Sociedade


André Alves ︎


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© Lillya Rodnikova / Stocksy

Aos líderes de um futuro não tão distante





Reflexões para que as mesas de chefia não mais posterguem o amanhã.


“Como será o amanhã? Responda quem puder, o que irá me acontecer”. Poucas perguntas talvez sejam tão perfurantes quanto os versos do samba da União da Ilha do Governador do final dos anos 1970. Caos climático, instabilidades econômicas, polarizações políticas, a pandemia e, para completar, paira no ar a possibilidade de uma 3a Guerra Mundial sem precedentes. Pensar no amanhã não é tarefa fácil em um mundo que está sempre na iminência de acabar, mas imaginar o que vem depois é uma questão de sobrevivência. Não há humano capaz de suportar a realidade sem algum tipo de imaginação e fantasia, sem uma promessa, qualquer promessa, de dias melhores. Nesse sentido, talvez uma das grandes questões do nosso tempo seja: quem é capaz de imaginar esse amanhã? E quem poderá nos conduzir até lá?

Historicamente, atribui-se às juventudes a capacidade imaginativa e a coragem de desafiar o status quo, de propor o impensável e de convidar — ou forçar — o mundo a chegar no futuro. Ou pelo menos esse é o lugar simbólico das juventudes na sociedade ocidental desde a Modernidade. De certa forma, é como se a conta do mundo fosse colocada nas costas do jovem; e não faltam manchetes que sugerem que “a Geração Z vai mudar o mundo” e/ou “a Geração Z vai salvar o planeta”. É como se sobrasse para Grethas ou Nobrus; Txai Suruís ou Olivias Rodrigo a tarefa de nos levar à frente. A mídia e a cultura elegem jovens transformadores há pelo menos 50 anos, mas é curioso como os nomes que figuram no imaginário coletivo têm sido cada vez mais novos. Existiu um tempo em que os líderes do amanhã eram jovens adultos com menos de 30 anos; hoje muitos desses nomes são adolescentes.


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Txai Suruí durante COP26
Fonte:
WWF Brasil


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Olívia Rodrigo divulga a importância das vacinas na Casa Branca
Fonte:
CNN

O rejuvenescimento dos nossos heróis diz muito sobre a hipervalorização das juventudes na Cultura, além da relação mal-resolvida que seguimos tendo com o envelhecimento, mesmo com tantas discussões sobre idadismos. Paralelamente, o fetiche da mídia e do mercado por quem-é-a-Geração-Z-e-o-que-eles-farão-por-nós insiste na antiga armadilha de comparações que tentam afirmar que o jovem hoje é melhor ou pior que o restante da humanidade. Além disso, posterga as soluções do hoje para um outro idealizado – no caso, o genZ questionador e euphórico que lute. rySOS. Mas apesar da insistência de muitos nessa padronização e linearidade geracionais, é importante lembrar que juventude não é necessariamente uma idade, mas sim um profundo compromisso com a liberdade.

Nesse sentido, é curioso que muitos falem em uma geração que busca menos propósito e mais estabilidade; carteira assinada e casa própria. Pode parecer o oposto da liberdade e do “nada a perder”, mas o que está por trás disso é uma busca por algum tipo de reasseguramento, o desejo por encontrar alguma garantia — qualquer garantia — no meio de tantas incertezas. O mood é: “ninguém vai nos salvar. E eu também acho que não vou salvar ninguém. Então melhor fazer o meu próprio corre…Mas bem que algo ou alguém poderia me salvar, né?!”. Pelo menos estas são algumas das frases que aparecem nas frequentes conversas com jovens brasileiros que conduzimos na @floatvibes.

Ironicamente, a mesma internet e o mesmo mercado que idealizam e até responsabilizam os mais jovens pela construção do futuro são também aqueles que sentenciam esse grupo etário como o mais afetado pelos macro acontecimentos recentes: geração perdida, geração C(ovid) e até geração V(írus). É nesse panorama que líderes se tornam ainda mais fundamentais. Afinal, são as juventudes que estão perdidas ou os líderes atuais estacionaram no caminho de novos sonhos?

De maneira geral, líderes são pessoas que exercem influência sobre o pensamento e comportamento de outras. E apesar da relevância dos criadores e influenciadores digitais para juventude atual, também vivemos uma grande ressaca das más influências e falsas promessas, a venda de sua imagem a todo custo e as posições sociopolíticas tenebrosas. Mas nossa crise de aspiração e liderança também revela que parte de nossos ideais andam um tanto distorcidos.

