“Às vezes quero uma coisa, mas o texto se torna outra, é mais ou menos assim, e eu não forço a barra para que eles sejam o que eu quero.” (Cidinha da Silva)


Se você ainda não conhece a escritora Cidinha da Silva, vai acabar conhecendo. Nascida em Belo Horizonte (MG), em 1967, a autora conta com 19 livros publicados em seus 16 anos de carreira, com versões traduzidas em alemão, catalão, espanhol, francês, inglês e italiano. Com uma obra que percorre diversos  gêneros — crônica, conto, ensaio, dramaturgia e infanto-juvenil, entre outros —, Cidinha já foi vencedora do Prêmio da Biblioteca Nacional em 2019, com o livro de contos “Um Exu em Nova York”. Ela flerta ainda com a música, como a composição de “Lençóis” de Luedji Luna.

No mundo além das páginas escritas, a mineira também revela uma impressionante trajetória. Formou-se em História pela Universidade Federal de Minas Geras (UFMG), e é doutora em Difusão do Conhecimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas considera seu percurso na Geledés - Instituto da Mulher Negra, organização da sociedade civil que se posiciona em defesa de mulheres e negros, um ponto alto de seu processo de desenvolvimento e aprendizado. Na organização, Cidinha implantou a primeira ação afirmativa em Educação no Brasil voltada a jovens negros, o programa Geração XXI — que fornecia cursos de línguas e computação, apoio pedagógico e psicológico e acesso a atividades culturais da cidade de São Paulo —, e foi presidenta do instituto entre 2000 e 2002.

Com uma vida e obra de inspirar muitos que vieram antes e que virão depois dela, Cidinha foi convidada pelo MJOURNAL para um rápido bate-papo que você acompanha a seguir:
Foto:
Divulgação / Pâmela Íris



Cidinha, como você está? Como você começa o ano?



Estou bem, obrigada. Mas muito assustada com a volta paulatina às atividades presenciais. As pessoas quase não respeitam as regras de distanciamento. Tenho experienciado isso nas primeiras atividades literárias que tenho participado.


Pesquisando sobre você e seu trabalho, me vi impressionada com a quantidade de história que sua trajetória atravessa: formada em História, ativista e presidenta no Geledés, tutorada e guiada pela Sueli Carneiro, fundadora do Instituto Kuanza, enfim, muitas coisas. Fiquei curiosa: o que você considera como ponto(s) alto(s) da sua jornada até aqui?

Eu tenho um doutorado em Difusão do Conhecimento, portanto, são muitos anos de estudos, entretanto a maior e melhor escola que estudei foi o Geledés – Instituto da Mulher Negra, este é um ponto alto. Outro, são os 19 livros que publiquei ao longo de 16 anos de carreira, e que têm cerca de 230 mil exemplares em circulação. Por fim, considero um ponto alto também o fato de ter conquistas alicerçadas em princípios éticos, ou seja, não pisei no pescoço de ninguém para chegar onde estou.


O que eu acho mais impressionante, considerando as suas obras que li, é sua destreza em permear tantos gêneros. Como você costuma fazer: primeiro a narrativa e história, depois o gênero? Ou é o contrário?



Eu trabalho por projeto de livro. Quando escrevi “Um Exu em Nova York”, por exemplo, me determinei a escrever um livro de contos, mas alguns textos não se realizaram como contos, eram ótimas crônicas e então, não entraram nesse livro, ficaram para um volume posterior de crônicas. Às vezes quero uma coisa, mas o texto se torna outra, é mais ou menos assim, e eu não forço a barra para que eles sejam o que eu quero.



                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto:
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Você diria que tem um gênero favorito? Qual seria? Para escrever e para ler.



Quanto à leitura, gosto de ler poesia e romance, nessa ordem. Já li muitas crônicas, hoje me interesso menos pelo gênero.

