ESTÉTICA


Ana Carolina Rodarte ︎




Imagem: Reprodução

Damnatio demoriae decolonial


Uma convocatória a movimentos artísticos para um mundo em ruínas.


No ano de 31 d.C., o Chefe da Guarda Pretoriana e um dos homens mais temidos do império romano, Lúcio Élio Sejano, foi executado a mando do então imperador Tibério. A cena foi dramática. Para expurgar o mal que o chefe da polícia imperial havia imposto a tantas pessoas, o povo romano “arremessou, espancou e arrastou todas as suas imagens, como se estivessem maltratando o próprio homem”, descreveu o historiador Cássio Dio. Esse gesto, definido pelo professor de história da arte Verity Platt, como damnatio memoriae (“condenação da memória”, em tradução livre), voltou a ocorrer milhares de anos depois, em Bristol, na Inglaterra, quando integrantes do movimento Black Lives Matter derrubaram uma antiga estátua de Edward Colston, um traficante de escravos do século XVII. O pedestal foi temporariamente ocupado pelo artista Jen Reid.

De uma maneira um tanto menos catártica, as manifestações populares também atingiram as bandeiras. O estado americano de Mississippi, até outro dia, ainda ostentava o símbolo confederado entre suas listras. Após as discussões levantadas pelo Black Lives Matter, foi aprovado o projeto de lei que remove a cicatriz escravagista da bandeira. A nova representação já foi escolhida, e será apresentada ao público em novembro deste ano.

O episódio de Sejano nos mostra que não é a primeira vez que a população se apropria de monumentos e imagens para demonstrar a sua oposição a líderes e /ou valores que insistem em reger a ordem social. É a primeira vez, contudo, que essa prática ocorre em um contexto dominado por imagens e tecnologias digitais. Igualmente inéditas são as incertezas deixadas sobre os pedestais das estátuas destruídas.

O que vem depois do fim?


Embora a derrubada de símbolos coloniais seja catártica para alguns, ela também desperta insegurança entre alguns historiadores: afinal, será que a simples remoção desses ícones não nos levaria a um apagamento da nossa história? Em entrevista ao podcast Folha Ilustrada, de um dos maiores grupos jornalísticos do Brasil, a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz sugeriu que esses monumentos sejam politizados. Para ela, eles deveriam ser deslocados para museus e substituídos por dispositivos paralelos, que permitissem à população refletir sobre a violência trazida por esses monumentos.

Lá nos anos 70, longe de todas as possibilidades e paranoias trazidas pela era digital, o dramaturgo, político, artista e criador do Teatro Experimental do Negro (1944) e do Museu de Arte Negra, Abdias Nascimento, propôs um exercício similar e reinventou a bandeira brasileira. Ele a colocou na posição vertical e substitui o lema positivista “Ordem e Progresso” pela expressão ioruba “Okê!” — uma saudação a Oxóssi, orixá da fartura e da caça.

Muito além da catarse, a derrubada de símbolos coloniais em todo o mundo é a sublimação de uma sociedade pautada pela imagem em busca do novo. O antropólogo Bruno Latour usa o termo “Iconoclash” para descrever o momento em que, a partir da destruição de imagens, novas são geradas, indicando uma mudança social. Mas, para pensarmos no que pode vir depois do fim, considerando os desdobramentos políticos do que se faz no plano imagético, é também preciso considerar o que o conservacionismo traz para essa esfera de disputas.

As imagens das florestas da Amazônia e do Pantanal em chamas convocam narrativas apocalípticas sob preceitos religiosos. E o fogo que ganha o imaginário popular não alude à “boiada de Salles” — conspiratória demais aos olhos de quem vê no governo de Bolsonaro uma espécie de culto —, mas sim ao prelúdio de um fim do mundo punitivo, um sentimento que se intensifica com uma pandemia em curso. Esse pode ser o momento da resistência progressista apropriar-se da imagética do fogo como um ponto de partida para novas narrativas. As imagens da delegacia de Minneapolis em chamas são um bom exemplo.

Se a era digital explicita a nossa condição de impermanência, a derrubada de símbolos coloniais pelo mundo nos mostra que as imagens ainda ancoram discursos e relações de poder. Estátuas e monumentos, afinal, são sobre a maneira como nos vemos. E, embora ainda precisemos de tempo para entender os impactos desses atos sobre a ordem social, é preciso que artistas se encarreguem de povoar o imaginário com novas possibilidades de futuro, pois o que o conservadorismo impõe encerra-se ao fim. Ocupemos os pedestais.





MJOURNAL ED.004 - FLOR DE CEM, RAIZ DE MIL.