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Hiperfuncionalidade em estado de guerrilha: Apocalipse Now em direção ao espaço






O corpo se orna de tecnologias esportivas para abraçar um estado bélico de espírito. E enquanto nossos arredores queimam, nos preparamos para habitar o espaço — e enchê-lo de diferentes sotaques, para a surpresa dos bilionários.


A gente não sabe exatamente para o quê, mas estamos nos equipando de corpo e alma com a estética do athleisure. Começamos a projetar peças para um super organismo em estado de guerra, capaz de entregar performance 24h/dia. Chega de conversar sobre moda; o negócio é tratar a roupa como roupa, um dispositivo capaz de nos auxiliar e nos proteger em nossas rotinas. Daí o armário vai ganhando macacões que parecem ter saído do acervo de um paraquedista, jaquetas com tantos bolsos que parecem modeladas para centopeias, capuzes duplos com corta-ventos, peças extensíveis, e céus, muitos zíperes e fivelas.
 
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Marc Jacobs / Divulgação


Na moda, a hiperfuncionalidade é resultado do avanço de uma série de tecnologias vestíveis — dos wearables aos tecidos inteligentes — e dispositivos encarados como extensões de nosso corpo. Você não precisa mais se desdobrar para decorar rotas e aniversários quando, com um comando de voz, você pode pedir a ajuda de uma IA. Tá todo mundo virando ciborgue e nossos processos cognitivos vêm sendo continuamente atravessados pela digitalização. A constante busca por produtividade (intelectual & corporal & financeira & afetiva & sexual & familiar & etc), é marca de um regime econômico neoliberal e individualista que, aliada ao culto contemporâneo ao corpo e ao estado de eterna vigilância sobre si, também dá um impulso nesse processo. Para anestesiar o medo da finitude e do que não podemos controlar, acreditamos que tudo, absolutamente tudo, pode ser otimizado. Nós sempre vamos inventar um jeito de continuar: mais fortes, mais incríveis, mais adaptáveis. A cada dia, uma nova e melhor versão de nós mesmos; pronta para o combate, mas com pouquíssimo tesão — quem é que transa nesse estado de tensão, né?

Mas não dá pra ignorar que a bendita pandemia também deu um empurrãozinho nessa. Com tanta gente recorrendo a todos os mecanismos possíveis para se prevenir do contágio, o vocabulário imagético também passou por uma reconfiguração. Cientistas, enfermeiros, infectologistas e médicos se destacaram nas linhas de frente, fazendo com que lançássemos um olhar fetichista para seus uniformes. E em meio a tantos discursos negacionistas, a ciência vai ganhando um caráter nobre, o que confere aos trajes espaciais da NASA um aspecto desejável. Dá só uma espiada no ranking de séries de ficção científica mais assistidas nos canais de streaming!



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Hed Mayner/ Divulgação

 
Essa necessidade de uma cobertura high tech para o corpo também denuncia as disparidades do apocalipse iminente. Enquanto uma pandemia assola o mundo e, junto ao colapso climático e a políticas de morte, intensifica desigualdades, bilionários ganham os céus em programas espaciais privados. Em julho do ano passado, Jeff Bezos usou a estrutura da sua empresa de veículos aeroespaciais, Blue Origin, para que ele e uma tripulação de ricões ficassem dez minutos na superfície da Terra, conhecendo o que a microgravidade tem a oferecer de melhor para os seus poros.

Mas quem anda com ideais regados a muitos episódios de Battlestar Galactica e as-mais-doidonas-da-Grimes é Elon Musk. Com foguetes de componentes reutilizáveis da SpaceX — er, alô, economia carbono neutro...? —, ele pretende estabelecer uma presença humana permanente em Marte, concentrando seus investimentos em um plano B para evitar a extinção da nossa espécie e torná-la multi-planetária. O Starship, um dos projetos mais recentes da SpaceX, terá capacidade para levar 100 pessoas ao espaço e já promete exceder a capacidade de propulsão do Sistema de Lançamento Espacial (SLS, em inglês) da Nasa — que, atualmente, é o veículo de lançamento mais poderoso construído desde 1960.

Seguindo a premissa de obras como “Elysium” (Neill Blomkamp, 2013), “Cowboy Bebop” (Shinichiro Watanabe, 1998) e “New Space Order” (Sung-hee Jo e Song Joong-Ki, 2021), os primeiros passos da economia espacial carregam as desigualdades, o ecofascismo e o individualismo que vêm marcando os arranjos socioeconômicos aqui na Terra desde os anos 70. Afinal, enquanto muitos de nós temos a circulação restrita — seja pela pandemia, pelos conflitos, pelas crises migratórias, pela pobreza ou pelas violências de raça e gênero —, o turismo espacial inicia sua jornada com bilhetes  de 250 mil dólares para voos suborbitais. O avanço do desmatamento e do garimpo faz com que a Amazônia já emita mais CO2 do que absorve, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Porém os investimentos necessários para frear a degradação da floresta ainda são destinados a empresas que pouco fazem pelos povos originários ou pela preservação de ecossistemas do Sul Global.

Dessa forma, qual humanidade habitará as colônias de Marte em 2050? Quais empregos serão criados no planeta vermelho, enquanto dezenas de milhares de pessoas ainda estão à margem da economia digital aqui no planeta azul? Quais serão as condições de vida e bem-estar criadas no espaço quando a visão de uma boa relação com a natureza torna-se cada vez mais intermediada por uma visão asséptica, criada por pessoas brancas e privilegiadas?

E se a exploração do espaço deixa de ser exclusividade da ciência e dos empreendimentos governamentais, mais pessoas passam a se apropriar desse gesto numa esfera de projeção, mesmo que aspiracional e distante. Se, nos anos 70, 80 e 90 a imagética da ficção científica no mass media era povoada de aventureiros caucasianos, com expressões em inglês e ambientes embranquecidos, hoje, ela passa a abrigar expressões plurais, com olhares mais coloridos sobre o que pode ser a navegação pelo espaço sideral. A hiperproteção para um futuro que não sabemos como e onde ocorrerá vai ganhando composições estéticas mais globalizadas, que promovem o diálogo entre técnicas e modelagens tradicionais e o high tech de laboratório. A navegação pelas estrelas que nos guiam daqui vai ganhar cor, textura e sotaques diversos. E os monólitos acinzentados ficarão no âmbito da fantasia de Carnaval.


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Stella McCartney/ Divulgação


*Esse texto é um dos capítulos do e-book "O guarda-roupa se transforma num colapso" publicado em dezembro/2021. Para fazer o download do material completo acesse aqui.

Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.