COMPORTAMENTO


Gabriela Campos ︎



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 reprodução


Cadê teu Deus agora?


Atenção: esse não é um texto sobre  o Big Brother Brasil, kkkkkkkkkkk.

Até pouco tempo, se declarar abertamente filhe de algum Orixá num reallity show seria motivo de chacota. Mas isso é taaaaão anos 2000! E em 2021, seja como Lucas com o fio de conta de Xangô ou como Lumena, com emoji que a representa e faz referência à Odé muitos, hoje, escancaram sob os holofotes do pay per view da vida real que, de alguma forma, fazem parte de religiões de matriz africana [pra além de superlotar a orla de São Salvador e jogar rosas brancas à Iemanjá, risos]. Poderíamos atrelar esse tipo de comportamento à democratização das conversas sobre os processos de racialidade e racismo no mundo? Poderíamos, mas não só.

  • "My voice, my skin, my logo" - Freedom, Sampa the Great


Falar de religiosidade é assunto de Gen Z, sim. Extremamente na contramão do que os millennials seguem dizendo por aí. Mas essa conversa não é um monólogo e falar sozinha é tudo que essa geração não quer: todos muito comunaholics que são, criam o ponto de contato perfeito para que culturas de massa e a linguagem hiperindividualista [oi, Tik Tok!] - da qual são nativos e na qual se manifestam com naturalidade - se encontrem e coexistam. E por falar nisso, mesmo não tendo conta e/ou o aplicativo, em algum momento você será impactado em qualquer outra rede social pelos conteúdos produzidos por lá  e pode  se ver perdido nos challenges/novos processos de evangelização/espaço de resistência e fortalecimento. [E que nada têm a ver com a revolta dos Boomers que: depois de terem experimentado o puro suco liberal, acreditam que tomar as rédeas do mundo com muito conservadorismo para honrar suas "conquistas", salvaria o mundo da polarização que eles mesmos criaram].

  • Disposta, do corre e no rolê


E o terreno só é fértil porque, ao contrário do rompimento revolucionário dos millennials - aka rebelde com causa mas sem muito efeito -  em relação aos boomers, a Gen Z se coloca muito mais aberta ao diálogo e não se incomoda nenhum pouquinho em ser questionada. Sendo assim, não parecem ter qualquer repulsa aos padrões morais tradicionais. O que se rejeita é a exploração da fé como instrumento da manutenção da soberania branca cristã e, consequentemente, das estruturas coloniais de dominação já tão desgastadas: não há espaço para esse tipo de guerra civil e suas reações exacerbadas por parte de marcas e/ou pessoas aka cancelamento, que em 2021 já cheiram a naftalina. Na comunidade Gen Z tem espaço pra todes - e suas complexidades - que flertam de maneira sólida, pela primeira vez em termos geracionais, com o Relativismo Moral e que permite, guardadas as devidas proporções, que se discutam assuntos coletivos perante diferentes  verdades e de acordo com a realidade dessas morais. Pensando a partir de uma perspectiva onde hiperindividulidades & cultura de massa se encontram, esse ponto reflete a complexidade geracional e releva as principais diferenças entre essa e as demais gerações.

  • E é aqui que mora o perigo [ou não]


Se antigamente [kkk ok, boomer] pregava-se que SÓ uma força maior onipresente, onisciente e onipotente seria capaz de nos salvar do fim, a espiritualidade não necessariamente filiada surge como a carteirinha que habilita essa geração à construção de um futuro melhor e também alivia o peso de quem tem a obrigação de ou salvar o mundo, ou acabar com tudo de vez. Esse movimento que, de certa forma, propõe um certo tipo de ~descolamento~ do que é macro [práticas religiosas - comunidade] pro que é micro [hiperindividualidade - eu, eu mesme e mais ninguém], também permite que o materialismo seja abordado de forma natural. Acreditar em algo não significa mais abdicar das suas escolhas em prol de algo maior - uma coisa, não anula a outra - vide os cemitérios turísticos e monumentais construídos na região da Sinaloa, no México ou a personagem Leila Kwan Zimmer de Grand Army, que tenta descobrir seu lugar no mundo - mas que encontra na prática ortodoxa judaica um lugar de pertencimento.


  • Mas nem tudo são flores, cristais e incensos...


Mesmo com catalisadores sociais - como uma pandemia que não acaba nunca, #Blacklivesmatter, #EndSARS e a ruína de velhos [e novos] símbolos de soberania colonial -, alguns instrumentos continuam operando em nome da bandeira da globalização e universalização da moral  - disfarçado de direitos igualitários, ignorando, mais uma vez, as plurais perspectivas de existir no mundo. E o lance é que as pessoas não estão mais dispostas a ceder ao apagamento gradual de suas culturas, seja através da bandeira liberal que questiona a influência de signos coletivos sobre as individualidades [oi, Karol Conká!] ou sobre essa outra face da apropriação cultural, que esvazia esses signos dos seus significados - calça jeans na cabeça não é hijab, certo Halima? - Certo, responde mentalmente Azealia Banks, ao compartilhar fotos de parte dos ritos da sua "religião tradicional africana".

Certamente elas esperam que, assim como o primeiro santo millennial, suas práticas e escolhas sejam respeitadas e que sejam, sim, empoderadoras de movimentos muito maiores do que a fé que diz ter movido montanhas desde 01 D.C - porque agora a fé ta #on. ︎




MJOURNAL ED.006- O COMEÇO DO FIM.