Construções identitárias a partir da pluralidade e do coletivo

JÊSSICA AMORIM













A primeira vez que ouvi a Djankaw falar foi numa mesa de debate sobre juventudes e justiça climática, e eu me senti muito instigada por todas as colocações que ela trouxe. Da comunidade Quilombola Paiol de Telha - Núcleo Entre Rios (Paraná), Djankaw, 25 anos, é Travesti Preta, Artivista, Bacharelanda em Serviço Social e Licencianda em Pedagogia da Terra. De fala apaixonada, ela se projeta para além de qualquer demarcação: sua identidade é perpassada pela pluralidade, e sua atuação política, por sonhos e imaginação.


“Eu entendi o que é ser quilombola numa sociedade estruturalmente racista, principalmente aqui no Paraná, onde o racismo, o colonialismo, a monocultura, os grandes fazendeiros latifundiários são muito presentes. (...) [Mas] eu percebi que além desses marcadores que envolviam violências, nós podíamos construir as nossas identidades a partir das nossas vivências, dos nossos históricos, dos nossos ancestrais, do que é repassado pelos nossos pais. Não existe só essa forma de rezar, de cultuar divindades, tem outras formas, tem outras formas de amar, outras formas de fazer, de se relacionar com a terra e se relacionar com as pessoas.”


E é com essas palavras potentes que Djankaw topou colar aqui no MJournal para contar um pouco da sua história, entre resistências e existências.


As fotos ficaram por conta do Jeff (@caodenado), e foram realizadas a distância, levando em consideração o momento que vivemos no Brasil.








Para começarmos esta conversa, “Djankaw”: há um significado por trás do seu nome?



Sim, “Djankaw” vem da língua Swahili, uma língua falada na África, principalmente na Gâmbia, na Tanzânia e na África Ocidental. Esse nome foi um presente que me foi dado através de um ritual de passagem, da fase da infância para a adolescência.


Eu sou integrante de uma comunidade quilombola, no interior do Paraná, e quando eu tinha 10 anos de idade, os mais velhos se organizaram para montar um grupo de teatro para começar um processo de resgate, e contar um pouco da história da nossa comunidade. Foi aí que eu ganhei esse nome. Djankaw significa "mística que dança", na língua Swahili. Hoje o identifico não somente como um nome cultural, como um nome artístico, mas sim como meu nome pessoal e meu nome civil.


Que história bonita. Um processo coletivo para encontrar o nome do indivíduo, né? Pode contar um pouco sobre a sua comunidade?



Quilombo significa coletivo, significa comunidade de guerreiros, de pessoas que resistem. Os nossos mais velhos sempre nos ensinaram a viver coletivamente. Plantar coletivamente, viver coletivamente. Mas por causa da escravização, do processo de distanciamento dos nossos valores, a gente acabou perdendo bastante coisa.


Eu vivo no Quilombo Invernada Paiol de Telha, que tem uma história de mais de 100 anos de luta e resistência, e é a comunidade mais velha do estado do Paraná nesse processo de resgate da terra, de volta para o território. Hoje nós somos em mais de 500 famílias, divididas em quatro núcleos. Eu vivo num núcleo entre rios, que é próximo a uma colônia de alemães e ucranianos, e por isso foi um longo processo para eu poder me reconstruir e me auto identificar como quilombola, já que fui distanciada da nossa fala, da nossa língua.

O grupo que me deu o nome, chamado Kundum Balê — que na língua africana Conde significa “aquele que realiza” —, começou a partir de 2007 a recuperar os nossos valores identitários. Era um grupo de jovens que estudava a nossa história e resgatava de forma autônoma o que seria ser quilombola, quais eram os valores que nossos ancestrais africanos destinaram para nós. Esse resgate ainda acontece diariamente.



Você faz parte de outros coletivos culturais artísticos, certo? Eles também desenvolvem esse resgate?



