, seios e tórax à revelia e ternos estruturados que tiram sarro das cocaine chic que prometiam conquistar os centros financeiros nos anos 80 e 90.

Mas, se a euforia sexual vai ficando mais e mais a encargo da mente e das imagens que consumimos nas redes, ela vai assumindo também a dualidade típica de um mundo polarizado, que faz da anulação do outro um movimento de emancipação do indivíduo. Medos e desejos entram em atrito numa ótica dual, quase sempre moralizante, como posto pela psicanalista Maria Homem. Ao relevarmos as nuances da natureza humana, vamos entrando na lógica dos discursos de ódio que nos afastam do encontro.

E enquanto todo mundo vai explorando o próprio fogo no rabo em território seguro (a sós, diante da câmera do celular, sob a acolhedora luz de uma LED roxa) com um vastíssimo repertório de safadezas, os criadores desse repertório vão sendo punidos na contínua higienização promovida pelos algoritmos. Pouco se fala sobre as strippers que criaram o pole dance contemporâneo — hoje, fonte de empoderamento corporal das feministas mais desconstruidonas. Por causa de obstáculos impostos por sistemas de pagamento — que não querem se envolver em escândalos sexuais como os protagonizados pelo Pornhub —, trabalhadores do sexo vem sendo banides de plataformas como o OnlyFans. As fotos dessas pessoas, aliás, são continuamente punidas pelas políticas de imagem das redes sociais, que não mostram o mesmo moralismo quando as imagens são protagonizadas por modelos magras e sem deficiências aparentes em anúncios de campanhas milionárias. Não é de se estranhar, portanto, que harness (ou cintos e suspensórios que cumprem esse papel), pleasers, cintas-ligas e luvas de couro potencializem looks sem fazer referências diretas às suas origens. Vem tudo assim, no máximo, com um brilhinho divertido. Importante é manter o astral lá nas alturas, né?

A profilaxia para prevenir-se do outro, impulsionada pela sisuda orquestra dos algoritmos privilegia ainda ideais de beleza atrelados ao consumo. Belos não são os olhos de seu pai, a boca de sua mãe ou qualquer outra baboseira que um poeta romântico venha sussurrar em seus ouvidos; são os olhos, a boca, os cílios e a cintura que você pode comprar (por meio de micro intervenções, maquiagem, skincare e tratamentos de comprovação científica duvidosa) e traduzir em imagem. A volta da estética Y2K tem lá seus motivos: a popstar coberta de strass e borboletas extravagantes é tão desejável quanto impossível de alcançar.

Da kardashianização de padrões à plena aceitação dos filtros que mediam nossos olhares sobre nós mesmos, o Yassify bot andou passando o rodo. Performamos diante de um falso espelho. As formas vazadas, as fendas, cavas e cinturas baixíssimas que vemos hoje podem até expressar a nossa fome de pele, mas elas dizem cada vez menos sobre uma sexualidade de trocas. Estão mais para uma idealização de quem se fecha numa performance de si.

Como pontuado por Daniel Rodgers, da Dazed, quando todas as representações de sexualidade caem na pasteurização imposta pelos algoritmos, é preciso resgatar a subversão — ou, no mínimo, o que nos intriga o olhar. A sexualidade não é limpa e homogênea, como tantas imagens repetitivas fazem parecer ser: não se trata de ter a boca x, os seios y, as pernas beta yada yada. Ela é um tanto esquisitona; precisa apelar para o nosso desejo de preencher. E se é hora de recriar o léxico da sedução no guarda-roupa, alguns designers já toparam o desafio, vide a ressignificação de formas retas e do uso de ornamentos pouco convencionais que ganharam as passarelas.

Vale lembrar, contudo, de algumas brechas nesse cenário que requerem a nossa atenção na leitura dos símbolos que têm ganhado o guarda-roupa. A hostilidade dos nossos tempos, somada à solidão sentida nos últimos meses e as expectativas de estabilidade trazidas pela geração Z, vêm fazendo com que mais pessoas busquem por sexo associado à companhia. Em meio ao fim do mundo, quantas vezes precisaremos voltar ao isolamento imposto por nossas casas nos próximos meses e anos?

Menos pautado por falsos moralismos e mais pela busca de algum aconchego, esse erotismo confortável vai também se entregando às minúcias do cotidiano, fazendo as pazes com nossas vontades mais genuínas e se associando ao olhar cheio de detalhes que só a intimidade traz.


*Esse texto é um dos capítulos do e-book "O guarda-roupa se transforma num colapso" publicado em dezembro/2021. Para fazer o download do material completo acesse aqui.


Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.