MERCADO

Gabriela Campos ︎




Imagem: Reprodução

Como a internet fez a arte descer do salto? 



Quem muito desdenha, no fundo precisa comprar. Como a internet, que pra muitos desvalorizou a arte, surge agora como única forma de salvar o mercado de arte global?

Palácios monumentais localizados em grandes centros enveloparam por anos o que foi considerado por alguns arte em seu real sentido. Burocracias para visitar, para consumir, para produzir. Mas, aparentemente, a estrutura construída para tornar a arte e o imaginário do futuro distante de uma narrativa mais plural, parece estar com os dias contados. É que a digitalização dos acervos pelos principais museus do mundo, estabelecida no primeiro semestre de 2020, logo após o início da pandemia COVID-19, como recurso principal de aproximação entre público e acervo, permitiu que outras perspectivas fossem avistadas no processo de democratização da arte. Porém...

Antes mesmo de enfrentarmos o fechamento [temporário ou não] de diversas instituições por conta do isolamento social, a valorização da arte pós internet ainda carecia de forma/estética e da sua capacidade decorativista, o que por um bom tempo foi questionado e considerado impeditivo para um posicionamento mais expressivo dessas produções no mercado de leilões e comercialização da arte no mundo. E para além disso: BRIAN DROITCOUR escreveu em 2014 para o ART IN AMERICA, que aparentemente tudo que a internet faria em relação a arte seria ampliar a capacidade de comunicar os trabalhos de cada artista e/ou expandir as possibilidades de uma instalação. Mal ele sabia, mal a gente sabia que o mercado de arte é o que temos de mais atual em matéria de atraso.

O ano é 2020 e quando em março deste ano, o cenário produzido pela pandemia possibilitou uma reviravolta inesperada pelas limitações, tanto em relação a produção artística quanto no tocante a comercialização, 230 principais agenciadores e clientes do mercado da arte mundial se reuniram na ART BASEL de forma virtual, obrigando que um novo modelo de comércio emergisse como principal meio de continuar fazendo o negócio acontecer. E a exemplo do que rolou em HONG KONG, outras diversas galerias individuais estão abrindo salas virtuais e sustentando o mercado de arte durante o isolamento social. As galerias online ressignificam fronteiras geográficas para quem oferece e para quem consome arte: a arte agora, sim, parece caminhar rumo ao uma perspectiva mais universal. De alguma forma, as tradicionais credenciais na corrida pelo reconhecimento e valorização artística: como participar de bienais, galerias ou ter o trabalho validado por colecionadores, caem por terra quando na verdade quem decide o que gosta ou não é o público: que não encontra mais impeditivos para participar do mercado. E assim, a internet adicionou um outro termômetro importante na era das relações digitais: a viralização.

As vidas on/offline, hoje, já se confundem. Tá todo mundo online, aqui e agora: e pra tudo. [já que a gente não sai de casa ou pelo menos não deveria sair]. Tá todo mundo online e a internet é terra de ninguém e de todo mundo ao mesmo tempo. A arte, enquanto manifestação comunicativa que utiliza as mais variadas ferramentas para exprimir contextos, condições e possibilidades pode, sim, contar com mais um artifício na tentativa de documentar as múltiplas facetas do que é a arte. Se é para registrar, refletir e disseminar que seja arte. Mesmo que precise de uma pandemia pra se entender a urgência dessa flexibilização em busca de uma participação mais plural. E que a internet seja ferramenta, a quem possa interessar.

MJOURNAL ED.004 - FLOR DE CEM, RAIZ DE MIL.