Conversa /Vicenta Perrota y Rafa Kennedy

Edição: Igi Lola Ayedun
Reportagem: Ana Carolina Rodarte





Pretynha Vaskes por Rafa Kennedy para Vicenta Perrota, Casa de Criadores, 2020

Guias polifônicos ao caminho de amanhã


O processo criativo se expande para além das dualidades; se potencializando na pluralidade e, assim, carregando em si, uma força disruptiva, própria do que quer se fazer maior ao revirar ideias. Para a estilista e arte-educadora Vicenta Perrotta, a coletividade é levada às últimas consequências. Na última edição da Casa de Criadores, ela se uniu à diretora de fotografia e sua copiloto no Ateliê Transmoras, Rafa Kennedy, para construir um fashion film polifônico. Com conceitos que envolveram a contemplação das transvestigeneridades à performances pop, Perrotta e as multiplicadoras do ateliê encarnaram a potência das que nasceram prontas para deslocar pressupostos de gênero, raça, classe y ismos. Com as peças que cocriaram durante o período de distanciamento social no Brasil, elas mostraram que novas percepções de corpas podem ser ativadas por meio de peças transmutadas — indo adiante do que a gente conhece como upcycling, dentro da perspectiva neoliberal de validação do consumo. E foi para nos dar esse aceno de um futuro mais desafiador, plural e coletivo que Perrotta e Kennedy nos concederam esta entrevista.



Vicenta, de onde você vem?


VICENTA: De Campinas (São Paulo). Meu atelier é uma ocupação que está na moradia estudantil da Unicamp, o Ateliê Transmoras. É um espaço de apoio para outros projetos de pessoas trans, ligado à moda e audiovisual, e envolve a questão da costura e da transmutação têxtil.

Rafa, quando você começou a trabalhar com Vicenta?


RAFA: Meu trabalho com a Vicenta começou quando a gente se conectou aqui na região universitária de Campinas, perto da Unicamp [faculdade pública do Estado de São Paulo]. Vim pra cá em 2013, fugindo de um processo familiar, e me formei em fotografia. E nessa conexão entre pessoas, eu conheci a Vicenta, onde vi outra possibilidade de corporeidade.





Dil e Pretynha Vaskes por Rafa Kennedy para Vicenta Perrota, Casa de Criadores, 2020



Como foi estar na Casa dos Criadores em 2020?


V: Foi uma conquista e um trabalho árduo. Quando começou a pandemia e tudo fechou, comecei a questionar André Hidalgo [jornalista e CEO da Casa de Criadores] sobre as possibilidades do evento.
Todo momento de crise tem uma participação muito importante de como conduzir politicamente uma sociedade. A gente tinha que apresentar uma solução, o que foi muito interessante pra coletividade das pessoas trans. Muitas de nós começamos a produzir bastante. A gente criou o festival Marsha [para arrecadação de fundos para pessoas trans em situação de vulnerabilidade social] e toda essa discussão veio para organização da Casa de Criadores. Muita gente teve receio por achar que não ia conseguir apresentar um trabalho de qualidade, mas...o que é qualidade? Nós somos criadoras, somos designers, nós tínhamos que apresentar algo.
E foi assim que consegui colocar outras pessoas trans no casting da Casa de Criadores. Para mim, foi importante.

R: Nesse momento de pandemia que a gente vive, esse lugar de isolamento, tudo isso que a cisgeneridade tem experimentado, as transvestigeneridades já têm experimentado há anos. Tem sido um ano em que as travestis têm atravessado esse mar. É como se o caos já tivesse dado, porque a travesti já consegue domar isso — e sem romantizar, porque o babado é real. Nós temos atravessado esse ano de forma muito estratégica.




por Rafa Kennedy para Vicenta Perrota, Casa de Criadores, 2020


Compartilhem um pouco do processo de criação dessa coleção e desse fashion film com a gente?


V: Eu vou baseando meu processo de criação em minhas relações diárias. Antes, de 2013 pra trás, eu fazia roupas cisgênero. Mas tudo o que produzi sempre teve um embasamento político muito forte. [Comecei a perceber que] Se inspirar no passado cisgênero e europeu é um mecanismo da indústria de manter o desejo colonial. E eu já trabalhava com retalho. Ali perto da moradia da Unicamp, há um ponto de troca onde as pessoas descartam roupas e objetos, que muitos consideram lixo. Lixo pra mim não é pejorativo; lixo é um lugar onde muitas travestis encontram potência — pelo menos essas que estão permeando a transmutação têxtil. Aí fui destruindo as roupas e fazendo outras. E a partir disso meu cognitivo também foi transicionando.
Hoje eu também sou arte-educadora e proponho exercícios de discussão que envolvem a elaboração de roupas. Esses exercícios foram me colocando em outros lugares. Eu me deixo ser atravessada pela coletividade; eu me permito ser uma construção coletiva. E no desfile da Casa de Criadores, eu trouxe pessoas que estão em meu entorno. Eu quis mostrar as multiplicadoras, as manas que estão comigo desde o começo. A nossa rede é uma rede de apoio, de afeto. A gente entendeu que a afetividade é muito importante para nossa sobrevivência.

R: O filme “Dandara” é, dentro do meu imagético e das coisas que sinto a partir da travestilidade no Brasil, um outro lugar que se cria em meio à violência. Em tudo que estamos inseridas sistematicamente, o fim é a violência. A violência converge com esse processo capitalista. Um corpo que está à margem disso é o corpo da travesti. A travestilidade consegue, de alguma forma, construir vida dentro desse ciclo de violências.
Eu sugiro que talvez esse lugar seja Dandara. Esse lugar poético de conexão, de força de vida, de axé e de magia que as travestis carregam em si para se manter onde elas estão.


Por que ter uma marca de moda autoral em 2020?


V: Porque sim. É um dos meus mecanismos de sobrevivência, pra ocupar aquele espaço público da Unicamp; e que é um espaço clandestino, a Unicamp não quer ver as travestis lá. O meu trabalho como estilista e artista trabalha muito a permanência nesse lugar.
Eu me sinto muito responsável enquanto uma estilista. As manas já estão produzindo a partir do meu trabalho. A questão da transmutação têxtil veio pra ficar e é uma tecnologia nossa, das travestis brasileiras.
Entendo que minha roupa consegue atingir o cognitivo das pessoas. Eu vejo muito que essa moda industrializada é um invólucro de um corpo que não se questiona. Ela veste um corpo pro qual tudo já foi pensado. E a minha roupa faz a pessoa se questionar. A gola vai na perna. Isso atinge o cognitivo das pessoas.





Dil  Vaskes por Rafa Kennedy para Vicenta Perrota, Casa de Criadores, 2020



Uma saudade do mundo pré-pandêmico?


V: Nenhuma. Até porque, não mudou quase nada. O conservadorismo está muito presente. Ainda assim, sem banalizar a morte, esse foi um processo muito importante pra gente dar um salto como profissionais. Nosso trabalho se concretizou, a gente se manteve, como business, como artistas, como proponentes, como criadoras. Mostramos como ocupar espaços.

Y o que você vê pro futuro da moda depois desse apocalipse?


V: Acho que a partir desse processo da Casa de Criadores, a gente conseguiu colocar a galera para pensar e propor outra maneira de consumir. Entender melhor como tá dado o consumo.  ︎


MJOURNAL ED.005- Y QUE VENHA O AMANHÃ.