Ensaio

Maria Clara Araújo





Carta à Jota Mombaça: breve reflexão sobre os limites da cidadania frente aos escombros da nação.




Querida Jota,

Em uma típica tarde de fim de julho em São Paulo, fria e apática, me encontrei com uma conferência sua na IX Semana de Saúde Mental e Inclusão Social da Universidade Federal de Minas Gerais. Primeiro, gostaria de esboçar minha surpresa em você ter aceitado participar de um evento fundamentalmente acadêmico.
Sei que as relações estabelecidas por você com o espaço acadêmico são marcadas por processos de desconfiança, mas levando em conta que sou, assim como muitas outras, um corpo dissidente que fez a escolha de disputar essa instituição, vê-la nesse espaço tensionando as autoridades epistêmicas arbitrariamente construídas – como você mesma nos ensina – dá sentido aos nossos percursos. 
Em certo dia ouvi Ochy Curiel dizendo que não é possível de(s)colonizar a universidade. Essa afirmação desestabilizou algumas pretensões – certamente ingênuas – que vim construindo nesse início de formação acadêmica. De todo modo, aceitei as contradições e desde então estou em um movimento contínuo de reflexão sobre os limites e as possibilidades que pertencer a esse espaço [a academia] me/nos apresenta.
Algumas semanas atrás, fui convidada pelo MJournal para escrever sobre sonhos, perspectivas, desafios e novos mundos a se comemorar. Hoje, ao assistir sua conferência, de título “Apesar do Brasil”, decidi que esse texto deveria estabelecer uma ponte dialógica com tudo que você nos trouxe.  
É perceptível seu investimento em expor e denunciar o projeto por trás do que você reinterpreta como “Brasilidade”. Como você bem sabe, Jota, estou sentindo há algum tempo um esgotamento físico e emocional por estar no Brasil. Lembro que chegamos a conversar no final de 2018 sobre as possibilidades de trânsito, ocasião na qual você problematizou a ideia de exílio, mas certas oportunidades foram concedidas e permaneci. Não reavalio tais escolhas, mas de modo algum abdiquei dessas inquietações, visto as desgraças diárias que estamos vivendo.
Na conferência, sua fala apresentou a “Brasilidade” como uma ficção de poder responsável pela organização ou desorganização das possibilidades e impossibilidades de vida neste território. Quando você nos questiona como lidar com o trauma da transfobia, causado pelo fundamentalismo cisgênero e que também constitui o projeto de país vigente, me lembrei de quando escrevi “A transfobia é uma problemática brasileira”.
Na época, recordo que você foi uma das pessoas que leu o texto antes de ser publicado e apontou a necessidade de uma fundamentação mais consistente. De fato, reconheço que assumi uns B.Os  – do ponto de vista teórico – que minhas pernas não alcançavam. Porém, quem sabe no futuro, munida de mais elementos, esse texto possa ser revisitado e devidamente aprofundado.
O que gostaria de destacar na esteira dessa recapitulação da transfobia como uma problemática constituinte da “Brasilidade”, é como dei ênfase a um anseio por uma cidadania construída pelas travestis brasileiras. Essa minha inclinação não se restringiu a esse texto de 2018. Por conta dos meus diálogos com a teoria crítica educacional, categorias como “cidadania” e “emancipação” aparecem continuamente nos meus últimos textos escritos acerca da agência sociopolítica das travestis e mulheres transexuais no Brasil. 
Me encontrar com a sua conferência reafirma uma inquietação que sinto ao ler os seus textos: até que ponto acionar categorias modernas nos fornece os elementos necessários para a problematização dessa dinâmica de guerra que não cessa, como me ensinou o Nelson Maldonado-Torres? Me sinto “enquadrada” pela máxima lançada por Audre Lorde: as ferramentas do senhor não vão desmantelar a casa grande.
Resumidamente, a forma como seu pensamento se apresenta, bastante inspirado pela obra da Denise Ferreira da Silva, estremece algumas continuidades conceituais que foram construídas pelo o que vou chamar de “teoria crítica latino-americana”. Ainda que a decolonialidade em sua dimensão teórico-epistemológica tenha proposto releituras e rupturas potentes, constato através das cisões feitas por você como continuamos a acionar uma caixa de ferramentas fincada na modernidade.
