Moda


Wanessa Yano ︎



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© Chris Abatzis/ DTS

Exercícios Oxunicos para fazer parar a ciranda colonial



O tal “giro decolonial” tá mais pra uma roda gigante das bem colonialistas. Mas tem um jeito de interromper essa cantiga.


Sabe quando usamos aquela frase “na teoria é bom, na prática, nem tanto”? É nesse caminho que atualmente segue o conceito “giro decolonial” dentro da moda: sutilmente, ele se transforma em uma “ciranda colonial”, com discursos que só fazem reforçar a desigualdade e que objetivam única e exclusivamente alcançar novos públicos, visando aceitação pública com devolutivas financeiras. A estrutura interna segue no mesmo círculo colonialista. A “violência aqui, torna-se um componente da etiqueta". Como desfazemos esse pacto?

Sabemos que, para o discurso ter efetividade prática, é necessário disposição. Em outras palavras, trabalho duro! Compreendo o lugar do não-lugar fixado e da unidade absoluta, dada na concepção binária universalista, onde o "’real’ e o simbólico foram herdados do iluminismo”. Essa forma de ver o mundo faz parte de nós, nas formas com que enxergamos a beleza do mundo. Por isso, nesse tempo em que vivemos, o exercício filosófico de Oxum — olhar para si mesmo através do espelho e encarar as suas próprias verdades — é pra ontem!

E ao falarmos de moda com esse viés, trazemos esse processo estético e imagético, vinculado à formação de identidades — ou à dissolução delas — por meio do vestir, ou da tentativa de se encaixar no mundo. Observar essas questões através do exercício Oxunico não é tão animador, ou positivista. Contudo pode ser significativo, se identificarmos esses aspectos colonialistas presentes das estruturas ditas como decoloniais.

Notavelmente, a necessidade de pertencer à contemporaneidade decolonial tem feito com que grandes circuitos de moda se sintam convocados a incluir as minorias dentro de suas narrativas. Mas a inserção sem responsabilidade social não é decolonial, e sim superficial. O hall da moda e a teoria da universalidade parecem longe de serem separadas. A roda gigante se torna mais nítida à medida que encaramos o quão obsoletos alguns processos industriais são.

Pense, por exemplo, no apego do fast fashion em desdobrar ideais universalistas de forma massiva, o que é desolador de se pensar, o que dirá analisar tal postura de quem ainda mantém o discurso (ou modos operandi) de escravidão. Criadores ainda estão presos a um looping de paixão a movimentos culturais que reforçam valores eurocentristas como o renascentismo europeu.

Milton Santos, ao cunhar o conceito de “globalização solidária”, disse que "há uma busca de uniformidade, a serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.” Estamos operando dentro dessa roda, sem levar em consideração a partição do mundo, durante a Guerra Fria, em primeiro, segundo e terceiro mundo. Sendo assim, vivemos  “a existência de pelo menos três mundos em um só.”

A pluriversalidade para levar a moda para o pós-discurso não pode ser apenas um ensaio poético, sobre o que precisamos vivenciar na moda nos dias de hoje; é preciso tomar ações cotidianas em busca da igualdade e equidade. É preciso que essas ações sejam vistas em todos os âmbitos da moda, lembrando que a representatividade é diferente de visibilidade.

Ao caminharmos para uma ótica mais positivista, enxergamos a inclusão como algo importante, mas a devolutiva econômica aos ecossistemas minoritários é uma ação eficiente ao discurso colonial. Como romper com essa lógica? O caminho pode estar em uma descentralização promovida de dentro da fora; inseridos no mainstream para cumprir a cartilha da diversidade, sujeitos historicamente marginalizados têm elevado suas comunidades e promovido mudanças estruturais que vão além do escopo das marcas, agindo como hackers.

Um exemplo disso é a presença do estilista Isaac Silva no SPFW trazendo em suas coleções desde a reivindicação da histórias do Egito ao Brasil com a coleção “Axé”, e “Boca da Mata”, que apresenta questões do extermínio da população indígena no Brasil. Além dele, temos a presença do projeto Sankofa que apoia estilistas e criadores negros, como a marca Az Marias, Ateliê Mão de Mãe, Santa Resistência, Meninos Rei, entre outros.

No ano de 2020, a estilista Angela Brito, cabo-verdiana radicada no Brasil há mais de vinte anos, apresentou no SPFW a coleção “Identidade”. Nela, Angela trouxe o pano di terá ou pano da terra, tecido tradicional de Cabo Verde, para transcrever a sua trajetória e tradição.

No mesmo ano, Virgil Abloh apresentou  “Ebonics”, sua coleção masculina para a Louis Vuitton. Ali, ele trouxe a sua experiência identitária como filho de imigrantes ganeses nos EUA, e recriou um dos tecidos tradicionais de Gana, o Kente.

Já em 2021, a Pyer Moss, na Semana de Alta Costura de Paris, e a marca sul-africana Thebe Magugu, na PFW, comunicaram suas origens em um ambiente hostil, construindo uma verdadeira utopia. Afinal, apenas uma pequena parte das marcas presentes dialogam ou atuam efetivamente em relação a questões sociais de raça, gênero e classe. Nesses eventos, o que não é lido como ocidental é tido como “emergente”.

Kerby Jean-Raymond, à frente da Pyer Moss, precisou recontar a história afro-americana e pontuar questões atuais com o discurso de EIaine Brown — líder do Partido dos Panteras Negras. Ele também potencializou a intelectualidade das pessoas negras e as suas contribuições para a humanidade.

O sul-africano Thebe Magugu trouxe a valorização de sua origem e herança cultural, abrindo o diálogo para que percebamos o quanto a tradição e a pós-modernidade estão vinculadas e presentes dentro de um aspecto ocidentalmente utópico. Como introduzimos, onde tudo que está longe de ser eurocêntrico é classificado como “emergente”, é forte a noção de que aqueles que surgem brotam “do nada”, como se não possuíssem uma história. A coleção Genealogy, que parece utilizar de um tom de ironia, ao fazer parte da PFW, reivindica a nobreza presente em sua história, que não encaixa diretamente aos modelos de nobreza constituídos pelas maisons.

O que diferencia essas marcas das movimentações coloniais a as mantêm decoloniais não é apenas o fato de serem racializadas, mas a estrutura do seu ecossistema de produção; eles são pluriversais por atuarem de forma descentralizada, rompendo com a estrutura desigual dos sistemas hegemônicos. Por isso, podemos perceber que as movimentações sociais na pós-modernidade carregam consigo a legitimidade do discurso daquele que vive o que fala. É válido lembrar que há uma insurgência em andamento, e como disse Lélia González: “Agora o lixo vai falar, e numa boa!”

Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.