CULTURA


Ana Rodarte ︎



Imagem: 
 reprodução


Frames de gente nossa: potências e trampos para o novissimo cinema do sul global


Impulsionado por novas políticas de fomento e foco na pluralidade, o cinema sul global se destaca no circuito de festivais e nas plataformas de streaming. Mas a nova geração de realizadores ainda tem muita peleja pra enfrentar.

Quando o diretor sul-coreano Bong Joon Ho e sua tradutora, Sharon Choi, subiram ao palco do Beverly Hilton para agradecer pelo Globo de Ouro de Melhor Produção Estrangeira, eles deram uma pequena dica para que os apreciadores de cinema das bandas de cá voltem a se maravilhar pelas telas: “Quando superarmos as barreiras de legendas, vocês conhecerão muitos filmes incríveis.” E dá-lhe Google Tradutor: além da renascença do terror, do pós #MeToo e da nova onda sul-coreana, o cinema tem sido movimentado por um interesse crescente nas narrativas e sotaques do sul global.

Mas a gente não canta bola sem colocar os dados na mesa. Olha: na última edição do Festival de Cinema de Berlim, a 70ª Berlinale, o cinema latino-americano se destacou com 19 estreias mundiais, levando produções do Chile, Cuba, Colômbia, Peru, México, Uruguai, Argentina e Brasil. Passando por temas como migração, identidades queer e os conflitos enfrentados pelas comunidades indígenas, os filmes mostraram a potência de países que vêm enfrentando ações de desmonte ao cinema que produzem. No Sundance 2021, o Brasil se arriscou no thriller de ficção científica “A Nuvem Rosa” (Iuli Gerbase, 2021), catalisando sem-querer-querendo os sentimentos pós-apocalípticos que temos vivido. Já na edição de 2020 do Festival de Cannes, “Casa de Antiguidades”, primeiro longa-metragem do cineasta brasileiro João Paulo Miranda Maria, representou a América Latina na seleção oficial do evento.

“A produção independente da América Latina tem apresentado uma qualidade técnica muito grande, atrelada a temáticas do cotidiano. É potente ver questões da política macro sendo representadas no dia a dia das pessoas”, conta o jovem diretor e roteirista belo-horizontino Pedro Estrada, um dos responsáveis pela curadoria da última edição do Lumiar Festival Interamericano de Cinema Universitário, voltado para curtas-metragens.
O interesse crescente pela produção latino-americana também tem partido de seu próprio povo, que tem tido maior acesso às produções independentes locais. Afinal, para garantir a segurança de todo mundo nos últimos meses, os festivais de cinema acabaram transferindo suas programações para plataformas virtuais. O diretor mineiro, Marco Antônio Pereira, nascido e criado em Cordisburgo (Minas Gerais), tem acompanhado animado a recepção do público em torno dos seus filmes: “As pessoas da minha cidade começaram a entender que tinha alguém de lá fazendo filmes. Que não era só alguém que veio e foi embora. Com os festivais online, as pessoas estão tendo acesso às suas paisagens, a histórias simples e aos seus signos — que muitas vezes, só o pessoal de lá entende.”

  • Novos quadros de Sankofa


Do outro lado do oceano, a potência da diáspora africana tem instigado investimentos de plataformas de streaming para democratizar o acesso ao cinema produzido na África. A Netflix, por exemplo, vem distribuindo e investindo em produções próprias, como a série policial sul-africana “Queen Sono” (Kagiso Lediga e Pearl Thusi, 2020), o documentário “My Octopus Teacher” (James Reed e Pippa Ehrlich, 2020) e a adolescente “Blood & Water” (Nosipho Dumisa, Daryne Joshua e Travis Taute, 2020). A iniciativa foi anunciada no vídeo “Da África para o Mundo”, lançado em junho do ano passado, e é parte de uma estratégia da empresa para manter seu domínio no mercado global diante da chegada de concorrentes como o Disney+ e o HBO Max.

Não que as coisas já não andassem promissoras para o cinema produzido no continente. Para se ter ideia, no contexto global, a Nigéria ocupa o segundo lugar em termos de volume de produção —  são cerca de 2.500 filmes por ano —, ficando atrás apenas da indústria indiana. O país tornou-se conhecido por suas comédias e dramas, entre os quais se destacam produções como Lionheart (Genevieve Nnaji, 2019). Hoje, ele também se sobressai em gêneros mais diversos, como terror, musicais e animações. Que o diga o curta “Lizard”, de Akinola Davies Jr, que faturou o Grande Prêmio do Júri do Sundance de 2021.

Mas calma, sr. Reed Hastings, temos algumas pontuações. Como a autora Ana Camila Esteves compartilhou, na tentativa de se comunicar com audiências globais, as tramas apoiadas pela plataforma de streaming vêm reproduzindo códigos de gêneros já consagrados no cinema americano e europeu. Além disso, a Netflix tem investido massivamente em filmes da África do Sul e da Nigéria, que já têm indústrias audiovisuais consolidadas e conseguem produzir filmes e séries a baixo custo. Ainda assim, produções africanas de fora desse circuito também têm recebido holofotes, como é o caso do polêmico Cuties, da franco-senegalesa Maimouna Coucoré. O filme, que causou burburinhos por discutir a hipersexualização de adolescentes, estreou no Sundance em 2020 e foi adquirido com exclusividade pelo serviço de streaming.

