POLÍTICA


Ana Carolina Rodarte ︎




Imagem:  Kamala Harris /Reprodução

Icky Trump, nem tamo falando de comunismo.


A eleição four-on-the-floor de Kamala Harris

Quando Beyoncé Knowles-Carter fez a sua power pose diante de um telão com a palavra “Feminist”, ao som do discurso musicado da ativista e escritora Chimamanda Ngozi Adichie, ela não só colocou a audiência do VMA de 2014 abaixo; ela se reconheceu feminista e concedeu um espaço legitimado e palatável ao movimento, que, na época, renascia em acaloradas discussões nas redes sociais — enquanto a cadeira da Casa Branca era (suspiro) ocupada pelas ideias progressistas de Barack Obama. A partir dali, ser uma feminista já não era mais uma questão de odiar homens, ostentar pelos e revoltar-se com a Malibu Stacy; era uma questão de sororidade, de conhecer a própria força e usar o que bem quisesse. Bow dow bitches!



Imagem:  série Chewing Gun /Reprodução


Com essa tonalidade pop e imprescindível, a terceira onda do feminismo se reinventou nas mídias de massa com discursos de divas pop (viva, Cher!) que se espalhavam em microvídeos, campanhas publicitárias regadas a empoderamento e em narrativas liberais de empreendedoras que faziam de tudo por seus negócios. Novas expressões estéticas sobre corpos femininos cis-plurais ganharam a imagética à medida que mulheres trans e ativistas não-binaries também passaram a ser reconhecides publicamente dentro da discussão. Nomes como Angela Davis, Naomi Wolf, Bell Hooks, Audre Lorde, Ruth Bader Ginsburg e Judith Butler ganharam o status cool que qualquer jovem indie se esguelaria para ter. A emergência de muitas dessas autoras, que abordam discussões acerca do feminismo interseccional trouxeram perspectivas mais plurais para as relações de gênero, colocando cada vez mais o feminismo branco em seu devido lugar (a gente não conta qual!). E, em 2017, o movimento #MeToo, criado por Tarana Burke, fez do tapete vermelho uma plataforma de denúncia.

E foi assim, com essa batida four-on-the-floor, que a eleição da senadora democrata Kamala Harris como vice-presidente dos Estados Unidos aconteceu no último sábado.



Imagem:  Shirley Chisholm Rosa Parks /Reprodução

Oh, sim, nós vamos discutir isso. Porque é inevitável. Porque ela subiu ao palanque com aquele adorável terninho branco Carolina Herrera by Wes Gordon — uma marca americana fundada por uma estilista imigrante! Um terno projetado por um estilista gay da cidade de Atlanta! — fazendo referência ao guarda-roupa das sufragistas e de Shirley Chisholm, primeira mulher negra a ser eleita para o Congresso americano em 1969. Porque ela escolheu a música “Work that”, de Mary J. Blige para subir ao palco — música que abriu a sua descontraída playlist de verão do ano passado. Porque ela proferiu as palavras que vão estampar camisetas, posts no feed e squeezers daqui pra frente: “...embora eu possa ser a primeira mulher no cargo, não serei a última. Porque cada garotinha que está assistindo esta noite vê que este é um país de possibilidades.”

No ano em que o ato de votar virou estampa, Kamala Harris mostrou domínio do discurso e da estética que têm transformado os palcos em pleitos. Além de fazer discursos chiclete, ela é risonha, a ponto de ter sido considerada pela colunista republicana Peggy Noonan como “vertiginosa”. Ela “come ‘nãos’ no café da manhã”. Dança na chuva  e faz coreografias com sua equipe usando Converse All Star. Além disso, em um ano de turnês canceladas e premiações meio esquecíveis, sua eleição foi pavimentada por uma grande movimentação de celebridades pop. Lady Gaga, que não hesitou em desenterrar suas personas pré-Chromatica para pedir votos, fez campanha ao lado dos então candidatos democratas na Pensilvânia. Lizzo, um tanto mais desprendida, compôs um hino de cheerleader nos parâmetros do Tik Tok.

Poréeem.... como bom fenômeno pop, a eleição de Kamala é repleta de contradições. Um grupo significativo de autores progressistas concorda que sua eleição tem um grande significado em termos de representatividade: ela é a primeira mulher negra, indiano-americana e asiática-americana a ser eleita vice-presidente dos EUA. É também a primeira graduada em uma universidade de elite negra, a Howard, a chegar à Casa Branca. Seus pais participaram ativamente dos movimentos civis que, entre outros fenômenos, dariam origem ao Partido dos Panteras Negras.

Mas a representatividade não exclui o fato de que, em sua carreira como promotora, Harris não fez oposição a leis de encarceramento em massa e pena de morte, mostrou descaso com trabalhadores do sexo e envolveu-se casos de transfobia. Ela é um exemplo de que a racialidade não está, necessariamente, atrelada ao que se espera de um discurso progressista.

Tecendo considerações sobre a carreira de Harris como promotora e sobre a sua visão em torno do sistema prisional, o poeta Reginald Dwayne Betts declarou o seguinte: “Talvez, se Harris se tornar vice-presidente, nós poderemos ter uma conversa nacional sobre nossos impulsos contraditórios sobre crimes e punições. Por três décadas, como promotora, promotora geral e agora senadora, seu trabalho permitiu que ela testemunhasse muitos deles. Promotores são alvos convenientes. Mas se o sistema está quebrado, é porque nossas falhas o animam mais do que nossas virtudes. Entender porque tantos de nós acreditam que prisões devem existir nos força a admitir que não temos uma resposta adequada à violência. Ainda assim, eu espero que Harris lembre este país que simplesmente reconhecer o problema de encarceramento em massa não o resolve — da mesma forma que manter meus amigos na prisão não é uma solução para a violência e o trauma que os levou até lá.”

Angela Davis decidiu ir por outras vias e abraçar as contradições envolvidas na escolha de Harris para a chapa democrata. Em entrevista à Reuters em agosto deste ano, a ativista apontou que a então candidata era uma questão de “quem nós poderemos pressionar”, dada a postura autoritária e a decorrente impossibilidade de diálogo oferecida por D. Trump.



Imagem:  Alexandra Ocasio-Cortez /Reprodução

O debate persistirá e, dadas as prioridades de Biden em meio a uma crise sanitária e ao colapso climático, não cessará tão cedo. A queda vertiginosa ao inferno, felizmente, foi resolvida, o que dá fôlego para um extenso trabalho que os americanos — e, especialmente, as americanas negras, que impulsionaram a vitória de Biden— têm para combater o racismo, a transfobia e a xenofobia que emergiram com o neofascismo.

É por falar em trabalho, para além da mecânica star system que levou Biden&Harris à vitória, é essencial mencionar as árduas ações de base de ativistas como Stacey Abrams, advogada negra lidera há anos movimentos para levar a comunidade dissidente da Geórgia — historicamente republicana por suprimir o voto dessas pessoas — às urnas e de movimentos sociais como o Black Lives Matter. Lady Gaga pode sim ter dado uma forcinha na Pensilvânia, mas lembremos que, para muitos, as eleições não se pautam por questões instagramáveis. Para o grande descontentamento de millenials e zennials, o avanço das pautas progressistas depende de trabalho pesado. Cabe entre um story e outro, vai.


MJOURNAL ED.005- Y QUE VENHA O AMANHÃ.