Ensaio

Nathalia Grilo





Imaginação Radical Negra: Um Manifesto Desassossego



“Viver é como espantar-se numa floresta…” (Tiganá Santana)


O que agora se tencionará é um exercício de investigação das existências escuras, no qual a taciturnidade é exaltada a partir da constatação das imaginações que vêm sendo projetadas ao longo de nossas histórias. Essa prática exige de nós o ato incomum de rememorar futuros passados, com o intuito de reconstruir outros mundos possíveis a partir de uma iminente ruptura pós-apocalíptica:

  • Nesse contexto, a imaginação negra busca uma caudalosa geração de percepções dissidentes em oposição à visão hegemônica que exila corpos melanizados deste mundo. Ela nasce a partir de um estado de maravilhamento que nos diz a todo instante: a resposta negra é incessantemente inventiva, coletiva e sensível. Tal estado conduz à potência de uma jornada que se atualiza sempre que sentimos necessidade de ir além do que nos é imposto pela vida - eis o sonho de futuro.

  • As primeiras projeções do porvir tiveram suas origens nas mentes herdeiras dos sonhos fantásticos de Dinknesh — a maravilhosa — e de toda sua linhagem, a quem chamamos “ancestrais”. Assim veio à luz o impossível, o princípio da humanidade e a povoação de todas as bandas da Terra com um propósito comum: existir dignamente em conjunto com todas as esferas da natureza.

  • A imaginação negra é milenar e atua ao longo dos séculos como um ímã, um campo magnético que reorganiza os mundos a partir da busca pela alumiação: ato de desentranhar beleza das coisas por meio de experiências impregnadas de algo maravilhoso que, de repente, toca e encanta, exigindo de nós uma apreciação pela vida por meio dos sentidos da alma, da pele, do tato, dos cheiros, dos gostos e dos sons. Tais experiências foram germinadas por mais de um milhão de conexões ancestrais que criaram ao longo de nossas histórias uma subversiva fuga da inércia.

  • A imaginação negra é também um convite audacioso de mergulho profundo nas cosmopercepções da vida, alcançando a verve como o espírito da inspiração que anima a criação. Trata-se de uma energia de futuridade preenchida pela gênese da alma que estabelece um contraponto eminente à árida cosmovisão branca, fluindo diretamente contra a projeção única de mundo — onde a criatividade jaz cadavérica. Daí vem a confluência das coisas como os cruzos possíveis para o amanhã... Essa imersão nos sentidos em busca da construção de novas armas poéticas e da emancipação da inspiração através da alforria criativa. Eis o cerne da imaginação negra: a busca pelo o que é estranhamente belo, alimentada por uma inquietação profunda surgida do assombro que temos diante da vida.

  • Essa força motriz que nos guia a um estágio de fazença iniciática tem origem em nossas mentes como uma Estética do Desassossego. É  assim que compreendo a essência do alumbramento, o espanto diante dos sonhos propositivos, o absurdo das concepções reais que rebentam ao nosso redor… Tudo isso diz respeito a essa estética que flutua nos corpos melanizados a partir de reelaborações geracionais. É no desassossego que mora a procura infindável pelo maravilhamento onírico.

  • Os sonhos ajustam e criam nossos próprios caminhos, trazendo avanço até mesmo quando o elo de dignidade que pulsa em nossas mitocôndrias está ameaçado. O sonho é concebido pelas filosofias originárias como uma expressão divina altamente tecnológica, paridora do universo e de tudo que nele há.

  • A imaginação negra declara o compromisso fundamental com a criatividade, não aceitando o subterfúgio da escravidão mental como cerne ordinário de criação. Antes, rejeita aspirar a mente como reles reprodutora inerte de uma realidade vazia e enganosa que traga a verve a um buraco de inexistência. Corpos melanizados não recusam a inventividade como nos foi assegurado ao longo dos séculos em que os privilégios de uma minoria saqueou violentamente nossas culturas.

  • A imaginação negra segue aberta ao assombro da vida, está à disposição do maravilhoso absoluto e assevera que já não nos serve o pretérito sustentáculo racista invisibilizador, vigorosamente arruinado neste início de século pandêmico. Profere que também já não nos serve mais de amparo os destroços de uma imaginação constrangida por um mestiçamento arcaico, revestida de mediocridade. Mas persegue um sentido original de rearranjo, próprio para este instante histórico, escavando vestígios de uma potente criatividade, a fim de reaver a genitura da experiência negra superabundante. E é pelas tentativas experimentais de uma nova forma de percepção de mundos que elaboramos existências surrealistas, resistindo à estrutura convencional, cuja formalidade repousa na ideia de uma escassez de meneios.

  • A imaginação negra é trans, e por isso é bela, assombrosa e poderosa, pois transborda a transitoriedade no tempo para resolver questões do agora. Faz uso da liberdade criativa pluriversal tecendo teias-encruzilhadas, concebendo o espaço-tempo como elemento de composição entre o ontem, o hoje e o amanhã, criando uma totalidade sensível e harmoniosa, antes quase impossível de atingir, diante do memorícidio e da escravidão da engenhosidade melanizada, que insistentemente busca a escuridão como forma de libertação. Afinal, o que é escuro é ilimitado, é misterioso, é fértil e abundante em universos outros que revelam-se apenas a quem possui o genuíno interesse pela fluência dos profundos sentidos e símbolos dos espíritos insondavelmente negros.



*Nathalia Grilo é pesquisadora e educadora, desenvolve projetos ligados a investigações sobre as estéticas e sensibilidades africanas. No perfil @preta.velha do Instagram vem trilhando caminhos em torno do surrealismo negro e da imaginação radical.

Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.