Todo sujeito, para se desenvolver psiquicamente, precisa processar o fato de que não é perfeito, tem falhas, não é O (Eu) ideal. Pelo menos os neuróticos. Sabendo ou intuindo que não somos o acúmulo de todas as características almejadas, vamos buscar referenciais no mundo, nos outros, descobrir quem é inspiração de criatividade ou quem sabe muita coisa. São esses referenciais que passam a nos orientar, os ideais de Eu, como dizemos na psicanálise. Só que o empuxo ao narcisismo das redes insiste em nos convencer a ir contra essa trilha da subjetivação, teimando que podemos — e até devemos — acumular tudo de melhor se queremos ter algum sucesso. Simplificando bastante, o ideal se inflou e não basta mais ser um Eu Ideal, é preciso ser um Eu Ideal autêntico, sedutor, indestrutível — um Eu Ideal Anabolizado. Essa é a narrativa do empreendedor campeão, da Girlboss que dá conta de tudo, dos influenciadores que são tão insuperáveis que merecem nossa atenção 24/7.  E é nesse contexto que também estamos obcecados por versões idealizadas e até caricatas de líderes: os super-heróis.

As figuras com poderes e capacidades sobre-humanas dominaram o cinema / streaming a partir de 2008 e, 22 filmes depois do primeiro Homem de Ferro, o universo Marvel tornou-se a maior franquia cinematográfica de todos os tempos, uma arrecadação global de 25 bilhões de dólares. Mas para além dos efeitos especiais e hordas de celebridades alçadas ao posto de supers, um fenômeno interessante do culto aos super-heróis é como esses produtos de massa geralmente achatam conflitos psíquicos e saturam ideais. É como se super-heróis também fossem extraordinários por sua capacidade de simplificar paradoxos da vida, de acabar com problemas e desafios imensos com apenas um raio, uma martelada ou um simples estalar de dedos. Mas essa postura imediatista e fugaz não é uma unanimidade não;  muitos jovens se inspiram em trajetórias longas e consistentes de gente que de "super" não tem nada.

Um forte exemplo desse contra-movimento da idealização é a popularidade do senador norte-americano Bernie Sanders nas redes nos últimos anos. Favorito entre os democratas mais jovens, Bernie é muito mais que um “vovô radical” ou um herói que vai acabar com o capitalismo. Como escreveu o jornalista norte-americano Eric Levitz para a New York Magazine, uma das maiores razões para que as juventudes apoiem candidatos como Bernie Sanders ou mesmo Elizabeth Warren é que a narrativa neoliberal de mobilidade social e sucesso financeiro potencializada nas últimas décadas está basicamente quebrada.

Até aqui, o discurso vigente nos EUA foi o de que os jovens teriam direito à segurança econômica se jogassem de acordo com certas regras, o que se resumia a quatro anos de faculdade e um diploma que garantiriam acesso a bons salários e ao consumo. No entanto, a realidade dos dados é que (1) a taxa de desemprego entre os recém-formados universitários nos EUA é maior do que a taxa geral de desemprego do país pela primeira vez em mais de duas décadas, e (2) a renda média entre os recém-formados menos favorecidos é cerca de 10% menor do que era há três décadas. Tudo isso coroado por um débito estudantil assustador. Resumindo muito, quando a instabilidade do presente asfixia o amanhã, é tempo de seguir quem seja capaz de fabricar um novo futuro. EUA e Brasil são realidades muito diferentes, mas essa incerteza fundante é também sentida pela juventude brasileira mais desempregada da nossa história.

Se paira no ar um sentimento de que o futuro sumiu, as instabilidades sociais e econômicas potencializam uma certa “filosofia do corre”, uma mentalidade focada no presente e em garantir a sobrevivência, o que os americanos tentam glamourizar com o termo “hustler”. Assim, ganha muita admiração quem consegue vencer com seus próprios recursos, um enaltecimento de figuras que seguem a narrativa self-made. Ou seja, líder que é líder, é admirado porque foi do zero ao topo e construiu seu próprio caminho. Aqui os meritocratas se animam: 24% dos jovens das classes A, B e C com até 30 anos já são empreendedores e 60% querem ter um negócio próprio no futuro, segundo levantamento d’O Globo. Por um lado, dá para interpretar estes dados como uma vontade de exercer sua grande capacidade criativa, vencer na vida, disrupir, segue o sedutor canto da techtopia. Por outro, em um mercado de trabalho saturado e cada vez mais voraz, fazer o seu próprio corre acaba sendo a opção mais viável para muitos. Soma-se a esse caldo uma descrença nas instituições que enaltece ainda mais as empresas — “se não dá para confiar em instituições, melhor nos organizarmos do nosso jeito”.

