COMPORTAMENTO


Ana Carolina Rodarte ︎




Imagem: 
Tiago Gambogi por Andrew Hastings


Glitch corporal pós-confinamento



Os relatos de três dançarinos sobre a rotina do corpo em tempos pandêmicos e o vislumbre de novos gestos para o pós-vacina.

Entramos neste novo ano com gestos muito diferentes dos que tínhamos no início do ano anterior. As máscaras faciais ocultaram as curvas de nossos lábios, fazendo com que, para quem não está habituado a cobrir o rosto, os olhos e as mãos precisassem se encarregar das funções antes atribuídas ao sorriso. Na rua, a distância requerida para conter o contágio nos ofereceu uma fita métrica imaginária, muitíssimo questionável nos encontros com amigues que não encontramos há meses. A apreensão diante das possibilidades de contração do vírus, do descaso do governo diante das políticas de saúde pública e assistência social, das vidas perdidas e dos altos índices de desemprego vai talhando curvas sobre os pescoços. O bater dos pés, transição, o sono conturbado, transição, o olhar que estendemos sobre a pele que se modifica ao sabor dos hormônios e emoções, transição e, céus, verificar pela milésima vez se o microfone está mesmo desligado.

Num estado de profilaxia, restrições e reinvenção, corpos e corpas precisaram adaptar-se a outras formas de estar nos espaços, o que pode nos talhar um novo léxico corporal. Afinal, de maneira voluntária ou não, traumas não só moldam discursos e imagens, como também nossos compassos. A crítica de dança do The New York Times Gia Kourlas compartilhou que, após o 11 de setembro, uma série de companhias incorporaram o olhar para cima em suas coreografias; as torres derrubadas estavam ali, de algum modo.

A gente já sabe que o distanciamento e os lockdowns levaram muitos de nós a experimentar coreografias do TikTok e aulas virtuais, mas como essas vivências guiarão nossos movimentos daqui pra frente? E como a dança, esse território de expressão do corpo — e uma das artes mais dependentes do encontro e dos auditórios — têm respondido a isso? Três dançarinos compartilham as suas histórias.

Gabriela: a professora faz as pazes com as telas

Belo Horizonte/MG – Brasil

Para a artista e coreógrafa de dança contemporânea Gabriela Chiaretti, o mesmo espaço que a confinou também serviu como impulso para criação. “Me propus a fazer improvisações no espaço da casa, dialogando meu corpo com os móveis, com a arquitetura do apartamento que moro, com as texturas do chão, com a luz do sol que me surpreendia fazendo sombra nos meus movimentos. E foi bem divertido e surpreendente. O universo da vídeo-dança começou também a aparecer como possibilidade. Brincar com a câmera e compor movimentos. Me surpreendi com essa nova ferramenta de trabalho e com as infinitas possibilidades de arranjos, de movimentos, de improvisos, de criações.”
Em Belo Horizonte, sua cidade natal, Gabriela dá aulas para a escola de dança do Grupo Corpo, um dos maiores do Brasil. “Senti muita falta do espaço, da conexão com minhas alunas, da transferência de energia entre os corpos em movimento.”  Após adaptar suas aulas e práticas, ela encontrou na arte uma forma de “lidar com tudo isso que estamos vivendo''. Em dezembro, ela apresentou um dos resultados desse processo: uma coreografia para o clipe “Berço do Ar”, do músico, compositor e percussionista Paulo Santos (Uakti).
Para ela, que pensa a dança a partir dos gestos e da movimentação cotidiana, as pessoas voltaram seus olhares para dentro, colocando a saúde e a mente como prioridades: “O corpo confinado fica mais restrito, menos ativo e  consequentemente mais adoecido (...) [Mas] me percebo otimista. A dança ganhou força nas plataformas digitais. Pessoas do mundo inteiro, de diferentes corpos e percepções de mundo, dançando, criando, exercitando e em movimento. No cenário artístico de um modo geral, vejo muitos desafios pela frente. É fundamental lutarmos por políticas públicas mais justas que reconhecem o papel fundamental da arte e da cultura no cotidiano social.”