De modo algum, presumi que seria possível “cabermos” nessa cidadania que está posta no Brasil. Nossas contingências sociopolíticas mostram que a população de travestis têm sido alvo do aparato ofensivo do Estado brasileiro, seja no projeto autoritário, seja no projeto assumido como democrático.
Diante dessa dinâmica bélica que persiste, vejo alguns entrelaçamentos com o que a M Jacqui Alexander compreende como noções de lealdade/deslealdade com a nação. Sob a administração de Jair Bolsonaro, enxergo concretude no que Alexander propõe, uma vez que reconheço como a supremacia branca, a heterossexualidade e a cisgeneridade são condições fundantes para a legitimação de alguns como “cidadãos leais” à nação e ao projeto instituído pela extrema-direita brasileira.
Por tudo isso, o que articulo a partir do campo da educação é uma discussão sobre como as travestis organizadas se viram compromissadas com uma reflexão+ação que visa ao longo de 30 anos criar uma outra concepção de cidadania, que nomeio como uma cidadania crítico-reflexiva.
Percebo, Jota, que me inscrevo em uma tradição teórica-metodológica bastante influenciada pelos caminhos percorridos pelo Paulo Freire. Afinal, fui aluna da Universidade Federal de Pernambuco e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ambas instituições semeiam o referencial freireano entre suas/seus educandas/os.
No entanto, como somos continuamente instigadas a rever nossos textos através de um movimento autocrítico, venho repensando as gramáticas que acionei/reproduzi até o presente momento. À luz de sua provocação, repenso se essa gramática me dá as armas necessárias para contra-atacar essa “Brasilidade” e seu fundamentalismo cisgênero nesses tempos de neoconservadorismos.
No presente momento, as travestis brasileiras estão investindo tempo e energia em disputas. Nas artes, políticas e academias. No interior dessas disputas, intrinsecamente outros projetos de país, de concepções artístico-culturais e de epistemologia estão sendo anunciados por elas.
Se para a experiência específica do nosso movimento social vejo a possibilidade de acionar categorias como cidadania e emancipação, hoje, diante das complexidades que as travestis estão apresentando em suas reflexões+ações, a ideia de uma luta por cidadania me parece não ser mais o bastante para apreender o que está sendo gestado.
O mais próximo que consigo chegar é da noção de insurgências e após assistir toda a conferência, pude concluir provisoriamente que o desafio colocado é o de analisar essa insurgência das travestis, “apesar do Brasil”, a partir de outras gramáticas.
Continuo acreditando que a luta por cidadanização fez parte da história da nossa população de travestis, mas está evidente que a cidadanização não cessa à guerra moderno/colonial. Talvez, porque toda cidadania, por mais crítica que ela se pretenda, continua circunscrita aos limites impostos pela “Brasilidade”. Espero ter oportunidades futuras para estabelecer uma conversa com você nesse sentido.
Por fim, querida amiga, não irei entrar na seara do “fim do Brasil”, porque ainda tenho muito a refletir sobre esse ponto. Inclusive, me questiono como coletivamente nossa população tem refletido sobre a necessidade de por um fim à “Brasilidade”. Mas gostaria de lhe agradecer por generosamente compartilhar tanto conosco, aquelas e aqueles que estão aqui e que insistem em nutrir imaginações anti-coloniais “apesar do Brasil”.

Maria Clara Araújo dos Passos

São Paulo, 31 de julho de 2021.




*Maria Clara Araújo  [1994] é uma escritora, pesquisadora, afrotransfeminista, formada em Pedagogia pela PUC-SP, mestranda pela Universidade de São Paulo e assessora parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo, compondo a Mandata Quilombo da deputada Erica Malunguinho.

Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.