Com certeza. Quando eu fui convidada para o Kundum Balê pelos jovens mais velhos da minha comunidade foi quando esse resgate realmente se aflorou, e eu entendi o que é ser quilombola numa sociedade estruturalmente racista, principalmente aqui no Paraná, onde o racismo, o colonialismo, a monocultura, os grandes fazendeiros latifundiários são muito presentes. Então foi a partir daí que comecei. Era uma troca afetiva, de conhecimento, mas também era uma formação política, na qual eu me vi ser uma pessoa negra, quilombola, e por isso era preciso pensar outras estratégias para acessar direitos básicos. Porque eu percebi que além desses marcadores que envolviam violências, nós podíamos construir as nossas identidades a partir das nossas vivências, dos nossos históricos, dos nossos ancestrais, do que é repassado pelos nossos pais. Não existe só essa forma de rezar, de cultuar divindades, tem outras formas, tem outras formas de amar, outras formas de fazer, de se relacionar com a terra e se relacionar com as pessoas. Então quando a gente começou a resgatar esses valores, a gente viu o quão potentes eles também eram, e que não estávamos somente resistindo, mas também estava existindo.



O Kundum Balê foi de 2007 a 2012, e hoje a gente se organizou e se articulou como o coletivo cultural artístico Paiol das Artes, que contempla também várias outras pessoas da comunidade. Nós temos um barracão cultural, onde nós recebemos as pessoas, alunos de escolas públicas, universidades e grupos autônomos para vir nos visitar. Nele trabalhamos também com o turismo cultural, com a culinária quilombola, com as oficinas, com as trilhas para cachoeira, as rodas de conversa e de saberes, né.  O intuito é ampliar a consciência dessas pessoas sobre o que é ser quilombola, o que é ser negra no Brasil, e problematizar as questões que nos atravessam.


Muito inspirador, Djankaw. Pensar o mundo além dos marcadores. Uma coisa que você pontuou é esse retorno ao território e às identidades a partir da relação com a terra. Foi isso que fez você estudar Pedagogia da Terra? Pode contar um pouco sobre esse estudo?



A Pedagogia da Terra ou Pedagogia do Campo surgiu no ano de 2017, a partir de uma proposta organizada pelo Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), que é um programa de nível nacional que pensa políticas públicas para a educação no espaço rural e contempla as comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas e MST. Ela é diferente da educação rural — que pensa muito em simplesmente passar uma educação tecnológica, que vai formar você para trabalhar no mercado de trabalho — porque a Pedagogia da Terra é pensada a partir de outras epistemologias, pedagogias libertadoras. A gente não quer que a academia leve a sua educação para dentro das nossas comunidades; a gente quer que a academia pense conosco, compreenda que temos a condição de criar e pensar novas epistemologias para educar os nossos.


A educação do campo critica essa educação tecnicista com seu discurso desenvolvimentista: Desenvolvimento pra quem? Evolução pra quem? Para qual grupo, de que forma? Quais consequências para a terra? Quais consequências para os seres humanos? Então é um estudo que pensa que o ser humano, assim como nossas práticas diárias, impactam na terra. E o próprio nome já diz: é pensar o que a terra tem a nos ensinar, o que a terra tem a contribuir para nossa educação.





Massa, Djankaw. Um movimento bem mais pé no chão, né? Do que a tal “sustentabilidade”. E pelo que você trouxe, a gente está falando em interdisciplinaridade, certo? Conexão entre ações e reações. Podemos falar aqui da crise climática ou racismo ambiental, então? Como você enxerga essas questões?



Esse cistema, e quando a gente fala no cistema com c, heteronormativo, ele é um sistema capitalista, e quem está gestando políticas públicas, pensando a governabilidade do Estado são homens, brancos, ricos e de uma descendência que a gente já sabe qual. E diariamente nós somos atravessadas por esse sistema, não estamos fora dele. Quando a gente fala como comunidade quilombola ou índigena, infelizmente, mesmo a gente tendo outras práticas, a gente precisa comprar algumas sementes, a gente precisa de algumas coisas que tem no mercado, então pra entender que a gente vive coletivamente. Então nós somos atravessados por inúmeros sistemas de violência, e quando a gente fala do racismo ambiental, por exemplo, essa violência não vai atuar somente contra as pessoas de pele preta ou indígena, ou não hetero-cis-branco-centrada, ela vai atuar contra os territórios dessas pessoas.


