L’HOMME STATUE

Loic Koutana por
Fotografia: Gleeson Paulino
Styling: Marcell Maia
Beleza: Mika Safro
Produção: Raphael Lobato Mirror.age
Assistente de fotografia: Theo Casadei
Tratamento de imagem: Nicolas Leite
Produção de moda: Carolina Albuquerque
Assistente de styling: Pepa
Assistente de beleza: Natalia Almeida

Loic Koutana veste Clara Watanabe y Leandro Castro




L'homme statue se esculpe

por Mirrorage
























Loïc Koutana — a.k.a. L’Homme Statue — decidiu percorrer o mundo como modelo, performer, e, nos últimos anos, músico. O trabalho do franco-africano, que hoje se aventura pelo Brasil, reúne os sotaques que Loïc apreendeu em suas passagens pela França, Bénin, Costa do Marfim, Congo e São Paulo, e passeia pelo trip hop, hip hop, pelo jazz que ouviu desde pequeno, pela música popular brasileira e pela cena eletrônica que o fortaleceu na cena paulista.
Com participação em festivais e projetos como o Mamba Negra, Teto Preto e ODD, o homem estátua evoca ancestralidade e força por onde passa, sem jamais perder o sorriso leve que lhe foi entalhado. Logo, logo, ele lançará “Ser”, seu primeiro álbum de estúdio. Pra sorte do MJ, ele topou vir para nossa galeria e contar um pouco das histórias que anda escrevendo por aí. Saca só.




Loic veste JOÃO PIMENTA




Macacão JOÃO PIMENTA


Loic veste LEANDRO CASTRO






Loic veste CLARA WATANABE

Mirrorage: Por que L'homme? O que é l'homme statue?



Loic Koutana: Na real, o l'homme statue surgiu quando eu estava no Brasil. Me lembro que eu estava numa campanha de modelo e tinha de reproduzir uma foto de Kerry James Marshall. Eu não tinha nenhum pelo e tinha acabado de raspar minha sobrancelha. Então alguém da equipe passou e falou: “Nossa, parece uma estátua!”. Quando voltei para casa de noite, essa frase me fez sorrir.

Eu cresci entre a França, Costa do Marfim, Congo e Benim, e sempre me lembro de ter essa fascinação pelas estátuas. Na África, a gente tem essas estátuas que a gente chama de le penseur (os pensadores); são homens, mulheres e crianças que estão sempre pensando, com poses bem drásticas, bem marcadas. Eu queria parecer essas estátuas africanas que eram tudo pra mim.

E porque o “l'homme” na frente? Por que “homem estátua”? Eu nunca me reconheci na TV, na arte, na moda ou nessa figura da masculinidade. Eu sempre pensei: “Vou criar minha própria visão do que é pra mim um homem, o que é pra mim um homem estátua.”

Ma: Onde estava quando escreveu as primeiras músicas do l’homme statue?


Lo: Sempre, sempre escrevi músicas, porém não estava ligado que estava escrevendo músicas. Durante a minha infância, indo à escola ou à universidade na França, eu gostava de olhar as pessoas no metrô e meio que imaginar qual seria a vida delas, o que tava se passando na cabeça delas, então sempre escrevi muitos textos sobre isso.

Faço parte de uma família bastante ligada à música, então sempre tive essa noção de como escrever canções, porém nunca me achava legítimo. Quando eu cheguei ao Brasil e comecei a criar esse álbum com o Zopelar [Pedro Zopelar é multi-instrumentista e produtor musical conhecido por causar burburinhos na cena eletrônica], ele me falou: “Bom, vamos começar a pensar numas letras.” Daí peguei meu celular e me dei conta que eu tinha um monte de textos, que eram esses textos da infância, textos que na real são muito potentes porque guardam esse estilo de me expressar de cada etapa da minha vida.

As músicas do meu primeiro álbum, o “Ser”, que está finalizado e será lançado em breve, eu escrevi na Chapada da Diamantina, num período no qual eu estava me sentindo overwhelmed, um pouco assim cabeça cheia de coisas. Me lembro que quando cheguei lá, sentei numa pedra e, depois de chorar um tanto assim, eu me senti bem vazio. Daí começaram a aparecer umas notas na cabeça. A gente ficou lá umas três semanas, e em todo esse período eu escrevi músicas ou melhorei esses textos e poemas que eu tinha antigamente.

