MATUTAS SOFT



Gabriela Campos ︎   Igi Lola Ayedun ︎



Bolaji Badejo, 1979, ALIEN por Ridley Scott.

Mas é no escuro que se canta.


Se liga nessa aqui: a imagem como difusora do embranquecimento da verdade num futuro pós-pandemia.


Em abril deste ano, período em que a própria Itália se consolidava como epicentro mundial da COVID-19, a revista VOGUE italiana trouxe à edição do mês uma capa toda branca sem nenhum personagem. Essa edição do mês de Abril surgiu acompanhada de um discurso que aclamava a cor branca como a principal resposta, onde a escuridão, enquanto tonalidade opositiva, não seria válida ao ideal de recomeço requerido pelo tempo presente: “O branco é o renascimento, a luz após a escuridão, a soma de todas as cores [...] Branco relembra quando, após a crise de 1929, essa cor imaculada foi adotada para as roupas como expressão de pureza no presente e de esperança no futuro.”, afirma Emanuele Farneti, em seu anúncio no perfil de Instagram da publicação. Nos últimos meses, o meio televisivo tem se dedicado intensamente à uma programação de debates que visam propor caminhos do amanhã, inclusive a CNN BRASIL possui em sua grade uma atração exclusivamente dedicada ao futuro,  "MUNDO PÓS PANDEMIA", que desde seu lançamento centralizou os debates apenas em personalidades/profissionais/especialistas não-racializados como fontes de conhecimento das novas perspectivas de futuro. Ainda em território brasileiro, quando o Movimento BLACK LIVES MATTER eclodiu, surpreendendo a militância de internet que não sabia que sua fundação datava de 2013, a primeira cobertura feita sobre as manifestações pela GLOBONEWS foi com uma mesa composta unicamente por homens cis não-racializados. E mesmo quando a pauta viral do Brasil era o antirracismo, o antifascismo tomou a frente das discussões relativizando as pautas raciais.

No Reino Unido, conforme as manifestações do BLM se espalharam pelo mundo, o poder público tomou algumas atitudes para tentar acalmar os ânimos da população: como a indicação de Munira Mirza para a comissão de desigualdade racial, feita pelo primeiro ministro Boris Johnson. Sim, estamos falando da mesma Munira Mirza que duvidou da existência do racismo institucional deixando no rastro de seu novo cargo uma série de controvérsias. Já nos Estados Unidos, o que podemos dizer do "manifesto solidário" feito pelos Democratas no congresso novaiorquino? Em apoio aos protestos contra a violência policial, após a aprovação da nova lei de policiamento, houve uma performance em que vários congressistas usando estolas em padronagem KENTE, um dos têxteis mais tradicionais da cultura de Ghana, ajoelhavam-se por 08m46seg no saguão principal em analogia ao tempo exato em que o policial Derek Chauvin permaneceu sobre o corpo de George Floyd. Enquanto, do outro lado do ringue da consciência, uma parte do poder estadunidense parece não ter compreendido que, 52 anos após outra coalizão histórica entre pandemia e urgências sociais, como aconteceu em 1968 com a gripe de Hong Kong e a ascensão do PARTIDO BLACK PANTHERS, as pautas raciais precisam de abordagens futuristas mais profundas para além da simples manutenção da "lei e da ordem".

JÁ VIMOS ESSE FILME.


No continente africano como um todo, além dos protestos motivados pela morte de George Floyd, que levaram países como o Quênia a contestar a violência policial local, a herança da colonização territorialista não cessa práticas hediondas que têm se intensificado, também, entre diversos países. A pandemia do novo Coronavírus, que parecia estar comendo pelas beiradas por lá, de uma hora pra outra, deu um salto assustador no número de infectados diários. Com isso, o presidente chinês Xi Jinping, na liderança da CÚPULA EXTRAORDINÁRIA China-África entre Senegal, China, África do Sul e a cadeira rotativa da UNIÃO AFRICANA, estendeu uma mão amiga, aparentemente, generosa e estratégica ao continente. Em declaração sobre a "solidariedade" e resiliência dessa aliança, Xi afirma se opor à politização, a estigmatização da COVID-19, e à discriminação racial de viés ideológico, permanecendo firme em nome da equidade e justiça no mundo. Olá, interseccionalidade, é você? E o que parece ser um princípio de colonização nos moldes tradicionais: palácios e empréstimos em troca de recursos como o petróleo, por exemplo, poderia ser uma relação neutralizadora contra quem ousar atravessar a China em sua escalada ao topo do mundo? Será que as fichas apostadas no buying revenge chinês pós-corona no mercado de luxo saberiam responder?

No Ocidente, quando o distanciamento social foi indicado pela OMS como melhor método de diminuir o contágio e o número de mortos de determinados países puderam ser comparados ao de vítimas de guerra, a reação instantânea de muitas instituições foi "Ah, vai ficar tudo bem, é só uma fase", "Ok, vamos renascer ainda mais fortes". Mas, espera, renascimento pra quem? E de que? Se trocando em miúdos o RENASCIMENTO, como movimento artístico cultural, era li-te-ral-men-te uma ode à ANTIGUIDADE CLÁSSICA e as suas dominações através da dobradinha revisionista Grécia/Roma?

