COMPORTAMENTO


Cassio Prates ︎



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© Fizkes / ADOBE STOCK

As tramas das travessias


Voltamos ao antigo novembro de 2020, quando fora de qualquer semana de moda padrão — se é que isso ainda existe — a Gucci apresentou o GucciFest, festival de curtas online. O objetivo era mostrar sua nova coleção, não em formato desfile, mas numa série de filmes que emulavam o velho novo mundo da marca, com cinco histórias que se passavam em um futuro próprio. Na casa, no post office ou no teatro, as roupas foram apresentadas em personagens post-gender, com styling que misturavam décadas e questionavam binarismos, passando a sensação de quebrar barreiras.

Cheia de nuances de liberdade e prisão, a trama mostrava cenas de peças em cashmere e pele falsa. Alessandro Michele, estilista da marca, resgatou looks de coleções antigas (desde sua primeira como diretor da grife, em 2015) até modelos novos, que cobrissem corpos de um casting  dito diversificado, naquele futuro sugerido, como uma espécie de trama da travessia. No primeiro episódio, Silvia Caldemore, protagonista dos filmes, apareceu em casa vestindo-se e trocando looks luxuosos, enquanto Paul Preciado estava na TV contando sua teoria e seu manifesto contrassexual.

Em seu mais recente livro publicado no Brasil, “Um Apartamento em Urano”, Paul Preciado junta suas crônicas de passagem, contando seu processo de desobediência e experimentações de gênero, para desfazer construções binárias pré-estabelecidas pela sociedade . O livro reúne textos de 2013 até 2018, período em que troca de nome e passa de Beatriz à Paul B. O título, por sua vez, remete a um sonho, em que o filósofo e escritor conversa com a artista Dominique Gonzalez-Foerster sobre sua vida nômade e seus apartamentos nos diversos planetas-mitos, seguido pela sugestão de abandono do planeta Urano — dado por Gonzalez-Foerster como um lugar muito longe e depois, como “um lugar distante e etéreo onde os deuses tinham o seus apartamentos”. Ele explica que, segundo a mitologia, Urano teve os genitais cortados com um machado, de onde nasceu Afrodite, deusa do amor. A  partir disso, começa a sua longa trajetória, como um mensageiro do atravessamento, a caminho de muitos questionamentos.

Com essas duas passagens, avançamos melhor sobre o tema de pós-identidade, onde mais me coloco como dedicado ao assunto, do que como alguém que somente fala. Juntando isso ao universo da moda, onde posso falar um pouco melhor, é impossível não fazermos essa associação entre o que é posto como identidade, o que é assumido como tal e o que é humano, parte do processo, do devir ou, como Paul sugere, a travessia.

“Identidade” é  um fator importante para o posicionamento de uma marca. Especialmente quando pensamos no mercado de luxo, a palavra sugere o leitmotif  para uma comunicação: uma identidade mais chic, mais poderosa, mais bold, mais e mais várias coisas. Nos últimos anos, no entanto, a palavra foi rapidamente substituída (e por que não confundida?) por “diversidade” no mundinho. A  grande maioria das marcas de luxo coloca como parte de sua identidade caminhos mais diversos e corpos diferentes, trazendo isso em forma de uma nova imagem. Novas corpas, que sempre existiram no mundão, passaram a vestir então a seda da marca X, o cashmere da marca Y e as modelagens da outra marca Z. Tudo com uma “passabilidade” de colocar o luxo em um lugar mais plural, mais preocupado e mais “adequado”. Ainda que dentro daquele mesmo lugar.

O que se mostra problemático aqui não é o fato de as marcas terem assumido esse processo como um negócio lucrativo e com uma visão mais possível — e “adequada” — de moda-luxo, e sim elas acharem que já chegaram lá (em Urano, talvez?). Do alto de seus ateliês, continuarem jogando tecidos luxuosos para pessoas se tornarem luxuosas a partir disso. A travessia se deu com as pessoas tendo de ir até lá, numa visão colonialista de matéria-prima & pessoas.

Minha sugestão (não fácil) de pós-identitarismo está justamente no oposto.

E aí você pode questionar o status de luxo de um cashmere da Céline. Bem verdade que ele sai por milhares de euros, mas, hoje, ele precisa t ser incorporado a outros corpos e corpas pra posar de grã fino. Caso contrário, ele se torna antiquado — e, como a Celine de Slimane, sem acento, não só não se adapta ao novo mundo como também o ignora. Por outro lado, um hood de algodão da Telfar, vendido e produzido por sua vizinhança e sob os códigos dos seus, ou mesmo sua bolsa em couro vegetal (a “Birkin da Gen Z”) ganha também, nos dias de hoje, lugar de luxo, por meio de uma pós-identidade de raiz. O desfile da Martine Rose, feito em uma feira de rua em Tottenham, bairro londrino povoado por latinos, feito com os seus para os seus, pode — sob a mesma ótica — ser considerado também moda-luxo.

Como parte disso, descolonizar travessias e identidades pelo olhar desses corpos é o que deve ser atrelado ao conceito de pós. “Agora que somos, quem seremos?” como sugere a carta de abertura deste Mjournal, trata disso.

Falamos muito de gênero, mas aqui também entram os corpos negros, os gordos, os dissonantes e todos os que estão na travessia de desmistificar os conceito impostos de identidade. Atravessar esses conceitos é transgredir. Entender, como já entendeu Ib Kamara, que a descolonização não vai ser resolvida com modelos negros vestindo roupas de seda em casas de colonizadores e que, além de ocupar espaços, o próximo passo é ressignificar. Que pessoas gordas não precisam estar somente com roupas justas para representar o quanto são quistos pelos seus corpos. Que um ser humano não-binário não precisa ser andrógino e que todes podem ser o que quiserem e quando quiserem. Que podem se deixar atravessar, que quem precisa chegar lá são as marcas, e não as pessoas. Que eu e você podemos ser a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma, como diz o meme (e a canção).

O conceito de pós identidade, então, deve estar em aceitar o devir, o atravessar, em encarar que toda a vez que a travessia é possível, o mapa de uma nova sociedade começa a se formar e, com isso, formam-se também uma nova imagem e uma nova moda que questionam a geografia dos materiais postos e das identidades vestidas sob códigos higienistas. Uma viagem marcada por diferentes fronteiras e com diferentes comandantes. Uma segunda revolução industrial, que como sugere Paul B, deve assumir que é o capital e não a vida que se reproduz, para desconstruir esse conceito e permitir uma nova passagem menos cristalizada. Uma nova trama de materiais, uma nova gramática de corpos e semânticas.

A parte que tangibiliza isso é a fala. Falar deixa Urano mais próximo: “com que voz podemos falar, nós que fomos negados?” pergunta Paul B.

Falar é inventar um idioma da travessia, e aqui passo minha voz pra todas as Camilas, Ariéis, Gustavos, Luanas, Luizas, Luisas, Mels, Glamours, Rosas, Leandros, Giulias, todes que podem  falar como esse atravessamento é, está sendo e (ainda) pode ser.


Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.