Ma: E sobre o que é o seu primeiro álbum?


Lo: O álbum se chama “Ser”, em francês “être”. Então eu tenho até essa tatuagem na mão pra me lembrar que, no meu caminho na terra, eu tenho que ser: ser sincero, ser eu, ser tipo a inadequação e o alinhamento comigo. Eu acho que a gente passa tanto tempo tentando provar pras pessoas que a gente é, tentando provar nosso valor, que a gente esquece simplesmente de ser, porque ser significa também o bom e o ruim, o legal e o menos legal, o sensível, o forte, o fraco, sabe?

Esse álbum também fala sobre minha vivência como um jovem artista, preto e franco-africano no Brasil, sabe? Falo muito também de amor, muito, muito. Eu fiquei até surpreso depois de me dar conta do tanto. Eu adoro falar de amor livre, de ciúmes, de medo de perder, de empoderamento, de se impor numa indústria que não tá sempre pronta pra nos receber (nós pretos), e também essa coisa de sempre ter que provar, sabe? Eu também quero pegar minha cadeira nessa indústria grande, sentar e ocupar esse espaço.




Loic veste LEANDRO CASTRO


Loic veste LEANDRO CASTRO


Ma: Há quanto tempo está preparando o “Ser”?


Lo: Eu estou preparando esse álbum desde novembro de 2018. Ele vai ter 13 ou 14 tracks. Cada música tem um universo totalmente diferente; não tem essa coisa de um álbum puramente rap, um álbum puramente R&B, um álbum puramente rock. Sou franco-africano no Brasil, isso por si só já carrega culturas diferentes, umas raridades, não podia deixar de colocar isso no álbum. Então acho que foi uma escolha mesmo, de dentro da carreira do l’homme statue, falar bastantes línguas e também falar de um jeito livre o português do jeito que eu falo, com meus erros e com minhas expressões, e o francês com a minha vivência. Então o álbum tem muitas musicalidades e também muitas línguas que vão se cruzando.
As inspirações são mais R&B, rap, mas tem também funk e rock. Meus artistas que eu admiro mais são Frank Ocean, SZA, Chloe x Halle, Solange, King Krule, Mount Kimbie, Milton Nascimento, Luedji Luna e Pabllo Vittar. Sei lá, tem tantos artistas que eu admiro,que me inspiram no meu dia a dia que eu acho que eu queria colocar um pouco de tudo isso no álbum.

Ma: Se fosse um avatar ou um ser mágico, qual seria?


Lo: Então pra ser sincero eu pensei nessa pergunta hoje sem nem ter lido, porque hoje eu estava vendo no celular justamente os desenhos animados que eu gostava de assistir quando eu era mais jovem. E eu adorava assistir “Avatar - O Último Mestre do Ar”. Esse é um desenho animado que eu posso assistir, tipo, toda minha vida porque ele carrega muito. Às vezes eu acho que nos desenhos animados tem muita sabedoria; eles conseguem responder umas perguntas que a gente faz todo um bololô hoje em dia pra responder, de um jeito mais prático e didático.
O que que eu amo no “Último Mestre do Ar” é que ele é um jovem que consegue ter o controle dos elementos: ar, água, fogo e terra. Eu queria ter esses poderes, porque esses quatro elementos se complementam entre si. E o que eu adoro no Avatar é que ele é uma criança, um menininho, porém ele tem muitas coisas da vida para enfrentar. Quando ele tem que ser corajoso, ele consegue se transformar na melhor versão dele mesmo; os olhos dele mudam, a postura dele muda, daí ele tem que encarar a coisa.

Ma: Recadinhos finais?


Lo: O projeto l’homme statue é um projeto que para mim é muito visual. O mundo da imagem sempre foi presente e importante pra mim. A gente gosta de chamar designers e criadores de todo o Brasil. Pra mim é muito importante também levantar e levar a cena pra mais pessoas crescerem.
Também quero agradecer à minha equipe. Eu penso lá no Doug Bernardt, que fez o clipe “Braços/Vela”; tem o Fred Ouro Preto, tem o Pedro Pejada, o Zopelar, a Sofia Nerim, a Stink… Então eu acho que é isso. Sintam a imagem do l’homme statue que eu tenho na cabeça!



MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.