MODA


Lucas Assunção ︎



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© crimson/ ADOBE STOCK

E COMO VAI ESSA CATWALK PÓS-PANDÊMICA?


Um ano após o início do distanciamento social, o mundo da moda revela o que os desfiles e apresentações de coleção podem ser daqui pra frente.

Em março do ano passado, após realizar uma tensa temporada de desfiles, a Federation de la Haute Couture et de la Mode anunciou que os desfiles da Paris Fashion Week vindouros seriam interrompidos devido à pandemia do COVID-19, movimento que foi seguido por outras organizações, como o Council of Fashion Designers of America (CFDA). Dias antes, a chegada do coronavírus (sempre ele!) à Itália causou apreensão durante a Semana de Moda de Milão e fez com que gente como Giorgio Armani precisasse se virar. Pouco mais de um ano depois — e após uma série de adaptações meio truncadas —, já dá pra entender e mensurar os impactos do isolamento social sobre os desfiles e apresentações.

O CHOQUE INICIAL


A necessidade de repensar o formato de apresentação de coleções deu uma chacoalhada em um sistema que estava há bastante tempo acomodado na mesma lógica. Esse choque inicial causado pelo cancelamento dos desfiles foi um catalisador para uma série de questionamentos que já vinham se desenhando na indústria. Lembra do impacto ambiental causado pelo desfile Spring/Summer 20 da Saint Laurent sobre a baía da Califórnia? Pois é. O distanciamento social reforçou uma necessidade de recalibrar e restabelecer as relações entre marca, mídia e consumidor, e as grifes mais corajosas tomaram as rédeas para si.

Ainda nos primeiros meses da pandemia no Ocidente, o cancelamento de semanas de moda e a evasão do calendário oficial por parte de diversas marcas já sinalizava um esgotamento do formato. Se seis coleções anuais pareciam exageradas no passado, em um mundo em que temos o mínimo de contato social e vivemos uma pandemia que escancara as pautas de justiça ambiental, esse número se torna absurdo.


Além disso, a relevância das semanas de moda era calcada na visibilidade das superproduções de um grupo seleto de grandes marcas — que, hoje, com poderio suficiente para ditar o próprio ritmo, abandonam as semanas de moda.


Bom, se, por um lado, Balenciaga, Gucci e Saint Laurent pulam fora das semanas de moda onde se consolidaram, a Bottega vai além e diz não precisar de redes sociais, lançando a sua própria revista digital. A marca toma, assim, as rédeas de sua comunicação e deixa a presença nas redes por conta da movimentada comunidade de fãs da label.


Para além da necessidade de repensar a logística de desfiles para o âmbito digital, há também uma certa inquietação em torno de quais espaços virtuais explorar e como incorporar suas linguagens. A Celine, por exemplo, resolveu apostar nos TikTokers para ir além da exaustão trazida pela estética instagramável. Em dezembro do ano passado, a Balenciaga pulou fora das plataformas tradicionais para apostar no jogo Afterworld: the Age of Tomorrow, onde apresentou sua coleção de Outono 2021.


NÃO-TÃO-NOVOS FORMATOS DIGITAIS


O retorno das fashion weeks veio na metade do ano de 2020, sob a premissa do “Phygital”, entre apresentações digitais e físicas, com medidas restritivas.

Nesse primeiro momento, o que dominou as semanas de moda foram grandes apresentações e filmes quase épicos por parte das marcas. Teve de tudo: de delírios escapistas a confabulações distópicas. Os destaques ficaram por conta do Inverno 20 da Alta Costura da Dior —  que, com uma floresta encantada, celebrou o théâtre de la mode  e o savoir-faire da alta-costura francesa no pós-guerra —, do cinéfilo GucciFest e do existencialista “AMOR FATI”, da Marine Serre. A lógica de criar superproduções, com histórias e recursos audiovisuais densos, vem de uma tentativa de cativar o consumidor pela narrativa e pelo encantamento, já que, na prática, ninguém realmente precisaria de novas roupas de luxo durante o isolamento social.

Algumas temporadas depois, as marcas parecem ter voltado a algumas fórmulas tradicionais, mesmo aqui, no universo digital. As apresentações dos últimos meses são menos sobre filmes e formatos inovadores e mais sobre os bons e velhos desfiles, formatados para ter maior afinidade com a telinha. Afinal, em tempos de repensar prioridades e primazia pela funcionalidade, moda é sobre roupas, antes de ser sobre arte. Para o espectador médio, que desde sempre viu desfiles digitalmente, essa conclusão não é tão estranha assim.

Não dá para dizer, no entanto, que não houve mudanças. Olhar para as apresentações como um formato primordialmente digital gera a necessidade de se criar um produto que seja mais atrativo nesse formato, e isso aparece nos detalhes. Entre as diversas apresentações digitais, as que mais enchem os olhos são as que remontam aos encantos tradicionais dos desfiles, mas abusam dos recursos audiovisuais e da pós-produção para gerar produtos ainda mais interessantes. O Spring Summer 21 da Mugler é um bom exemplo: em um galpão escuro, com casting de peso, o que parece se anunciar é um desfile comum. Mas, pra nossa surpresa, um time de dublês realiza acrobacias e malabares como as próprias modelos e finalizam com um banho de água em Hunter Schafer, tudo rebobinado para acontecer de trás para frente. Já a collab BalenciagaxGucci, revelada nesta quinta-feira (15/04), convocou a maga dos videoclipes Floria Sigismondi para firmar seu lugar como evento pop e fazer um comentário debochado sobre o escapismo pandêmico.

ESCAPISMO, DE NOVO E DE NOVO



É verdade que compramos mais quando estamos frustrados, mas essa máxima só se faz verdadeira quando o consumo aparece enquanto perspectiva de melhora, de instigar desejos. Talvez por isso, o tão falado “Escapismo” dite o tom das coleções das marcas — e não apenas das gigantes do luxo —, desde o início da pandemia até os dias de hoje. Seja no elogiado surrealismo de Daniel Roseberry para a Schiaparelli ou nas interpretações literais de cenários intergalácticos e aviões da Balmain, o desejo é de ir para outro lugar, real ou não.

A promessa de vacina para todes e o início da vida pós-covid em alguns países — realidades ainda muito distantes para o Brasil, como você pode conferir no nosso Status Covid — parece acender uma faísca de esperança (ou saudosismo?) na moda. A apresentação para o outono 2021 da Kenzo nos lembra cenas fáceis de serem encontradas em uma festa de techno, de Berlim a São Paulo.

Enquanto as grandes marcas parecem finalmente navegar bem a logística das apresentações em meio ao isolamento social, as semanas de moda em si enfrentam um momento mais complicado. Com apresentações digitais e sem os benefícios do presencial, as fashion weeks podem se tornar obsoletas e arriscam ser nada mais do que agrupamentos temporais de lançamentos.





MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.