Especial SUSTENTABILIDADE


André Alves/ Float ︎



Imagem:   

© 3D motion/ ADOBE STOCK

Catastroficismo ambiental parte 02.


Do apocalipse bíblico ao fim do calendário Maia, a humanidade sempre foi obcecada pela narrativa do fim do mundo, mas parece que ultimamente temos exagerado na dose; um interesse que parece ter sido potencializado pelo tsunami de más notícias trazido pela pandemia. Muitos de nós nos tornamos viciados em doomscrolling, o ato de consumir grandes quantidades de notícias negativas de uma vez só. é como se estivéssemos viciados em catastroficismo.

Ainda que muitos não acreditem na emergência climática, talvez o maior trunfo do negacionismo seja sua capacidade de fazer que muitos dos que acreditam na crise climática acabem “aceitando” que nada pode ser feito. Como se a catástrofe fosse inevitável. para um contexto que demanda atitudes urgentes, nada pode ser tão perverso quanto incentivar que não se faça nada. 

Como afirma Michael E Mann, um dos cientistas mais influentes na discussão climática e também autor do otimista livro The New Climate War, a perspectiva catastroficista é um dos nossos maiores inimigos na luta climática, uma ameaça tão perigosa quanto a negação. Para Mann, “os inativistas sabem que se as pessoas acreditam que não há nada que se possa fazer, serão levadas ao desengajamento.” é como se a narrativa do “é tarde demais” transformasse boas intenções e desejos de mudança em desilusão e desespero. Perspectivas catastróficas e notícias negativas também podem ser altamente viciantes.

Pela ótica da psicanálise, humanos são igualmente capazes de destruir e de amar, eros e thanatos, pulsão de morte (o nirvana da estagnação) e pulsão de vida (busca pelo movimento). Se muitas vezes buscamos amenizar o conflito e até negar o medo, há ainda aqueles que substituem o medo de fora pelo exagero das angústias interiores. As ameaças tornam-se tão grandes que anabolizam nossos complexos infantis, tornando-nos ainda mais indefesos, perdidos, angustiados e desamparados. nos sentimos pobres coitados sem nada a fazer.

Historicamente, manipular indivíduos deprimidos é sempre mais fácil que tentar controlar os engajados. Aqui a crise climática e a pandemia se encontram novamente: as ações negacionistas e lideranças irresponsáveis na pandemia levaram a consequências desastrosas que ficaram muito evidentes. Além de terem fomentado um contexto de revalorização da ciência.

No entanto, estamos em um momento específico da história em que se torna cada vez mais difícil negar a mudança climática porque as pessoas podem vê-la se manifestando em tempo real diante de seus olhos. não importa se você é sonhador, catastroficista ou terraplanista, o planeta de fato não parece bem


Novos dilemas climáticos



Em um mar de notícias negativas, 2021 se iniciou com uma onda otimista na crise climática, movimento provocado pelo pacote de medidas e ações afirmativas ao meio ambiente do governo Biden, nos EUA, que surpreendeu até os ambientalistas. Mesmo assim, muitos questionam se as mudanças propostas serão duradouras, já que vivemos um eterno dia da marmota em que andamos 3 casas para depois voltar 2 (ou 6?) no tabuleiro climático. 

Como declarou a jornalista Elizabeth Kolbert em uma entrevista recente, muitos especialistas têm dito que o sistema político global atual não é capaz de agir na velocidade necessária para reverter os danos ambientais e suas consequências — e os últimos 30 anos são uma prova deprimente disso. Nesse cenário, restam opções pouco animadoras: geoengenharia e soluções tecnológicas como “escurecer o sol”; ditaduras do carbono em que sanções flertariam com autoritarismo; energia nuclear como uma das únicas formas de acabar com combustíveis fósseis. Ou deixar tudo caminhar para o colapso mesmo.

Em todos os caminhos, paira no ar um sentimento de que já passamos do ponto de reversibilidade, o que nos torna uma espécie sem precedentes: ninguém fez um estrago do tamanho dos humanos. para muitos, o núcleo do problema está nos líderes (de sempre) e sua insistência em continuarmos tentando resolver um problema complexo com o mesmo sistema que nos trouxe até aqui, o capitalismo neoliberal. A crise climática também é uma crise de liderança e de ideologia.

“Nosso pensamento foi reduzido a isto: essencialmente uma análise e julgamento neoliberal da situação neoliberal. É a estrutura do sentimento em nosso tempo; não podemos pensar em nada além de termos econômicos, nossa ética deve ser quantificada e avaliada pelos efeitos que nossas ações têm sobre o PIB. Diz-se que essa é a única coisa com a qual as pessoas podem concordar. Embora aqueles que dizem isso sejam muitas vezes economistas.” — kim stanley robinson em “ministry for the future

O aumento na frequência de secas, inundações, ondas de calor e de migração em massa nos desafiarão a operar novas mentalidades. Em primeiro lugar, questões ambientais passarão a ser o centro de debates sobre política, relações e consumo; o meio ambiente irá deixar de ser uma pauta para fazer parte de todas as pautas. Dessa forma, teremos de usar um novo vocabulário, no qual 3 expressões serão fundamentais: a justiça ambiental, a violência climática e o sofrimento climático. 

Justiça ambiental é um conceito relativamente antigo, mas ironicamente urgente. É uma forma de tratar o aquecimento global como um problema ético, político e social. Está claro que as decisões políticas e econômicas afetam pessoas de diferentes gêneros, etnias e renda de forma desproporcional. Se indivíduos e sociedades são beneficiados e prejudicados pela crise climática de formas desiguais, quem deve ser responsabilizado e penalizado?

A violência climática é um produto dessa equação desbalanceada, geralmente o resultado de uma colisão entre as condições climáticas extremas e as realidades sociais precarizadas. Tudo isso potencializa reações mais radicais, por um lado, pobreza, negligência do Estado e abandono fazem com que realidades tornem-se mais violentas. Por outro, a postura pacifista do Greenpeace cede lugar para a desobediência civil radical da Extinction Rebellion.

Trata-se de um cenário em que definições como “crimes ambientais” também demandam atualizações. Quem é mais criminoso: indivíduos que lucram com a exploração de combustíveis fósseis ou indivíduos que bombardeiam usinas de carvão e plataformas de petróleo para “cortar o mal pela raiz”? O que é mais violento nesse contexto?

É claro que o sofrimento produzido por essas mudanças também é essencial na discussão. por muito tempo, a ala negacionista e/ou mais neoliberal pregou que desastres ambientais fazem parte da evolução, concluindo que seres humanos são capazes de se adaptar. a questão é quais humanos serão forçados a se adaptar, como e com quais recursos? Casas de milionários podem queimar na Califórnia, mas um incêndio na Índia ou no Brasil certamente afetará a frágil estrutura social de mais pessoas.

Como afirmou a cientista Katharine Hayhoe em uma excelente entrevista a CNN sobre as respostas às nevascas no Texas, há 1) mitigação: redução de emissões;  2) adaptação: alteração de sistemas; e 3) o sofrimento. frente à crise climática, a sociedade escolhe uma dessas 3 opções. Mas a verdade é que, especialmente para indivíduos pobres e/ou não-brancos, a sociedade segue optando pelo sofrimento.

Nesse cenário, surge um questionamento mais complexo: quem deveria liderar as mudanças — ou as tomadas de decisão — não deveriam ser os que mais sofrem?

André é escritor, consultor e pesquisador na @floatvibes, um hub de cultura, comportamento e estratégia.

MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.