Moda


Wanessa Yano ︎



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© Fanette Guilloud/ DTS

Chega de papinho: pluriversalidade pra levar a moda pro pós-discurso.



O impacto da produtibilização da diversidade na construção do pensamento crítico da indústria da moda.

A narrativa sobre a diversidade na moda é uma ótima deixa para abrir o diálogo sobre a urgência dos modos de pensar, produzir, e comunicar moda no Brasil e no mundo. Pois a diversidade permite a inclusão da pluralidade racial, cultural e de gênero. Contudo, essa pauta permitiu a obrigatoriedade da cota —  que não é um favor, e sim um direito. E a execução forçada desse direito no mercado abriu lacunas para narrativas solitárias, matando a pluralidade presente em cada raça. Por isso há um ruído nos debates entre a moda e a sociedade, decorrente da centralidade e da continuidade na comunicação, presente no pensamento colonialista que permite perceber o mundo de uma forma universalista.

O “universal” diz respeito à aparente intenção de estabelecer totalidade e hegemonia. Ramose (2011). E se considerarmos a moda como uma multiplataforma para a expressão multilingue, precisamos compreender que a linguagem só é possível por meio de sistemas de signos, e significados já existentes. Segundo o Pr. Dr. Gabriel Nascimento (2019):

“A língua não possui cor, [...] Entretanto, ao serem politizadas, as línguas têm cor, gênero, etnia, orientação sexual e classe, porque funcionam como lugares de desenhar projetos de poder.”

E se a moda e o poder caminham juntos desde a sua historiografia narrada pelo ocidente, então, temos o dever e a urgente necessidade de ampliar e incluir novas historiografias e signos, e ressignificar os velhos significados. Mas, para que isso seja feito de forma respeitosa,vprecisamos “introduzir o conceito de pluriversalidade.” Ramose , 2011

A pluriversalidade é um termo cunhado pelo filósofo Mogobe Bernard Ramose, e descrito pelo filósofo e professor Renato Nogueira como “o reconhecimento de que todas as perspectivas devem ser válidas; apontando como equívoco o privilégio de um ponto de vista.” A pluriversalidade é um paradigma constantemente mencionado dentro do estudo de Filosofias Africanas, aqui no Brasil introduzida pelo professor Nogueira, e expandido por intelectuais focados nesses campos de estudo como Aza Njeri, Katiúcia Ribeiro, Naiara Paula, entre outros.

Entendendo melhor do que se trata esse termo, podemos então utilizar a  pluriversalidade como uma possibilidade de se perceber as narrativas descentralizadas na indústria da moda, mas sobretudo vividas dentro de suas centralidades culturais, tecendo modas produzidas no mundo. Mesmo que presentes no dia a dia, se não presentes no mainstream, essas práticas descentralizadas não são estudadas, ou compreendidas como Modas; elas são tidas apenas como produtos vindos do mercado informal e artesanal. Esse tipo de denominação é atribuída pela estrutura na qual a comunicação de moda foi projetada. Assim percebemos como a comunicação logo, a língua, funciona para evidenciar e dar poder.

Entretanto, vivenciamos a era do desmonte dessa língua que nos foi imposta, sendo recriada para comportar a humanidade, e a existência de pessoas que a sociedade tornou inexistentes. E por isso há uma ressalva importante ao visualizar o mundo por meio da pluriversalidade, que é o cuidado para que a sua utilização não caia no discurso do “somos todos iguais, por sermos diferentes”— uma frase violenta que valida muitas ideias hegemônicas e colonialistas que lutamos contra. E é necessário que fique nítido que a pluriversalidade contesta e debate tudo aquilo que foi imposto como único e universal. Quando a utilizamos como um fio condutor, percebemos o quanto vestimos identidades e conceitos que nos foram impostos, e que, muitas das vezes, ao utilizarmos uma palavra, validamos toda a ideologia criada por trás dela. Um exemplo disto é o uso do termo “Moda Brasileira”, que não é apenas atribuída pelo aspecto geográfico, mas por toda a composição do que se validou como ser brasileiro. Assim, a terminologia mantém a efetividade do discurso hegemônico.

Questiono: o que é a construção desta identidade nacional na moda? A mesma identidade que exclui e mata tudo e todos que não estão de acordo com o que foi projetado em sua criação, e que ainda assim mantém de forma resistente políticas e filosofias em vigor até os dias de hoje. Portanto, há a necessidade iminente de se construir novas plataformas para as modas que são pensadas por meio do ser, e de toda a subjetividade vinculada em conjunto para que sejam compreendidas como “Modas”, — consolidadas por uma comunidade plural, que desenvolve majoritariamente por meio da “sevirologia”, ou seja, no “se-vira” como contextualizado pela Suyane Ynaya, stylist, diretora criativa e editora da revista Elle.

A pluriversalidade faz com que as ciências, tecnologias e modos de diferentes povos sejam respeitados, uma vez que são traçados pelos seus protagonistas . Por meio da aplicação desse conceito,  as modas podem ser  catalisadoras de transformações sociais genuinamente representativas e plurais.


Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.