Eu sou responsável por atualizar semanalmente o STATUS COVID do MJournal, onde trago notícias e informações importantes sobre o andamento da pandemia e do coronavírus. Já há algum tempo tem rolado bastante colocações de cientistas sobre como as intervenções humanas no planeta influenciam o surgimento de pandemias. O que você pensa desta relação?



Esses sistemas de produzir, de trabalhar que vivemos hoje foram naturalizados, foram longos anos educados e domesticados para pensar dessa forma, para reproduzir, para falar dessa forma compartimentada muitas vezes. O que eu me questiono é quando a gente vai naturalizar lutar pela natureza, quando a gente vai se ligar ou “acordar pra vida”, como a gente fala aqui na comunidade, que a natureza somos nós, que ser ativista ambiental, que brigar por uma questões básicas não é só um dever das comunidades quilombolas, ou algo de quem "vive na floresta". Porque todos nós respiramos oxigênio, todos nós bebemos água, é uma questão prática, é uma questão lógica. Se a gente tivesse outras práticas, será que a natureza retribuiria desta forma? Esse com certeza é um reflexo do distanciamento da terra, reflexo do jeito que temos consumido.


No debate onde te vi falar pela primeira vez, lembro que você comentou sobre a importância de pensarmos em novos projetos societários. Como você enxerga essa possibilidade?



Como a Conceição Evaristo fala: com novos imaginários. A gente precisa primeiro imaginar, construir interiormente, subjetivamente para daí trazer pra materialidade novas possibilidades. Com novos imaginários sociais precisamos pensar: como posso viver com a terra? Como eu devo consumir de uma forma menos degradante, de uma forma menos destrutiva? Como eu posso me relacionar de uma forma menos opressiva? É imaginar! Precisamos buscar outros valores sociais, na forma de fazer e se relacionar, de pensar o mundo e a diversidade.


Sim, eu sempre penso nisso. O capitalismo é uma “brincadeira” inventada, que a gente tem jogado faz tempo. Já se desgastou faz muito, né? Precisamos mesmo de projetos de sociedade que façam mais sentido. O que te inspira para isso?



O que tem me inspirado é pensar em micro políticas. Como o Ailton Krenak fala, seriam essas pequenas práticas. Porque se a gente for sempre pensar em nível macro, pode ser que a gente se paralise, não consiga sair do lugar. Então a gente precisa ter esse jogo de cintura para pensar aqui nosso espaço territorial, e depois pensar macro. Com certeza, não é colocar essa carga para as comunidades resolverem porque o Estado é ausente, seria preciso que articulassem um mapeamento para pensar políticas públicas efetivas. Mas já que isso não acontece, penso que, enquanto assistente social, a gente precisa pensar a partir das nossas demandas. Como eu posso melhorar ou minimizar problemas? Como organizar práticas de micro políticas?


Um trabalho e tanto, né? Para finalizar, com que a Djankaw sonha?



Primeiro sonho é acabar essa pandemia. Realmente é uma guerra, a gente tá guerreando para permanecer vivo. Então acho que primeiro é se manter viva, se manter forte, porque como um corpo território, eu sou esse corpo, então preciso desse veículo para permanecer aqui e ajudar e contribuir com a sociedade.


Sonho também com uma escola aqui no Paiol de Telha, para pensar uma educação quilombola para as crianças da nossa comunidade, para construir uma consciência cidadã crítica.


Sonho também com uma sociedade mais igualitária na prática, onde as travestis, mulheres negras, mulheres quilombolas possam ser mais respeitadas. E que também as crianças e as juventudes também possam ser vistas como seres de sujeitos políticos.


Sonho com uma sociedade que pense o meio ambiente como uma cidadã de direito, a Gaya, Onilé, Omulu têm vida. Sonho com uma nova sociedade, plural, mais diversa, mais humana. Como o Ailton Krenak fala "uma sociedade com plurihumanidades".










MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.