Especial SUSTENTABILIDADE


André Alves/ Float ︎



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© Mackenzie Freemire/ DTS

Lógica sustentável: teríamos chegado ao fim? parte 01.



Se por um lado a sustentabilidade nunca pareceu tão urgente, por outro, parece um conceito insuficiente para os jogos políticos, cenários caóticos, dilemas éticos e políticos, narrativas de divisão e conflitos com o consumo que enfrentaremos na próxima década. Por muito tempo, acreditamos que ambientalistas bem-intencionados, reciclagem, segundas-feiras sem carne e consumo responsável evitariam a crise climática. Esse tempo se foi, acabou, chega, change.

Nos próximos anos, a humanidade será confrontada com grandes dilemas. por um lado, debates cada vez mais frequentes sobre a geoengenharia, intervenções em grande escala no sistema climático para mitigar os efeitos do aquecimento global — a solução para o desastre climático seria intervirmos ainda mais no meio ambiente? Por outro lado, as projeções das consequências climáticas vão ficando mais impactantes, como os prováveis 200 milhões de migrantes climáticos em 30 anos (Acnur). Nesse contexto, o único consenso talvez seja que a fantasia neoliberal da sustentabilidade prêt-à-porter tenha chegado em seu limite.


A dança climática


Imagine sentir tanto calor que se torna impossível dormir e você leva seu colchão para o terraço do prédio para tentar dormir a céu aberto. Agora imagine que seus vizinhos têm a mesma ideia; os terraços da cidade estão apinhados de colchões, corpos suados e insones. Uma onda de calor que torna impossível andar debaixo do sol; só seria possível se locomover na sombra e à noite.
O barulho dos aparelhos de ar-condicionado é quase ensurdecedor e cada cidade torna-se um grande motor, tentando dar conta das altas temperaturas. Aparelhos demais, falta energia, quem pode se vira com geradores à diesel e à gasolina. Pesadelo para quem um dia sonhou com matrizes de energia limpa.

A única solução parece ser buscar refresco em rios e praias (lotadas), mas a temperatura das águas vai se tornando insuportável, capaz de literalmente ferver corpos humanos. Está quente e não há para onde ir nem o que fazer. o cenário é tão extremo que as pessoas morrem de calor; morrem mais pessoas do que as autoridades dão conta de recolher e enterrar. as ruas estão repletas de corpos de quem não aguentou. Está quente demais. 

Cenas como essa fazem parte do primeiro capítulo de Ministry of the Future, livro de Kim Stanley Robinson lançado em 2020 que rapidamente se tornou um dos maiores expoentes de cli-fi (gênero de ficção sobre a catástrofe climática). Cada página é um nó na garganta, a angústia infinita “precisamos fazer alguma coisa”. o embasamento científico e o talento literário Robinson, assim como muitos autores de cli-fi, têm mudado o tom sobre o cataclisma climático — a questão não é mais “e se?”, mas quando, quantos e como vamos lidar com as consequências desses cenários. como vamos dançar a dança climática?

A metáfora da dança foi amplificada durante a pandemia do novo coronavírus pelo engenheiro e escritor Tomas Pueyo. Nessa analogia, uma das partes mais difíceis da pandemia da COVID-19 é a dança forçada com o vírus — aliviar e endurecer medidas, fechar e reabrir setores da sociedade conforme o aumento e a diminuição dos casos. Independentemente do nível de negação e de sucesso no combate ao vírus, todos os países tiveram de definir sua dança. Uma dança que vamos continuar dançando até que tenhamos conseguido acabar com o vírus em todos (!) os cantos do mundo.

Para muitos cientistas e ativistas, a dança com o coronavírus foi um grande ensaio para enfrentarmos o maior desafio já vivido pela humanidade: a crise climática. A transformação do clima está posta e, segundo muitos especialistas, agora trata-se de uma corrida de contenção de danos. Conforme aprendemos com a pandemia, a parte mais difícil é se preparar para os eventos de choque que interrompem a dança e nos obrigam a mudar completamente a estratégia.

Assim como um vírus ou novas variantes, ondas de calor fulminantes, tempestades catastróficas e outros eventos não vêm com um grande sobreaviso. O planeta vai esquentar. a questão é: quantos graus conseguimos “segurar”? Muitas espécies vão deixar de existir — quantas conseguimos salvar? Muitas cidades grandes se tornarão inabitáveis — o que fazer para realocar tais populações?

Como escreveu Ailton Krenak, autor de grandes obras como Ideias para adiar o fim do mundo e O amanhã não está à venda, “alunos do campus todos estão querendo saber essa história de adiar o fim do mundo. Eu respondi: ‘eu também’.” Todos nós estamos.

