SOCIEDADE


Jéssica Amorim ︎




Imagem:  Reprodução

E se uma nação desaparecesse?


O que tem rolado no Iêmen: além de uma pandemia viral, a globalização, desde suas primeiras experimentações, têm contribuído para desaparecimentos concretos e simbólicos de identidades .

O termo “globalização” já virou old school. Esse processo que envolve a mundialização da economia, negócios e mercado (de novo o capital por aqui), muitas vezes soa — ou se vende — como uma proposta de liberdade de infinitos avanços e criações high tech. Mas na real, como a gente já tem visto pela experiência, desde as “Grandes Navegações”, a teoria e a prática têm alto potencial de massificação, e, por consequência, leva ao apagamento cultural e a visões de bolhas limitadas e nocivas.

E ainda que essas críticas pareçam repetitivas, a questão é que mesmo que tenhamos uma discursos contrários a esse sistema, segue sendo preciso pensar o quanto essa “consciência” tem se convertido em ação a partir da vigília dessas ervas daninhas do colonialismo — nunca velho. Afinal, alguns desaparecimentos de lugares e, logo culturas, seguem em andamento, alimentadas inclusive por esse universo “sem fronteiras”.

Não sei se vocês têm acompanhado, mas além de toda a tensão mundial provocada pela pandemia do coronavírus, alguns países e culturas vêm vivenciando outros flagelos dessa globalização. O Iêmen, país do Oriente Médio, por exemplo, vive uma situação de conflito há mais de cinco anos, que já matou mais de 100 mil pessoas; dessas, 12 mil civis, segundo organizações de direitos humanos. De acordo com as Nações Unidas (ONU), essa é a pior crise humanitária em andamento no mundo.

Daí que lidar com uma pandemia viral em condições menos adversas que essa já tem sido um grande desafio para boa parte do mundo, imagina, então, sobre esse cenário? Em setembro, com medo da COVID-19 e com quase nenhum equipamento de proteção individual, a maioria dos médicos abandonou seus trabalhos em Áden, uma das cidades do Iêmen devastadas pelo conflito. Como se não bastasse o recente alerta sobre o perigo iminente do país vivenciar a pior fome que o mundo já viu em décadas.

E para quem não sabe... embora esse conflito seja uma guerra civil, no qual se opõem duas potências do Oriente Médio — forças do governo de Abd-Rabbu Mansour Hadi, apoiadas por uma coalizão sunita liderada pela Arábia Saudita, contra a milícia rebelde huti, de xiitas, apoiada pelo Irã, que controla a capital, Sanaa — a gente não pode ser ingênuo de achar que mais ninguém tem a ver com isso.  Basicamente, é preciso ter em mente que: 1) o Iêmen fica no estreito de Bab-el-Mandeb, que é a rota de navios petroleiros; e 2) nações como Estados Unidos, Reino Unido e França lucram indiretamente com a guerra iemenita, a partir da venda e compra de armas. Inclusive, durante o período eleitoral nos EUA, uma das promessas dos democratas era findar com a participação do país nessas “guerras eternas”.

80% da população necessita de urgente assistência; afinal, quase 4 milhões de deslocados internos, repatriados, refugiados e requerentes de asilo dependem de ajuda humanitária regular para sobreviverem. A ONU segue expressando seu pessimismo sobre a situação.

Enquanto isso, a Google Arts Culture, plataforma lançada no dia 27/09, Dia Mundial do Turismo, dedicada a um tipo de turismo digital, tem ganhado bastante adeptos desde o início da pandemia. A realidade virtual ganha empenho para continuar garantindo recursos e globalização para indústrias de viagem e turismo após o surto de coronavírus. Inclusive, tem uma página dedicada ao Iêmen lá também. Pena que parece ser desatualizada.

No “Descubra esse Lugar” muitas imagens de uma potente e vívida nação e cultura, que hoje tem suas escolas em ruínas. A pergunta que fica é: se o banco de dados tiver salvo o que já foi, tudo bem se não permanece? O nunca velho colonialismo segue encontrando outros lugares para navegar.  ︎

MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.