CONVERSA com Sônia Gomes.


Jéssica Amorim



Sonia Gomes, Stitch In Time, Mendes Wood DM, São Paulo, 2012



ENTRE TRAMAS E CONSTRUÇÕES.


Entre tecidos e objetos, a artista Sônia Gomes, 72 anos, vai transformando recortes de histórias e memórias em novas esculturas. Sempre inspirada pelo fazer manual e pela vontade de modificar o que já está tido como finalizado, a mineira de Caetanópolis deixou a carreira de advogada para se reconhecer e se afirmar enquanto artista após estudar na Escola Guignard. No começo de sua carreira, foi reconhecida principalmente fora do Brasil, participando da Bienal de Veneza 2015, além de exibir seu trabalho no Museu Nacional da Mulher nas Artes em Washington, D.C, em 2017. Foi em 2018, ao expor no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), que a artista foi ganhando mais repercussão no Brasil. Esse foi, inclusive, um grande marco para história de artistas negros no país, uma vez que Sônia se tornou a primeira artista e mulher negra a viva a ter uma mostra monográfica neste espaço.

Sobre isso, e sobre outras coisas, Sônia conversou um pouco com o MJ. Falando sobre seu fazer artístico, as dificuldades de se reconhecer artista no Brasil sendo uma mulher negra, além das pulsações de vida presentes em seu trabalho.



Sonia Gomes, Correnteza, from Raiz series, 2018, stitching, bindings, different fabrics and laces on wood, 90 × 260 × 80 cm


Jéssica Amorim: Como começou essa pesquisa com os tecidos e técnicas artesanais? Você sempre os identificou como um meio para processos criativos?


Sônia Gomes: Desde criança eu gostava de enrolar tecidos no corpo, talvez seja por isso que as esculturas têm essa escala. Eu sempre gostei de customizar e criar em cima de roupas, colares e bolsas. Eu fazia no começo sem saber se era arte ou não, era uma necessidade de criação. Gosto muito do artesanato e do fazer manual, é algo que sempre valorizei.


JA: E como é feita a curadoria e seleção dos materiais que você vai somando aos tecidos?


SG: Me interesso pela textura, as diferentes histórias e memórias que os tecidos carregam. Eu recebo diversos bordados e toalhas de mesa, paninhos, vestido de noiva, lenços, diferentes tecidos e peças que faziam parte da vida de outras pessoas. Gosto das histórias que a materialidade proporciona. Sinto que quando recebo essas peças tenho responsabilidade de não deixá-las morrer. Dessa forma cabe a mim um grande compromisso de respeitar o que aquele objeto, tecido, bordado, vestido deseja se transformar.
Os materiais que aparecem nos meus trabalhos, de uma certa maneira, são materiais que chegam até mim. Eu não saio a busca das coisas. Eu ganho tecidos, troncos, gaiola… E percebi que a gaiola começou a dar outras possibilidades de experimentação plástica. São coisas que as pessoas olham e falam “Sonia, eu acho que você pode usar isso, e fazer acontecer em alguma forma”.


Sonia Gomes, Mãos de ouro, 2008, graphite, pen, stitching, moorings, different fabrics and laces on paper, 47 × 37 cm


JA: Vi que você sempre fala sobre ter demorado a se perceber artista. Você consegue identificar motivos para isso ter acontecido?


SG: Em 2011, estive durante 6 meses entre Nova Iorque e São Francisco. Foi depois dessa viagem que as coisas começaram a acontecer. Minha autoestima aqui no Brasil era muito baixa, devido o processo de desvalorização que sentia. Não sabia quem eu era aqui no Brasil, por um processo de invisibilidade do artista negro. As pessoas falavam “Sonia, você é artista” e eu não acreditava. Eu achava que não sabia desenhar por não fazer desenhos figurativos. Mas a gente sabe que, para a população negra, o reconhecimento demora mais. Vivemos numa sociedade muito desigual.
Quando voltei dos Estados Unidos, fiz um curso na Escola Guignard e lá conheci uma arquiteta, Joana Siruffo, que se encantou com as coisas que eu usava, fazia e criava. Ela  apresentou meu trabalho para um comércio de objetos de arte em Belo Horizonte, e daí o trabalho foi crescendo. Chegou na galeria Mendes Wood, que o levou para o mundo.

JA: Você teve alguma carreira anterior a esse momento? Como foi essa transição?


SG: Eu sou formada em Direito, comecei minha carreira como advogada, mas eu não via mais sentido em continuar. Então, decidi tomar um outro rumo na minha vida. Como falei anteriormente, eu sempre fazia minhas bolsas e customizava minhas roupas. Eu tinha o desejo de transformar tudo que eu fosse usar. Comecei a fazer peças para vender, mas ninguém se interessava. Então, foi no campo da arte que minhas criações ganharam força.


Sonia Gomes, A vida renasce, sempre, MAC Niterói, Rio de Janeiro, 2018


JA: Você consegue dizer se existe uma (ou mais) motivação artística que te movimenta no seu trabalho?


SG: Meu trabalho é movimento, o que me move é fazer um trabalho que passe alegria. Eu também gosto muito de poesia, de dança, gosto de arte como um todo.

JA: Sobre a sua última exposição aqui no Brasil, “Ainda assim me levanto”, que aconteceu no MASP: esse título, ou mesmo o trabalho, de algum modo conversa com a poesia da “Still I Rise” da Maya Angelou? Se sim, como você vê essa conversa?


SG: Sim, eu me emocionei demais com a leitura de Maya Angelou. Lendo ela, eu senti que essa frase dela era muito importante naquele momento.


Sonia Gomes, Solo, from Raiz series, 2018, stitching, bindings, different fabrics and laces on wood, 92 × 120 × 100 cm


JA: Vi também que você foi a primeira mulher negra viva a expor no MASP, em 2018. O que você pensa desse marco?


SG: Eu penso que isso não se deve só a mim, muitas pessoas negras antes de mim lutaram e resistiram para que nós estivéssemos em todos os lugares. Eu espero que cada vez mais pessoas negras possam ocupar vários espaços.

JA: Nos últimos anos você também tem conquistado espaço em exposições fora do Brasil. Você destacaria algo em relação ao tratamento aos artistas visuais aqui e lá fora?


SG: Eu sempre fui muito bem recebida em todos os lugares que trabalhei, seja aqui no Brasil ou em outros países. Mas reconheço que no início da minha carreira tive que ter uma experiência internacional para ver pessoas se interessando de fato para o meu trabalho.


Sonia Gomes, A vida renasce, sempre, MAC Niterói, Rio de Janeiro, 2018


JA: Você também acompanha artistas plásticos jovens e negros? Como uma veterana, o que você gostaria de falar pra quem está começando?


SG: Esse ano tive a oportunidade de fazer uma fala para um grupo de jovens artistas negros, e foi muito importante ver essa geração muito engajada, podendo falar e fazer arte com mais liberdade. Acho que para a juventude negra, ser artista hoje tem mais abertura e eles são muito articulados. É bonito de ver. O que falei para eles - e sempre falo - é coragem! Arte precisa de coragem e muita persistência. Não tenham medo, persistam e trabalhem com bastante coragem. ︎




MJOURNAL ED.005- Y QUE VENHA O AMANHÃ.