Fonte:
Brazilian Aesthetics (@brazilian_pics)

É obviamente impossível falar em liderança sem invocar debates e reflexões sobre poder. Sobre quem parte de qual posição social no nono país mais desigual do mundo. Quem tem poder e como fazer esse poder trocar de mãos é uma discussão que atravessa todos nós. E grande parte das juventudes atuais entendem que, se o sistema quebrado nos convoca a inventar novos modos de vida, isso não será materializado do dia para noite. Assim, é preciso estabelecer compromissos com o futuro ao mesmo tempo que se garante a sobrevivência.

Nesse sentido, há uma valorização crescente de lideranças com vontade de fazer reformas. A eleição recente de Gabirel Boric, o presidente chileno mais jovem da história, mostra que esse apetite por transformações está entre nós. Um forte indicador é como os votos de mulheres com menos de 50 anos foram determinantes para o trunfo de Boric. Além disso, a receita da sua vitória está ligada à sua capacidade de ouvir o coletivo. Como escreveu o filósofo Vladimir Safatle, “'Boric foi eleito pela capacidade em permitir às forças em sublevação se articularem e unificarem”. "No lugar de promessas vazias, muito diálogo para permitir mudanças contundentes e embasadas na pluralidade dos movimentos populares das ruas chilenas."

Essa mentalidade gregária e coletiva se manifesta como característica admirada em diversos contextos. No universo do trabalho, por exemplo, alguns estudos mostram como entrevistados mais jovens tendem a preferir lideranças orientadas por consensos e posturas democráticas, líderes que colocam o bem-estar e as emoções das pessoas como prioridade. Há uma mudança importante aqui: no lugar da clássica mentalidade “o que importa é o resultado”, vai se instaurando uma visão de mundo em que a saúde mental e uma preocupação coletiva tornam-se princípios do sucesso ao invés de antagonistas. Dados que também apontam como o senso de comunidade vai se tornando inegociável.

Coletivos, movimentos sociais e DAOs (Organizações Autônomas Descentralizadas) vão se estabelecendo cada vez mais como experimentações do amanhã. Se a democracia ocidental está em crise, novas configurações organizacionais têm criado sistemas de liderança para substituir não apenas as estruturas corporativas, mas também para desafiar os modelos de governança. Subverter os eixos e diluir muros. Tudo isso reforça a grande valorização cultural da fluidez e da capacidade de transformação de comunidades com intenções partilhadas. Para muitos jovens, conceitos tradicionais e totalitários incomodam porque limitam, impedem e oprimem a criatividade e a autoexpressão. Não se trata de querer mudar o tempo todo, mas sim de ter todo o direito de mudar de ideia. Essa é uma juventude que quer ser livre para transitar, com menos preconceitos e cobranças.

Estar jovem nos anos 2020 é sobre assumir uma atitude simultaneamente conciliadora e destrutiva. Fluidez é uma característica inegociável para um mundo em que as mudanças acontecem em velocidade máxima; um tempo presente extremo em que as décadas parecem acontecer a cada cinco anos e não mais em dez. É com esse senso de urgência que novos modelos de liderança demandam emancipação. Mais coletivas, menos dogmáticas, mais próximas e acolhedoras, capazes de falar a verdade e proporcionar algum tipo de reasseguramento.

Quem sabe assim conseguimos transcender o contentamento crônico. Quem sabe assim podemos libertar um futuro que foi sequestrado, minerado, agredido. Quem sabe assim criamos novas instituições e modos de vida, possibilidades que não insistam exclusivamente na sobrevivência tecnoneoliberal. Quem sabe assim conseguimos garantir, sobretudo, que haverá um novo amanhã.


Trilha de audiodescrição: The Construal of Space in Language and Thought by Irama Gema

Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.