Não tenho gênero preferido para escrever, me envolvo muito com o livro que estiver escrevendo no momento e, às vezes, quero passar logo para outros. Por exemplo, estou trabalhando num projeto de pequenos ensaios e crônicas para adolescentes e quero terminar logo para me dedicar a um livro de ensaios para adultos.



E sobre as temáticas que permeiam suas histórias? Quando li "Kuami", o sentido comunitário de encontros e aprendizados me pegou muito. Você tem objetivos anteriores à escrita?



Minha literatura é cheia de intencionalidades, de um modo geral tenho assuntos a partir dos quais quero criar.





Imagem:
Capa do livro “Um Exu em Nova York” de Cidinha da Silva


As personagens de "Um Exu em Nova York" também me chamaram atenção. Temáticas que permeiam desigualdades raciais e de gênero, racismo religioso são possíveis de serem captadas nos contos, e cada personagem é tão significativo para esses "cenários de fundo". Como você as imagina, as cria?

Descrever o processo de criação de personagens é muito difícil, tem muita coisa envolvida. De um modo geral, eles nascem da observação somada a recursos e elementos amealhados na minha pesquisa sobre africanidades, orixalidades, ancestralidades, tensão e diálogo entre tradições e contemporaneidade. Tudo isso é amalgamado, e a partir daí vou modelando as personagens.



Outra coisa, vi que o livro "Os Novos Pentes d'África" integra o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) desde 2020. Como foi esse processo? E você já recebeu feedbacks sobre o uso do livro nas salas de aulas? Ou mesmo retorno de alunos e jovens?


O Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é uma política pública de formação de acervo nas escolas públicas brasileiras. É um dos maiores programas de distribuição de livros do mundo.


A escolha para o PNLD Literário é um processo complexo que envolve muitas etapas. Houve um processo duro e longo de avaliação de títulos inscritos pelas editoras levado a termo por especialistas em educação e literatura. Foi escolhido um número de livros para compor uma lista dos títulos selecionados e disponibilizados no Guia PNLD PDF e online. A escolha dos livros para cada escola é feita via processo interno e coletivo.


As notícias sobre o "Pentes" não param de chegar. As escolas seguem recebendo os livros e me enviam vídeos e mensagens positivas de professoras e estudantes.

Você também compôs a música "Lençóis" com a Luedji Luna no último disco dela, e em outras entrevistas, reparei que você fala bastante de música como uma expressão artística que te acompanha e te inspira. Você tem interesse em compor outras músicas? Há letras engavetadas por aí?


Sim, está nos planos fazer outras composições, mas não tem nada na gaveta propriamente.

Tenho poemas que são considerados muito musicais e volta e meia alguém se propõe a transformá-los em canções.

Antes de “Lençóis” inclusive, a poeta e compositora tatiana nascimento musicou outro poema, o “Correnteza”. Este e “Lençóis” integram o livro “Canções de amor e dengo”.






Imagem:
Capa do livro “Kuami” de Cidinha da Silva





Algo que é difícil evitar nos tempos que vivemos é refletir sobre a pandemia e seus encaminhamentos. Você sente que esse estado pandêmico afetou muito as suas obras? Ou mesmo, de que modo você percebe as mudanças geradas por esse momento no seu dia-a-dia?


A pandemia teve e tem várias fases, como sou daquelas pessoas que puderam fazer a quarentena, que conseguiram trabalhar de casa, que não tiveram suas vidas ameaçadas pela falta de trabalho e renda, a expressão que mais usei durante todo o período foi “não me queixo de nada”. Agora que parece haver sinais concretos de que a pandemia se transformará em endemia, me sinto muito assustada com o comportamento de inúmeras pessoas, como se tudo estivesse como antes e elas não precisassem tomar qualquer tipo de cuidado.


De fato. Para finalizar nossa conversa, você fala em "tecnologias ancestrais de produção de infinitos", como parte da espiritualidade na sua obra. Pode nos contar mais sobre?


As “tecnologias ancestrais de produção de infinitos” são um repertório (repositório) que sigo acessando ao longo da vida e que vou compreendendo à medida que vivo e amadureço.

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Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.