Tiago: o corpo artivista abraça o riso

Margate/ Thanet, Kent – Inglaterra

Atravessado pelas indignâncias deste mundo, Tiago construiu um ativismo próprio, fazendo da tensão, impulso pro riso e do corpo, um manifesto ambientalista. Dançarino, ator, performer e coreógrafo, Tiago Gambogi (Reino Unido/Brasil) co-dirige o grupo de dança-teatro f.a.b.- The Detonators. Sua obra é extensa e multiterritorial, mas ainda não havia incluído trabalhos em uma pandemia como a que vivemos hoje. “Estou em Margate, na Inglaterra, com Maggi, minha parceira de vida e de trabalho, em uma cidade de praia na costa sudeste da Inglaterra. (...) O Reino Unido, como o Brasil e muitos outros países, cometeu muitos erros na pandemia. Ontem havia grandes filas de caminhões que não podiam ir para a França devido à suspeita de mutação do vírus aqui. Nossos amigos vão daqui a pouco levar comida para os caminhoneiros poloneses e tchecos, que não podem sair de seus caminhões.”
As restrições de espaço, que, segundo o dançarino e coreógrafo, afetaram a força, o alongamento e a memória do movimento, foram também um trampolim para a vontade de se expandir mental e corporalmente: “Dançar é a expressão máxima do estar vivo — a beleza da máquina-corpo em movimento. Para mim, a dança também se torna uma ferramenta essencial para refletir sobre o que está acontecendo no mundo, tanto quanto é sobre a poesia dos corpos em um palco. Realizamos performances online, buscamos formas de encontro e diálogo, pressionamos nossos governos com nosso ativismo. A restrição de movimento nos gera uma vontade ainda maior de nos mover.”
Ativo em eventos virtuais como Intercultural Roots e festas-cabaré com performances teatrais, Tiago conheceu artistas de todo o mundo durante o distanciamento social. Dentro da produção manauara  Sexta Que Dança, de Francis Baiardi, criou a performance “Pé de Busca: Lírio do Deserto” para pensar um modus vivendis mais harmônico com a natureza. Seus olhos, contudo, não deixaram de se atentar ao que se passava dentro de si. “O movimento somático, que vem de estímulos de dentro, foi um dos focos de minha pesquisa. Acredito que por ‘ficar em casa’, o foco no movimento também se internalizou. Experimentei várias abordagens – pela técnica de Feldenkrais, Butoh, Body-Mind-Centering e outras.”
Fazendo um voto por um futuro de acesso democratizado à internet e fomento aos artistas, Tiago vislumbra possibilidades em meio à neblina de nossos dias — entre risos, ele sente a energia de Iemanjá mesmo em meio à chuva fria que assola a costa inglesa. “Provavelmente a dança será uma das últimas formas de arte a retornar integralmente. (...) O crescimento de criações de vídeo-dança e as parcerias online são fatores positivos que vieram da pandemia e acredito que a dança se beneficiará deste aprendizado no futuro.”
E, para não fazer feio às tradições, passa o chapéu: “É o momento de darmos um salto, um grand jeté quântico para uma era em que estejamos conectados à nós mesmos e à nossas comunidades através de valores positivos e que nutram verdadeiramente o Planeta. Avante, axé, evoé, namastê e tudo mais.”


Otávio: os poros abertos da terra brasilis

Salvador/São Paulo – Brasil

Otávio Portela estava em turnê pelo sul da França quando foi surpreendido pelo lockdown na Europa. No dia seguinte, estava de malas prontas para embarcar de volta ao Brasil com sua companhia, a São Paulo Companhia de Dança, dirigida por Inês Bogéa. Otávio é de Salvador, mas há 9 anos, encontrou na capital paulista espaço para exercer a sua arte. “De março a junho ficamos em quarentena total, fazendo aulas de balé, contemporâneo e práticas de pilates em casa. Quando a cidade de São Paulo passou a flexibilizar as medidas de restrição, começamos uma volta gradual às atividades na sede da cia. Seguindo todos os protocolos de segurança, começamos a retomar a produção de algumas obras já iniciadas no começo deste ano."
A negligência do governo brasileiro diante das políticas de saúde pública, contudo, encerrou o espetáculo um tanto mais cedo do que se esperava: “Durante a quarentena produzimos muito conteúdo audiovisual para alimentar as redes da cia e promover um mínimo de arte no meio do caos. Mas atualmente retornamos às práticas de home office tendo em vista todo o quadro da pandemia que segue no país, infelizmente.”
Os gestos de Otávio são amplos, a quase perder de vista, o que torna até mesmo o frame de seus posts um pouco pequenos para o que ele faz. Mas ele, como muitos de nós, se rearranjou. “[Há] pessoas que vivem em espaços pequenos e sem nem o mínimo de estrutura para uma prática corporal. Passamos a adaptar o nosso corpo às condições possíveis. Estamos percebendo o quanto o nosso corpo se adapta e o quanto isso reflete nas condições físicas que nos encontramos agora.” Para ele, isso significou uma certa distância dos palcos e salas de estar e a adoção de práticas alternativas, como o tecido.
Da reconfiguração de nossos corpos ao de nossas casas, Otávio vê, nas fissuras, um interesse crescente das pessoas por práticas que as coloquem em movimento — “um olhar para si” —, o que tem impulsionado a criação de espaços educativos para a dança no ambiente virtual. “Acredito que estamos passando por um momento de encontro com essas novas formas de estar e ser com o nosso próprio corpo. Os reflexos estão a caminho.”

As mudanças que vêm nos atravessando há meses não só impuseram novas perspectivas socioculturais para corpos e corpas, como também novos ambientes e estímulos. É notável que daqui saem outros gestos, mas é também necessário que aqueles que se encarregam do estudo das corporeidades recebam o devido amparo para a carga que assumirão daqui para frente. Afinal, sem as temporadas de apresentações, muitas companhias estão sem orçamento. Escolas e estúdios, que dependem do comparecimento de alunos, repensam o contrato com professores. E ainda diante de toda a apreensão do mundo, o corpo teima em querer ser uma festa. ︎

MJOURNAL ED.006- O COMEÇO DO FIM.