Sabemos que, como sociedade, estamos despreparados — a questão é: o quão despreparados? E quem pagará o preço do despreparo?

Ecofobia: quem vai nos salvar?


As cenas descritas em obras de cli-fi parecem cada dia mais plausíveis. Basta acompanhar as notícias para comprovar: nevascas no Texas, incêndios no Pantanal, inundações na China, ondas de calor da França à Índia, aviões que não conseguem decolar porque o calor é intenso demais. Sobram imagens de desastres ambientais, mas essas imagens parecem não produzir o mesmo efeito em nós. É como se inferno não fosse mais o apocalipse distante, e sim mais um filtro do Instagram.

⁣⁣Catástrofes naturais eram uma ameaça iminente. hoje, são a norma. ⁣⁣Segundo Mark O'Connell do Guardian, vivemos uma dissonância cognitiva entre evidências científicas e percepções imediatas, já que não conseguimos conectar o derretimento das geleiras com um dia frio bem no meio de janeiro. ⁣⁣nesse contexto, o tom preventivo do ambientalismo das décadas passadas subiu; tornou-se mais urgente, levemente desesperado e até agressivo. A ecologia tornou-se ECOFOBIA. ⁣⁣

ECOFOBIA é a sensação de que o mundo está em colapso, só que em câmera lenta. é o paradoxo de “por onde começar” VS “nada que eu faça vai adiantar”. ⁣⁣ECOFOBIA é 95% da população mundial respirar um ar que é considerado perigosamente poluído. É também sentir medo do futuro: se o planeta está sendo destruído, quais as consequências? No início da pandemia causada pelo coronavírus, muitos apelaram para a carta “a natureza está se curando”, mas alguns também levantaram uma hipótese mais sombria: e se a natureza estiver se vingando?

 “Nós somos o vírus” — ao longo do último ano, ganhou mais força uma narrativa que coloca em cheque a forma como grande parte da humanidade vem habitando a Terra. Como sentenciou Ailton Krenak em uma de suas proféticas entrevistas, “a gente pegou uma trilha da industrialização que virou um vício, parece que estamos fascinados com a velocidade da invenção de novos aparatos, de novas coisas, sendo que não precisamos dessas coisas. (...) Toda essa evolução deu errado em vários sentidos, porque a única coisa que prolifera indefinidamente, sem nenhuma expectativa interna de autocontrole, é a doença, é o câncer, é o vírus.”

Nessa perspectiva mais distópica, ganha força a mentalidade sobrevivencialista, tendência global com ecos no Brasil em que indivíduos ou grupos (survivalists ou preppers) se preparam ativamente para emergências iminentes, como se o apocalipse zumbi estivesse prestes a acontecer. Enquanto isso, bilionários constróem bunkers de luxo para escapar quando o caos reinar, movimento particularmente popular no Vale do Silício. Há ainda um terceiro caminho de uma nova corrida espacial, dessa vez liderada por “innovators” excêntricos, cujo objetivo é encontrar nosso próximo planeta-casa — ou um novo hospedeiro para a humanidade parasitária. 

É como se World War Z, Snowpiercer e Interstellar fossem narrativas paralelas com uma origem comum: o planeta Terra como ambiente hostil que nos dá medo e nos desafia a buscar novas formas de sobrevivência. Curiosamente, as 3 narrativas também partilham modelos que replicam muitas das desigualdades atuais, futuros em que não cabe todo mundo. Uma carona para Marte pode até ser possível em algum momento (brilha, Elon Musk), mas convenhamos, nem eu e nem você conseguiríamos pagar a passagem.

Guerra climática, catástrofe climática ou evolução climática? A guerra de narrativas sobre a mudança do clima é problemática porque muitas vezes impede que as pessoas consigam enxergar as reais consequências de tudo isso. Jogo esse que se torna ainda mais complexo com a quarta narrativa: o negacionismo.

A negação do aquecimento global e suas consequências é, segundo muitos especialistas, como o cientista Michael E. Mann,  a mais bem financiada e organizada campanha de Relações Públicas da história; uma articulação quase imbatível entre a indústria de combustíveis fósseis, políticos conservadores e veículos de comunicação. No balanço geral, enquanto a cultura tenta decidir se nosso salvador será Bill Gates, Greta Thunberg, Elon Musk ou Ailton Krenak, figuras como Ricardo Salles seguem passando a boiada. e terras no meio da floresta Amazônica seguem sendo vendidas via marketplace no Facebook. ︎

André é escritor, consultor e pesquisador na @floatvibes, um hub de cultura, comportamento e estratégia.

Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.