Ainda diante desses incentivos, os jovens cineastas do continente enfrentam desafios para colocar seus projetos nos trilhos. Em entrevista ao Times Live, o diretor zimbabweano Tomas Brickhill — responsável pela comédia romântica Cook Off (2020) — contou que, na maioria dos países do continente africano, não há uma indústria cinematográfica ou fundos de amparo para apoiar a produção independente. Ele acredita que o elemento-chave para solucionar essa equação está na distribuição: “As pessoas querem o conteúdo e os cineastas querem produzir o conteúdo, mas o que está faltando são pessoas com a mentalidade de negócios que trabalhem na monetização do produto final e transformem a demanda em oportunidade para investidores.”


  • Os sonhos e frestas de uma terra em transe


No Brasil, a indústria do cinema ainda é bastante dependente do Estado — que hoje, sob os caprichos do bolsonarismo, vem agindo para desmantelar a produção cinematográfica do país. “Todos os filmes que tenho produzido são financiados com editais municipais, porque na esfera federal não existe mais absolutamente nada [para os cineastas]. O Bolsonaro realmente conseguiu parar o cinema nacional. (...) Ele simplesmente congelou tudo, fazendo com que o cinema não conseguisse se movimentar”, compartilha Pedro Estrada.

Para se ter uma ideia, o orçamento do Fundo Setorial de Audiovisual (FSA), responsável pelo financiamento de filmes no Brasil, sofreu um corte de 43% em 2020. A esparrela nem se relaciona com a economia; afinal, o setor emprega mais de 300 mil pessoas e movimenta aproximadamente R$ 25 bilhões por ano. Na verdade, a Agência Nacional do Cinema (Ancine), que se encarrega pelo financiamento e regulamentação das produções cinematográficas brasileiras, tem sofrido com ataques e remanejamentos de cargos. É que Jair Bolsonaro, como de praxe, quer que o órgão somente aprove as produções alinhadas às suas ideologias. Nessa mesma linha de pensamento, a Cinemateca Brasileira, responsável pela preservação de películas e com o maior acervo audiovisual da América Latina, também está sem recursos para operar. A gente nem precisa ir muito longe para dizer o quanto isso ameaça a diversidade de nossas expressões culturais e audiovisuais, né?

O diretor Marco Antônio Pereira, que está na fase de distribuição do seu curta “4 bilhões de infinitos”, acredita que uma possível saída esteja nos esquemaspropostos pela economia compartilhada: “Nesse tipo de arranjo, todo mundo faturaria um pouco menos. (...) E se o filme ganha premiação, distribuo o bônus.”

Com passagens pelos festivais de cinema de Berlim, Hong Kong, de Gramado e Tiradentes, Marco é um dos fundadores da produtora mineira Abdução Filmes, cuja sede fica no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. Para ele, as políticas de fomento ao audiovisual anteriores ao governo de Bolsonaro trouxeram benefícios importantes para o cinema nacional, mas, ao mesmo tempo, distribuíram muita verba para poucos cineastas, o que não contribuiu para o nascimento de uma indústria de cinema no país. O diretor também destaca que, além dessa falta de apoio na esfera federal, os jovens realizadores de pequenos municípios também têm se sentido obrigados a mudar de cidade para captar recursos, já que apenas as grandes cidades vêm financiando a produção audiovisual.

Pedro Estrada, que além de distribuir o curta “Grand Canyon”, está produzindo dois curtas e planejando seu primeiro longa-metragem, se alinha ao pensamento de Marco. Como outros jovens realizadores do país, por anos, ele tirou dinheiro do próprio bolso e operou em esquema de favores para conseguir tirar os projetos do papel, o que acentua a desigualdade de acesso e oportunidades. Para Pedro, o que está faltando é apoio das instituições de ensino e fomento, já que, segundo ele, até as faculdades de cinema do país estão sofrendo com precarizações: “Estamos fazendo tudo por amor, por vontade de existir. (...) Precisamos de uma participação maior das instituições para apoiar nossos professores e do Estado na promoção de editais.”

Apesar das dificuldades, o cinema brasileiro independente ainda tem jeito. Como Marco Antônio conta, o maior acesso a câmeras de alta resolução, bem como a softwares de edição, tem permitido que uma nova geração de realizadores subalternizados possa fazer filmes de baixo custo. Citando o sucesso da produtora Filmes de Plástico (Contagem, zona metropolitana de Belo Horizonte), Marco compartilha que, com a aposta de investidores, conhecimento sobre mecanismos de fomento e a crença no poder de realização da periferia, o audiovisual brasileiro pode se fortalecer e se destacar em qualquer lugar: “Coloca uma câmera na mão de uma pessoa do interior ou da periferia que você vai ver a potência do cinema nascer!”


MJOURNAL ED.006- O COMEÇO DO FIM.