O período de movimentação renascentista diz muito sobre a estrutura da hegemonia branca: seja nas guerras antigas da Grécia, ou do processo de escravização e dominação em África, ou até mesmo durante a identidade ariana estabelecida por Hitler na década de 30/40 que utilizava os ideais clássicos como principal pilar aspiracional anti-semita, nos levando ao neonazismo contemporâneo de KARENS, vistas defendendo suas propriedades, com armas de fogo, durante os protestos pacíficos do BLM. Outro aspecto recorrente em situações similares ao longo da história é uma espécie de comportamento estranho da humanidade pós-alguma-situação-transformadora, tipo a explosão de cabarés e bares na década de 20 pós Gripe Espanhola. Contudo, essas práticas hedonistas escancaram privilégios e esse sentimento de que só o rompimento brusco com o passado é a solução, é um luxo que apenas pessoas brancas podem se dar enquanto fazem yoga no meio da tarde e suas empregadas racializadas preparam a quarta refeição low carb do dia.

PAPO DE MILLENNIAL.


Renascer, voltar ao normal, evoluir ou se regenerar são projeções de parte do imaginário de futuro construído tranquilamente pela indústria da dramaturgia, do cinema ao gibi, de ficção científica há décadas. Em muitos dos casos, inclusive, crescemos assistindo o incentivo firme muito próximo da cultura colonialista quimérica, que insiste na construção dicotômica entre o bem [dominantes] e o mal [dominados], somado às batalhas de soberania e resistência, as quais no fim quem salva ou precisa ser preservado são pessoas/povos/culturas oriundos do poder hegemônico. O artista Arthur Jafa possui uma construção de trabalho toda baseada na subversão dessas narrativas, diante do futurismo ficcional entre a pós-existência e tecnologia. Se em "LOVE IS A MESSAGE, MESSAGE IS DEATH", Jafa centraliza e traduz, de maneira refinada, a complexidade da vida preta na arte para além dos ideais eurocêntricos, em "THE WHITE ALBUM" a câmera muda de ângulo, jogando a responsabilidade no colo de quem se beneficia com a racialização, exatamente como ela é. Em sua publicação, MY BLACK DEATH, Jafa traça um ponto crítico sobre a não-presencialidade preta nas narrativas que protagonizam a ficção científica dentro da história da indústria cinematográfica, questionando a produção sistêmica de sentimentos de aversão ao preto e à escuridão por meio de códigos estéticos que fazem analogias a monstruosidade e, consequentemente, à racialidade preta. Como por exemplo, a construção do personagem ALIEN, interpretado pelo artista nigeriano Bolaji Badejo na trama de Ridley Scott de mesmo nome em 1979. De Kubrick à Star Wars, o preto sempre carrega o peso da vilania, enquanto o escuro é sempre o principal alvo de aniquilação e o alienígena é sempre a força a se temer, entre contos que vislumbram a salvação dos Estados Unidos da América, das relíquias napoleônicas de Paris ou da coroa de Elizabeths.

Hoje, existe uma geração millennial de contadores de história (assim como nós, que escrevemos esse texto) tensionando os arquétipos de opressão na cultura popular por meio da criatividade. Ow, 2018, o que foi o lançamento de BLACK PANTHER, de Ryan Coogler e Joe Robert Cole no mundo? CHAAAAAAAAVE.

De qualquer forma, há um longo caminho até a tão desejada equiparação. Sobretudo diante da persistência de linguagens hegemônicas e supremacistas brancas que em pleno 2020 insistem na reprodução de versões higienistas da história que limitam o espectro social de empatia, liberdade e criação. No início da semana, 06.07, a DIOR exibiu na internet ( de patinete, mascando chiclete) um filme que revelava a nova coleção de Alta Costura da grife, dirigido pelo italiano Matteo Garrone, desenvolvido a partir do ideal aspiracional greco-romano-renascentista citado no início desse texto. “Imagens surrealistas conseguem tornar visível o invisível. Estou interessada no mistério e na magia, que também são uma maneira de exorcizar a incerteza sobre o futuro”, diz Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da marca, sobre sua coleção que foi materializada em imagem e movimento a partir do convite (e da carta branca) cedida ao diretor. O lançamento gerou inúmeras controvérsias tanto pelo desalinhamento de pesquisa histórica proposto pela fábula assumida por Matteo, quanto pelo atual contexto sócio-político no qual o vídeo foi lançado.









No mundo da COVID-19 minorias étnicas atingem, cada vez mais, dados de mortalidade extremamente alarmantes e desproporcionais, comparado aos infectados não-racializados, fazendo com que discutir a pandemia também seja dissecar o debate racial. Assim, quando enxergamos a projeção de futuro sendo, mais uma vez, distanciada de nossas identidades (desde a falta de leitos e saneamento básico, até a não presença de pessoas racializadas nas imagens mágicas futuristas do novo normal), tem como seguir sem problematizar? Sobrevivamos!