MODA + INDÚSTRIA



Gabriela Campos



Imagem: Reprodução

Farinha pouca? Meu pirão primeiro.


Desamparada, a indústria têxtil brasileira atravessa dificuldades drásticas. Mas seria a flexibilização da quarentena o antídoto que precisamos?


A indústria têxtil brasileira tem se virado como pode ao longo dos tempos e a pandemia do novo coronavírus deixou tudo ainda mais crítico. O país, que conta com três principais polos têxteis espalhados pelas regiões Nordeste, Sudeste e Sul, sente os impactos econômicos da pandemia e teme números expressivos de demissões durante a quarentena, tornando o futuro da indústria um tanto quanto incerto. Se no finalzinho de fevereiro, parecia que a pandemia não estava gerando tanta preocupação entre as empresas, em abril o papo era outro: 38% das empresas tiveram queda de mais de 10% na demanda e entre essas, 88% relataram cancelamentos dos pedidos pelos clientes. A exemplo dessa situação, tem o caso da tradicional tecelagem SANTACONSTÂNCIA, que entrou com pedido de recuperação judicial. O presidente da ABIT [ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA TÊXTIL E CONFECÇÃO], Fernando Valente Pimentel, levantou em questão a retomada das atividades na China no exato momento em que o Brasil passou a aumentar gradativamente as medidas de isolamento, e que esse desencontro poderia ser decisivo para o aumento das importações. No geral, os produtos chineses já chegam no país com preços extremamente competitivos devido à estrutura proporcionada pelo governo para incentivar os negócios. Já para o SINTEX (SINDICATIO DAS INDÚSTRIAS DE FIAÇÃO, TECELAGEM E DO VESTUÁRIO DE BLUMENAU), o cenário é ainda mais ameaçador, já que a previsão é de que o setor dispense cerca de 10 mil funcionários. Blumenau é uma das cidades que compõem o segundo maior polo têxtil do Brasil, e foi porta de entrada para a instalação do setor no país, já que grande parte dos imigrantes alemães que chegaram no final do século 19 tinham a região como principal destino e a tecelagem como principal fonte de renda.

Temendo um maior impacto, principalmente no estado, a entidade SANTA CATARINA E MODA [SCMC], encabeçou a campanha #euvistoBrasil, com o intuito de estimular os brasileiros a consumirem marcas e produtos nacionais. O movimento, que foi desenvolvido voluntariamente por uma agência de publicidade local, conta com um manifesto e um vídeo, feito com imagens disponibilizadas pela ABIT e isso justifica a “diversidade” no casting (mas isso é papo pra outra hora, rs). Já em termos de representatividade política, a ABIT tem contado com um time bem expressivo de deputados e senadores, que atuam em prol dos interesses econômicos do setor, porém historicamente, o país não se solidificou como uma potência do vestuário. Contrariando as políticas praticadas neste século, por países como a China, que abre uma série de facilitações a fim de alavancar a indústria ou como o monopólio têxtil implementado pela Inglaterra durante o século 18, o Brasil tem colocado inúmeras burocracias, juros e embargos dificultando o acesso ao crédito pelos fabricantes: say hello to the neoliberalismo. Com as férias coletivas adotadas na primeira fase da quarentena chegando ao fim, o setor têxtil juntamente com os demais segmentos da indústria deram um jeitinho de pressionar a presidência, fazendo analogias fúnebres para justificar a inclusão de seus negócios na lista de serviços essenciais e garantir a retomada das atividades o quanto antes.

E não tem doação de 100 mil máscaras que disfarcem as reais preocupações dos empresários. Os colaboradores ficam, assim, cada vez mais expostos ao contágio, tendo que manter um ritmo normal de produção. A indústria no Ceará, por exemplo, que faz parte do polo têxtil do AGRESTE PERNAMBUCANO, está liberada para retomar as atividades com medidas restritivas, mesmo ocupando o segundo lugar no ranking de estados brasileiros mais atingidos pela pandemia. Apesar da suspensão do artigo da MP 927 que determinava que casos do novo coronavírus não eram considerados ocupacionais, as medidas de flexibilização da quarentena expõem os interesses únicos e exclusivamente monetários de uma minoria que visa lucro pra quem? E quem não quiser trabalhar que fique em casa P*, não é biroliro? Aguardemos mas, aparentemente, não na sala de espera.