ECONOMIA


Jéssica Amorim ︎



Imagem: Reprodução

Grão por grão: e se a crise do arroz invadisse o mundo das artes?


Vamos dar uma olhada nos dados para confirmar o que a gente já sabia:  segue perdendo quem já perdia

Para quem acompanha e/ou (sobre)vive da indústria criativa, tem sentido que o momento pandêmico tem pressionado progressivamente a economia deste setor. No Brasil, o COVID-19 começou a ser levado a sério em março, mas ainda no comecinho de fevereiro, o maior evento de arte da China, o Gallery Weekend Beijing, teve sua edição de 2020 cancelada. Logo depois, a Art Basel, feira internacional de arte com fins lucrativos, também anunciou o cancelamento de sua feira em Hong Kong, que aconteceria em março deste ano.

E, infelizmente, as suspensões das feiras continuaram a serem confirmadas mundo afora. O fechamento de muitos museus e galerias, e especulações nem tão teóricas assim sobre como instituições de artes não sobreviverão ao vírus, têm acelerado o movimento de mercado de arte online. Além disso, depois do primeiro semestre, têm gerado também uma insistência na retomada de eventos presenciais para manutenção mínima desses negócios.

Mas afinal, como anda esse business? Estudos da UNESCO e o Conselho Internacional de Museus (ICOM) confirmaram que mais de 85.000 instituições de arte tiveram que fechar suas portas durante esse tempo de crise, e que quase 13% dos museus em todo mundo nunca poderão reabrir. Ampliando o olhar sobre isso: profissões relacionadas a museus, suas operações e alcance estão seriamente ameaçadas com estes fechamentos e com a redução de suas receitas, no caso de museus privados. Ou seja, não está fácil.

Ainda sobre o mercado de arte, o relatório “The Impact of COVID-19 on the Gallery Sector” (“O impacto do COVID-19 no setor de galerias”), publicado pela Art Basel e UBS, apresenta alguns dados sobre como a pandemia afetou o setor de galeria global nos primeiros seis meses de 2020. Segundo a pesquisa, escrita pela economista de arte Clare McAndrew, as vendas de galerias caíram 36% em relação ao mesmo período no ano de 2019. O que impacta principalmente na desigualdade desse mercado, uma vez que quem já estava sobrevivendo antes da pandemia, corre o risco de ter que desistir de vez, podendo gerar, inclusive, uma redução no número de artistas.

Já o relatório da ArtTactic, empresa de pesquisa de mercado de arte, analisou o setor de leilões online e revelou que as vendas globais aumentaram 255% de janeiro a agosto de 2020 em comparação com o ano de 2019, alavancando principalmente três casas de leilão em suas plataformas online. Apesar desse aumento, ainda não foi possível compensar a queda de US$2,8 bilhões nas vendas gerais.

Como nesse universo do capital, quem começa a ditar é o dinheiro, esses números por si só podem soar muito alarmantes. Mas para além disso, essas análises apontam para um risco de estreitarmos ainda mais o direito de acesso à arte e à cultura. É só ter em mente que, por exemplo, naturalmente tudo isso tem impacto mais significativo em galerias menores e estreantes, artistas que estavam projetando suas carreiras, além de várias outras profissões que ainda que sejam invisibilizadas, sustentam a base do mercado da arte, como moldureiros, entregadores, etc.

Ainda no estudo da UNESCO e do ICOM, há declarações sobre a importância dos setores público e privados se envolverem com o levantamento de fundos para ajuda emergencial e implementação de políticas públicas para proteger instituições, profissionais e trabalhadores autônomos desse setor. Mas ainda é possível ter esperança nessas alternativas? E é porque eu nem comecei a falar do Brasil… Pauta pros próximos?





MJOURNAL ED.004 - FLOR DE CEM, RAIZ DE MIL.