INDÚSTRIA TÊXTIL



Gabriela Campos ︎



Imagem: Reprodução

Estanca mas não sangra.


Quando a fibra que sustenta o tecido deixa pontas, não tem trama que segure. Quem segura a estrutura do algodão em meio a pandemia COVID-19?


O ano era 1862 e estimava-se que 01 a cada 65 pessoas no mundo todo estavam direta ou indiretamente envolvidas no processo que tornou o algodão o principal produto do mundo. A INGLATERRA detinha ⅔ de todo maquinário necessário ao processo de fiação e tecelagem, enquanto os EUA tinha clima, terra e mão de obra escrava: combinação perfeita para colocar o país como o maior produtor de algodão do mundo por um bom tempo. A rachadura interna entre norte x sul, que mais tarde resultou na GUERRA CIVIL AMERICANA, possibilitou que o principal "diferencial" americano em relação a outros produtores [trabalhadores em regime escravagista] insurgisse, expandindo os horizontes em direção ao que conhecemos como capitalismo moderno. Em 2020 a guerra é outra e pode ser considerada um dos frutos deteriorados colhidos da corrida desenfreada pelo domínio da produção global. A pandemia enquanto propulsor do futuro coloca em check diversas faces da colonização moderna que o sistema capitalista ajudou a proliferar. E não poderia ser diferente com o algodão, que continua sendo considerado peça chave no desenvolvimento econômico, inclusive para países menos desenvolvidos.

OLHA ELES AÍ DE NOVO...


A guerra comercial entre CHINA e EUA, que vem rolando desde 2018, tem nutrido as incertezas que circundam o futuro da produção mundial já que na lista de commodities a sofrerem novas taxações, com as atenções voltadas pra soja, o algodão acabou passando despercebido. Atualmente, os EUA é o principal exportador mas quem detém maior parte da produção mundial são ÍNDIA e CHINA, que utilizam grande parte do que produzem para internamente. Diante a soma da aflição gerada pelos embargos comerciais mais a redução de consumo sem precedentes na história, o USDA [UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE] reduziu a estimativa de exportações de algodão americano de 16,5 para 15 milhões de fardos: 9% a menos do que havia sido especulado em março. Inclusive. Do outro lado, a estratégia de rotação do governo chinês garante um baixo índice de importação, enquanto o país se sustenta com as reservas obtidas através de leilões anuais das maiores reservas mundiais. CHINA 1 x EUA 0!

CORRIDA CONTRA O TEMPO


Aqui, do lado sul do mundo, a situação parece um tanto mais crítica, começando pela ÍNDIA. O segundo maior produtor do mundo, que tem em MAHARARSHTRA a região de maior escoamento da produção de algodão para o próprio governo indiano, enfrenta não só a baixa demanda por conta do novo Coronavírus, mas também as incertezas climáticas: os produtores da região temem que não chova o suficiente no atual período das Monções a ponto de fazer o algodão germinar no tempo adequado. Importante lembrar que a segundo o MIT, a COVID-19 afetará a ÍNDIA de maneira devastadora, levando o país a ser o mais atingido pela pandemia e MAHARARSHTRA é uma região com histórico preocupante de suícidio entre os agricultores, por motivos como: escassez das chuvas, aumento dos ônus e ausência de seguridade social. PAQUISTÃO, que é o terceiro país com maior capacidade de fiação do mundo, tem aproveitado a situação para expandir a capacidade produtiva. A PAKISTAN COTTON GINNERS ASSOCIATION (PCGA) aposta na tecnologia chinesa de sementes para reativar o eixo de descaroçamento e fiação do país: atualmente 800 das 1300 fábricas espalhadas pelo país estão operando. Seria a pandemia COVID-19 um importante momento pra colocar o país na disputa domínio na produção mundial? E melhor dizendo: agora é realmente o melhor momento?

É claro que esse emaranhado de fatores, envolveria também os fios soltos dessa dinâmica de mercado nos países africanos. O MALI, enquanto lugar de destaque como exportador do commodity, garante a subsistência de aproximadamente 4 milhões de famílias. A instituição parcialmente privada COMPAGNIE MALIENNE POUR LE DÉVELOPPEMENT DU TEXTILE, assim como a ÍNDIA, sofreu a influência da superestimativa do preço do algodão dado pela USDA e efetuou negociações antecipadas com os agricultores, resultando no atraso do pagamento pelo algodão comprado. Diversos desses agricultores, assim como os produtores do ZIMBABWE que investiram em melhorias e agora estão sem pagar credores, maquinários e funcionários e ameaçam um boicote à produção. COSTA DO MARFIM E EGITO sofreram diretamente com a redução na demanda gerada pela indústria e estudam meios de reduzir os danos sofridos, seja focando na venda dos produtos já existentes ou reestruturando o plantio para produtos alimentícios.

NEGACIONISMO OU OPORTUNIDADE?


No BRASIL, aparentemente o único setor que não sofreu gerada pela pandemia foi o agronegócio e aparentemente a maior preocupação é em relação a praga de gafanhotos que se aproxima do sul do país. Inclusive tem rolando um aumento significativo da prática de alugar maquinários agrícolas. Mas, quando se fala de algodão o momento é de atenção.  Desde que a guerra comercial entre EUA e CHINA realmente se estruturou, em 2019, o Brasil se tornou o segundo maior exportador mundial de algodão, tendo a China como maior comprador, o que consequentemente ameaçou o mercado australiano. Entretanto com o esfriamento do mercado por conta da pandemia COVID-19, e mesmo com a maioria da produção já negociada antes do ápice de contágio mundial, o clima é de pé no freio porém aproveitando o momento de desvalorização do real em relação ao dólar.

... 90.000 mortes essa semana… vai entender!

Se o império capitalista não deu certo, o principal material dessa construção não passaria ileso. Até quando o white gold vai permanecer tão brilhante assim, a gente não sabe. Enquanto isso, continuamos assistindo ao desmanchar da estrutura, fiozinho por fiozinho do que foi tecido as custas de muita exploração colonialista.