ENSAIO

Raylander Mártis dos Anjos






DESISTIR DE DESISTIR: CARTA PARA ODARAYA MELLO

Odaraya, eu disse que iria lhe escrever uma carta, talvez ela seja um pouco para mim
também.



Escrevo para não deslembrar que precisamos desistir de desistir.

Talvez essa carta encontre destinatários improváveis, quem sabe a designação mais adequada para ela seja inscrição. Se autorizo inscrevê-la no tempo é porque preciso criar memória sobre a gente: eu, você e o improvável. Talvez essa carta seja para quem desconheço e para quem me desconhece.



Preciso inscrever no tempo aquilo que quase deixei de acreditar ou já desacreditei.

Preciso relembrar. Preciso relembrar, como lhe disse em nossa conversa de dobraduras, que autorizar-se é um mecanismo fundante de uma existência transvestygênere.

Essas são palavras que eu mesma escrevivi: escrevi porque vivi e
vivo porque escrevi. E não posso esquecer daquilo que escrevivi através dos buracos
das narinas, da boca, dos ouvidos, dos olhos ou outros tantos buracos que me constitui.







Esse corpo poroso.


Minhas papilas gustativas ardem, meu corpo esburacado clama por um pouco de terra grossa.

Quantas vezes pensei em desistir? Mas desistir não seria virar as costas para aquilo que produz efeito no eu, você e o improvável? Desistir seria abdicar do encanto? Quando você me disse que iria desistir eu me disse que não era possível desistir. Desistir seria desistir de dobrar, esse movimento de encantar uma superfície de papel
e torná-la mais resistente no mundo. Odaraya, é precisamente isso que você faz enquanto dobra uma folha de papel.



— SENDO EU PEQUENO DEMAIS PARA DOBRAR O TRAPO DE MUNDO,
DOBRAREI BÚZIOS COM A VISÃO DE QUE, AO DOBRAR BÚZIOS, ENSEJO
DOBRAR O MUNDO.

Você me sussurra seu encanto.


Ensaio ao alcance das mãos, dobrar o mundo dobrando búzios. Um encanto escuro
no desencanto cartografado. Seria possível descartografar o cafundó em que
habitamos?



Nove etapas descartográficas para o cafundó do mundo.
Nove etapas para dobrar o mundo.
Nove etapas para uma cavidade no plano.
Nove etapas para adivinhar-borrar o meu cafundó.

Te escrevo porque eu preciso saber que sim.

Para produzir coralidades. Vivo, em gesto tenaz de dobrar búzios. Clamor, por mais encanto no plano estratificado do desejo.
Sonhei com você cavando a fundura dos búzios viajantes numa superfície semiopaca de mundo, e é por isso que escrevo. Escrevo para recriar em mim certa fundura nos espaços que foram se achatando, quando aqui se instalou o marinheiro e sua caravela urticante. Escrevo porque você faz retomar em mim a fundura.
Preciso não deslembrar que jurei naufragar o marinheiro e sua caravela urticante. E naufragar o marinheiro e sua caravela urticante não implica em destruição. Implica em recriar fundura no plano do Atlântico, para que uma coralidade se instaure.



Lembrar do retorno ao encantatório desses trapos de mundo, desse mundo despedaçado.
São nove dobras repetidas. Um rasgo luminoso nisso tudo.


Desistir também seria deixar de revirar os termos técnicos, a disforia, o estigma, a terceirização do saber, a cegueira branca, o mundo desencantado.



Talvez seja preciso desistir de desistir.



Se você está indo para outro lugar é porque aqui já não fazem perguntas como antes.
Então vá, à procura de novas perguntas. Leve consigo o encanto para espalhar nesse
mundo desencantado.







Interrupção e corte.







Enquanto escrevia essa carta uma notícia chegou aos meus ouvidos, mais um de nós vem ao chão. Ficarei com o dia em que o vi dançar, porque a sua dança no mundo fez fundura em mim.



Para também Demetrio Campos.
Entre os dias 15 e 17 de maio de 2020.